O Brasil está realmente preparado para o que vem em 13 de junho? A pergunta não é retórica barata — ela carrega o peso de uma Copa do Mundo que começa em 13 dias, com Marrocos na frente, num grupo que também inclui Haiti e Escócia. O amistoso deste domingo (31) contra o Panamá, no Maracanã, não é só mais um jogo de preparação. É o penúltimo termômetro antes do torneio valer pra valer.
A história do futebol brasileiro está repleta de amistosos que enganaram e de amistosos que revelaram. Em junho de 1998, o Brasil goleou a Dinamarca por 3 a 1 em amistoso pré-Copa e chegou à final com a aura de favorito incontestável — até a noite de Saint-Denis, contra a França de Zidane, desfazer tudo. Amistosos mentem com elegância. Mas este domingo tem variáveis que impedem que Ancelotti o trate como exercício de rotina.
O Panamá não é adversário para subestimar nesta reta final
A seleção panamenha chega ao Maracanã sob o comando de Thomas Christiansen com uma estrutura tática reconhecível: bloco médio-baixo, transições rápidas pelas alas com Amir Murillo e Jorge Gutiérrez, e Cecilio Waterman como referência ofensiva. O Panamá estreia na Copa contra Gana no dia 17 e ainda enfrenta Croácia e Inglaterra na fase de grupos — o que significa que Christiansen também usará este domingo como laboratório sério, não como passeio.
A escalação provável do técnico italiano para o Brasil coloca Alisson no gol, Wesley e Alex Sandro nas laterais, Bremer e Léo Pereira na zaga, e Casemiro ao lado de Bruno Guimarães no meio. No ataque, Raphinha, Matheus Cunha e Vinicius Júnior formam o trio ofensivo com Luiz Henrique. A arbitragem é alemã, com Daniel Schlager no centro do campo e suporte do VAR de Robert Schröder — nível de Copa para um amistoso, o que já diz algo sobre a seriedade do evento.
A tese do ensaio tranquilo e a contra-leitura que ela ignora
A narrativa dominante trata este jogo como formalidade. O Panamá ocupa a 73ª posição no ranking FIFA, o Brasil está entre os cinco primeiros, e a lógica manda que a Seleção vença com folga e siga para o amistoso contra o Egito no dia 6. Essa leitura tem fundamento: o histórico de confrontos entre os dois países é categórico a favor do verde-amarelo, sem derrotas registradas nas últimas décadas.
Mas há uma contra-leitura que merece atenção. Ancelotti ainda não fechou o esquema definitivo para a Copa — a dúvida entre um 4-2-3-1 mais compacto e um 4-3-3 com mais liberdade para Vinicius Júnior é real. Matheus Cunha, escalado como camisa 10 de fato neste domingo, precisa mostrar que sustenta a posição por 90 minutos contra uma defesa organizada. Luiz Henrique, que surge como ala esquerda alternativa a Rodrygo, tem este jogo como sua vitrine mais importante antes da lista final ser congelada. O amistoso é, portanto, um tribunal com prazo: quem não convencer aqui enfrenta o risco de ser coadjuvante em junho.
"Não temos um Pelé, um Romário, um Ronaldo, mas podemos ter responsabilidade compartilhada e isso é muito bom", disse Carlo Ancelotti neste sábado (30), na coletiva de imprensa, sinalizando que a Seleção deste ciclo se apoia na coletividade mais do que em um nome isolado.
O que o Brasil precisa resolver antes de encarar Marrocos
Marrocos não é Panamá. A seleção africana eliminou Portugal e chegou às semifinais da Copa de 2022, no Qatar, com uma das defesas mais organizadas do torneio — sofreu apenas um gol em cinco jogos antes de cair para a França. Contra esse adversário, o Brasil precisará de velocidade nas transições, precisão nos passes verticais e, acima de tudo, paciência para desmontar um bloco baixo. São exatamente essas qualidades que o duelo deste domingo pode ajudar a calibrar.

A transmissão ao vivo estará na Globo em TV aberta, no SporTV por assinatura e no canal geTV no YouTube — o que garante ao jogo uma audiência à altura de sua importância. Para quem acompanha a Seleção há décadas, há algo de familiar neste ritual do último amistoso antes do Mundial: a tensão contida, o torcedor que já imagina o grupo, o técnico que sorri mas não entrega o que pensa de verdade.
"A preparação está indo bem, os jogadores estão comprometidos", afirmou Ancelotti, sem revelar se fará alterações táticas para o jogo contra o Egito em seguida.
A síntese honesta é esta: o Brasil deve vencer o Panamá neste domingo, provavelmente com conforto. Mas a vitória importa menos do que as respostas individuais que Ancelotti vai colher ao longo dos 90 minutos. Luiz Henrique confirma a titularidade? Casemiro aguenta o ritmo de Copa? Matheus Cunha é o camisa 10 que a Seleção precisa? Estas perguntas têm prazo de validade curto — o Brasil volta a campo no dia 6, contra o Egito, e depois disso a Copa começa de verdade, com Marrocos em campo no dia 13.












