Confesso: eu errei sobre os Estados Unidos em 2024. Quando Mauricio Pochettino foi anunciado como técnico da seleção americana, em setembro daquele ano, escrevi aqui mesmo no SportNavo que o trabalho seria bonito nos bastidores mas invisível em campo numa Copa do Mundo com sede em casa. Hoje, depois de ver a equipe golear o Paraguai por 4 a 1 e vencer a Austrália com autoridade por 2 a 0, preciso rever essa avaliação — e o faço com prazer.

O gatilho para essa reavaliação não veio da minha cabeça. Veio de Zlatan Ibrahimovic, que comentava ao vivo pela Fox Sports após a vitória americana em Seattle. Quando a apresentadora Rebecca Lowe pediu uma única palavra para responder se os EUA poderiam levantar o troféu, o sueco não hesitou: "Sim." E antes disso, havia deixado uma frase que resume bem o momento da seleção anfitriã.

"Se vocês não acreditavam antes, vou repetir: comecem a acreditar. Eles têm o país inteiro torcendo por eles, e quando se tem esse apoio, é difícil derrotá-los."

Thierry Henry, campeão do mundo com a França em 1998 e também comentarista na transmissão, reforçou a percepção: "De repente, quando todos começam a acreditar que pode acontecer, as coisas podem ser feitas." Dois nomes que sabem o que é ganhar — ou quase ganhar — o maior torneio do planeta, falando na mesma direção. Isso não é decoração retórica. É dado.

O que a história diz sobre os EUA neste momento

Existe um número que me chamou mais atenção do que qualquer gol desta fase de grupos: os Estados Unidos estão vencendo dois jogos seguidos em Copas do Mundo pela primeira vez desde 1930. Para contextualizar o tamanho desse jejum, lembro que em 1930 ainda não existia televisão, a Copa tinha 13 seleções e a Argentina perdeu a final para o Uruguai. Entre aquele torneio e este, os americanos participaram de doze edições e nunca conseguiram encadear duas vitórias consecutivas. Noventa e seis anos de espera.

Quando coloco esse dado ao lado da trajetória europeia que conheço bem, o paralelo que me vem à cabeça é a Dinamarca de 1992. Aquela seleção chegou ao torneio como substituta da Iugoslávia, sem preparação adequada, e foi campeã da Eurocopa. O fator emocional combinado com organização tática criou algo que os números prévios não previam. Os EUA de 2026 têm algo parecido: uma estrutura que finalmente funciona, um ambiente favorável e a certeza de que nada do que aconteceu antes da Copa importa mais.

A diferença entre a qualidade do atual grupo americano e a geração que foi eliminada na fase de grupos em 2014 e em 2022 é da ordem de uma distância como a que separa Manaus de Salvador — geograficamente próximos no mapa do mundo, mas com 2.700 quilômetros de diferença real no terreno… e aí vem o problema: essa distância ainda existe quando o assunto é profundidade de elenco.

O que a história diz sobre os EUA neste momento Como os EUA vencem dois jogos se
O que a história diz sobre os EUA neste momento Como os EUA vencem dois jogos se

O que Pochettino construiu e por que isso importa agora

Ibrahimovic foi preciso ao elogiar a escolha tática do argentino contra a Austrália: "O Pochettino fez muito bem em apostar em dois atacantes. Fizeram uma pressão alta e obrigaram a Austrália a jogar com bolas longas." Quem acompanhou o trabalho de Pochettino no Tottenham entre 2014 e 2019 — quando ele levou o clube à final da Champions de 2019 com um orçamento inferior ao dos rivais diretos — reconhece essa assinatura: pressão organizada, transições rápidas e uma identidade coletiva que substitui as estrelas individuais quando elas não aparecem.

O gol contra de Cameron Burgess logo no início contra a Austrália foi resultado direto dessa pressão. O segundo gol, de cabeça por Alex Freeman, confirmou que a equipe sabe converter pressão em volume de finalizações. Não é futebol espetacular; é futebol funcional executado com disciplina — exatamente o que Pochettino produziu com Harry Kane e Dele Alli no auge do Spurs.

O próprio técnico comparou o ambiente que encontrou nos EUA ao da Argentina, seu país natal, ao falar com jornalistas após a vitória em Seattle. Essa conexão emocional não é detalhe. Na Copa de 2018, a França de Deschamps usou o calor popular como combustível em momentos de dificuldade. Em 2006, a Itália de Marcello Lippi transformou a crise interna do Calciopoli em energia coletiva. A pressão do público pode destruir uma equipe frágil ou fortalecer uma equipe coesa.

O que ainda falta para os EUA chegarem ao título

A campanha de grupos é um argumento, não uma prova. Paraguai e Austrália são seleções de segundo escalão no contexto global de 2026 — o Paraguai terminou a fase de grupos eliminado, e a Austrália, apesar de ter chegado às quartas em 2022, não apresentou ameaça real em Seattle. A terceira partida do grupo, contra a Turquia já eliminada, será o momento de Pochettino rodar o elenco e medir a profundidade do banco.

E é exatamente aí que mora a maior vulnerabilidade americana. A geração de Christian Pulisic é talentosa, mas o segundo e o terceiro nomes do elenco ainda não foram testados contra seleções da elite europeia ou sul-americana. Uma eventual oitava de final contra uma equipe como Portugal, Alemanha ou Argentina exigirá um nível técnico diferente do que foi necessário até aqui. A Espanha de 2010, por exemplo, tinha Xavi, Iniesta, Villa e mais seis jogadores de nível Champions League em cada posição — os EUA de 2026 ainda não chegaram a essa densidade.

A história das Copas também ensina que os países anfitriões têm uma vantagem real, mas não automática. Brasil em 2014 e África do Sul em 2010 foram anfitriões eliminados antes da final. Argentina em 1978, França em 1998 e Alemanha em 2006 — quando chegou à final — mostraram que o fator casa amplifica o que já existe, mas não cria do zero o que falta.

O que os EUA têm de concreto é o seguinte: organização tática sólida sob Pochettino, dois resultados positivos que geraram confiança genuína no grupo e um ambiente de arena que a Fox Sports e o próprio Ibrahimovic descreveram como avassalador. O que falta é provar isso contra adversário de peso — e essa resposta chegará nas oitavas de final, cujo adversário dos americanos será conhecido após o encerramento da fase de grupos. O jogo contra a Turquia está marcado para quinta-feira, em Los Angeles, sem pressão de resultado, mas com todo o valor de um ensaio antes do mata-mata real começar.