"Quando você sai de um lugar, precisa deixá-lo mais limpo do que estava antes." Quem disse isso não foi um filósofo zen, um monge tibetano nem o curador de um museu de arte contemporânea em Tóquio. Foi Hajime Moriyasu, técnico da seleção japonesa durante a Copa do Mundo do Qatar, em 2022, tentando explicar para a imprensa ocidental algo que, para ele, dispensava explicação.

No domingo, 14 de junho, o Japão empatou com a Holanda por 2 a 2 no AT&T Stadium, em Arlington, no Texas — resultado que exigiu uma virada de espírito dentro de campo, com o meia-atacante Daichi Kamada garantindo o empate nos minutos finais do Grupo F da Copa do Mundo de 2026. Mas a cena que viajou pelo mundo não foi o gol de Kamada. Foram as sacolas plásticas.

O gesto que atravessou quatro Copas do Mundo sem perder força

A primeira vez que o mundo esportivo ocidental parou para olhar com espanto para os torcedores japoneses carregando sacos de lixo dentro de uma arena de Copa foi em 2014, no Brasil. Naquele torneio, a seleção japonesa teve um desempenho decepcionante — perdeu para Costa do Marfim, Grécia e Colômbia e foi eliminada na fase de grupos sem pontuar o suficiente. A dor era real. As sacolas apareceram assim mesmo, setor por setor, partida após partida. A derrota não cancelou o ritual.

Quatro anos depois, em 2018, na Rússia, o roteiro dentro de campo foi ainda mais cruel. O Japão chegou a abrir 2 a 0 contra a Bélgica nas oitavas de final, em Rostov, antes de levar a virada por 3 a 2 — um dos resultados mais dolorosos da história recente do futebol asiático. Os torcedores japoneses na arena de Rostov ficaram entre a devastação e o silêncio por alguns minutos. Depois, abriram as sacolas. Limparam o setor. E foram embora.

No mesmo torneio, os jogadores japoneses deixaram o vestiário impecável, com uma mensagem escrita em russo: "obrigado". Um bilhete de gratidão ao país-sede, dobrado sobre uma bancada sem rastro de barro, fita adesiva ou copo descartado. O mundo fotografou aquilo. E a narrativa ganhou uma segunda camada: não era só a torcida. Era a delegação inteira.

Por que esse gesto provoca tanto espanto — e o que isso revela sobre os outros

Há um ditado popular brasileiro que diz que "em terra de cego, quem tem um olho é rei" — e talvez seja exatamente esse o desconforto silencioso que o gesto japonês provoca nos estádios de Copa. Não porque seja extraordinário no Japão, mas porque é extraordinariamente raro em qualquer outro lugar. O espanto não é com os japoneses. É com o espelho.

Nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, realizados em 2021, a prática foi observada novamente. Em Paris, em 2024, torcedores japoneses foram flagrados repetindo o hábito mesmo em modalidades onde o Japão não competia diretamente. A limpeza, ao que tudo indica, não é um ato de relações públicas. É um reflexo de uma educação que começa nas escolas japonesas, onde as crianças limpam as próprias salas de aula desde os primeiros anos do ensino fundamental — sem funcionários de limpeza, sem supervisão, por força de uma cultura chamada sōji.

O gesto que atravessou quatro Copas do Mundo sem perder força Como o Japão trans
O gesto que atravessou quatro Copas do Mundo sem perder força Como o Japão trans

O contraste com outras torcidas em Copas do Mundo não precisa ser nomeado para ser sentido. Basta caminhar pelos corredores de qualquer arena uma hora após o apito final para entender o que Moriyasu quis dizer. A maioria das torcidas deixa para trás o que não quer carregar. Os japoneses carregam o que não é deles.

"Quando você sai de um lugar, precisa deixá-lo mais limpo do que estava antes", disse Hajime Moriyasu durante a Copa do Qatar, em 2022, ao ser questionado sobre o hábito de torcedores e jogadores japoneses.

O que ainda falta entender sobre a tradição japonesa além do simbolismo

A pergunta que permanece, e que raramente é feita em meio à avalanche de elogios nas redes sociais, é se o gesto tem algum efeito concreto sobre a forma como o mundo trata seus próprios espaços públicos. Até agora, a resposta honesta é: pouco. O hábito japonês virou meme positivo, virou manchete, virou símbolo — mas não virou política pública em nenhum outro país. A admiração parou na hashtag.

Por que esse gesto provoca tanto espanto — e o que isso revela sobre os outros C
Por que esse gesto provoca tanto espanto — e o que isso revela sobre os outros C

Dentro de campo, o Japão de 2026 já mostrou que pode competir de igual para igual com uma das seleções europeias mais técnicas do torneio. O empate por 2 a 2 com a Holanda, alcançado duas vezes após sair em desvantagem, indica uma equipe com repertório ofensivo e resistência psicológica. Kamada, que garantiu o ponto com o gol nos minutos finais, representa a geração de japoneses que joga nas principais ligas europeias — um fenômeno que começou a tomar forma na virada do século e hoje é simplesmente a normalidade da seleção.

A questão que a Copa de 2026 ainda precisa responder é se o Japão consegue transformar empates em vitórias no mata-mata — fase em que a seleção caiu nos pênaltis contra a Croácia em 2022, depois de uma campanha de grupo admirável. O próximo teste vem rápido: na madrugada de domingo, 21 de junho, à 1h, o Japão enfrenta a Tunísia no estádio de Monterrey, no México, em jogo que pode definir a liderança do Grupo F.

"Quando você sai de um lugar, precisa deixá-lo mais limpo do que estava antes." Moriyasu disse isso tentando explicar uma sacola de lixo. Mas ao longo de quatro Copas do Mundo, o gesto foi acumulando camadas até se tornar outra coisa — uma pergunta incômoda endereçada a todos os outros que saem de um lugar e não olham para trás.