Uma chaleira que ferve devagar antes de explodir. A temporada 2025/26 do Flamengo no NBB foi exatamente isso — um acúmulo silencioso de rachaduras que desabou no pior momento possível: o jogo 5 das quartas de final, em Brasília, com 12.035 pessoas no Nilson Nelson empurrando o adversário para uma virada histórica. O placar final, 72 a 69, lacrou a caixão de uma campanha que nenhum torcedor rubro-negro queria ver se concretizar.

A fase regular que já anunciava o fim

O primeiro sinal de colapso não veio nos playoffs — veio muito antes, nas 38 rodadas da fase regular. Pela primeira vez na história do NBB, o Flamengo terminou a classificação fora do G-4, amargando uma inédita 5ª colocação. Para contextualizar a dimensão dessa queda: em 2016/17, temporada que até então dividia com esta o título de pior da história do clube, o time havia terminado a fase regular em 1º lugar antes de cair nas quartas. Agora, chegou às quartas sem a vantagem de decidir em casa no Maracanãzinho — e esse detalhe foi fatal.

Ficar atrás de Franca, Pinheiros, Minas e Brasília na tabela não foi azar. Foi o reflexo de um elenco que operou abaixo do seu potencial esperado durante meses. A perda do mando de quadra nas séries eliminatórias transformou o Nilson Nelson em campo minado para o Rubro-Negro, que viu o Brasília bater seu próprio recorde de público justamente no jogo decisivo da série.

As feridas que sangraram antes dos playoffs chegarem

Em fevereiro, o Flamengo sofreu aquela que é, por métricas objetivas, a derrota mais humilhante da sua história no NBB: 84 a 53 para o Pato Basquete — uma diferença de 31 pontos. Para comparar: a segunda pior derrota do clube havia sido por 24 pontos, sofrida para o Minas na temporada anterior. A distância entre um recorde e outro é quase do tamanho do intervalo entre dois grandes centros brasileiros — parece absurdo até colocar o número na tela.

Nessa mesma temporada, o time também registrou sua pior sequência de resultados: quatro derrotas consecutivas, um número inédito para um clube acostumado a ditar ritmo. Não por acaso, essa sequência começou com uma derrota justamente para o Brasília, na fase regular — o mesmo adversário que fecharia a temporada do clube nas quartas. O padrão de vulnerabilidade contra esse rival específico foi ignorado quando ainda havia tempo de corrigi-lo.

O colapso também não se limitou ao NBB. Em janeiro, na Copa Super 8, o Flamengo foi eliminado na semifinal pelo Minas, dentro do Maracanãzinho. Na Basketball Champions League Américas, o clube foi dominado pelo Boca Juniors. Três competições, três campanhas abaixo do esperado — não é coincidência, é padrão sistêmico.

"Brasília resiste, vence Flamengo e volta à semifinal do NBB após 10 anos", noticiou o Lance!, evidenciando o peso histórico da eliminação para o clube carioca.

O que muda no panorama do basquete brasileiro após essa eliminação

A saída precoce do maior campeão da história do NBB reorganiza o mapa de poder do basquete nacional. Com o Flamengo eliminado, a semifinal ganha novos protagonistas — e o Brasília, que não chegava a essa fase há 10 anos, surge como força real de disputa pelo título. O recorde de público no Nilson Nelson, com 12.035 torcedores, indica que a capital federal voltou a ter uma base apaixonada capaz de transformar o ginásio em fator competitivo.

Para o Flamengo, a consequência imediata é uma revisão obrigatória de elenco e comissão técnica antes da próxima temporada. A 5ª colocação na fase regular e a eliminação nas quartas representam o pior ciclo do clube desde 2016/17 — e a diretoria de basquete terá de responder a perguntas difíceis sobre gestão de elenco, preparação física e identidade tática. O clube segue como maior vencedor do NBB em toda a história da competição, mas a distância entre o passado glorioso e o presente medíocre nunca esteve tão visível.

A próxima janela de transferências será o teste real da ambição rubro-negra — o Flamengo tem estrutura para reconstruir em uma única offseason, mas precisará de decisões cirúrgicas, não de remendos.

O título está em aberto. O Brasília avança — o Flamengo, por ora, fica de fora.