Não é a idade que coloca Van Dijk diante de um possível adeus à Copa do Mundo. O zagueiro holandês tem 34 anos — a mesma faixa etária em que Franz Beckenbauer disputou o Mundial de 1978 na Argentina, ou em que Paolo Maldini seguia sendo o melhor defensor do planeta em 2002. O que pesa sobre Virgil van Dijk é outra coisa: o custo humano de ser o último porto seguro de todos ao redor.

A temporada que Van Dijk nunca viveu antes no Liverpool

O ano que antecedeu esta Copa começou a desmoronar em 3 de julho de 2025, quando Diogo Jota morreu em um acidente de carro na província de Zamora, no noroeste da Espanha. Para Van Dijk, que dividia o vestiário de Anfield com o atacante português há anos, a notícia chegou por telefone — e o impacto não se dissipou com o passar dos meses.

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"Simplesmente não acabava nunca. Desde a ligação que recebi com a terrível notícia sobre o Diogo até o momento em que me sentei na grama no mês passado assistindo às despedidas do Salah e do Robertson. Lesões, problemas pessoais, jogos ruins, todo tipo de coisa acontecendo. Nesses oito anos no Liverpool, nunca vivi nada parecido", disse Van Dijk ao NUsport, da Holanda.

A frase merece contexto histórico. Em oito temporadas pelo Liverpool — entre 2018 e 2026 —, Van Dijk viveu a conquista da Premier League de 2019/2020, quando o clube encerrou 30 anos de jejum, e a Champions League de 2019. Foram ciclos de euforia coletiva. O que ele descreve agora é o oposto exato: uma temporada 2025/2026 que acumulou luto, despedidas e inconsistência técnica num time que já não tinha o mesmo núcleo emocional dos anos de ouro.

O zagueiro admitiu ainda que, ao longo da temporada, assumiu responsabilidades além do que conseguia suportar. "Costumo me dispor a ajudar os outros. No entanto, no Liverpool, no ano passado, por vezes assumi mais do que podia. Estou aprendendo com isso também", disse. Quem conhece o perfil de liderança de Van Dijk entende o peso dessa confissão — ele nunca foi o tipo de capitão que delega o fardo emocional.

A Eurocopa de 2024 e o momento em que Van Dijk pensou em abandonar a Holanda

O desgaste não começou com a morte de Jota. Ele tem uma data anterior: julho de 2024, quando a Holanda foi eliminada pela Inglaterra na semifinal da Eurocopa, após sofrer uma virada com gol de Ollie Watkins nos minutos finais. Para um defensor que construiu sua reputação sobre a solidez — Van Dijk terminou a Premier League 2021/2022 com apenas 26 gols sofridos em 38 jogos pelo Liverpool —, levar um gol decisivo naquele contexto foi devastador.

"Lembro-me de estar na zona mista depois da derrota na semifinal contra a Inglaterra e sentir-me exausto. Estava devastado pela derrota, devastado pela negatividade. Eu já não aguentava mais", revelou o capitão holandês.

O paralelo histórico aqui é inevitável. A Holanda tem uma relação tortuosa com semifinais de grandes torneios — perdeu a final da Copa de 1974 para a Alemanha Ocidental, a de 1978 para a Argentina e a Eurocopa de 1988 foi sua única conquista continental. Van Dijk carrega sobre os ombros não apenas sua própria pressão, mas décadas de expectativa de um país que sempre esteve a um passo do topo. Em março de 2025, ele se reuniu com um grupo ampliado da seleção para expor sua visão sobre o ambiente — um gesto que, num vestiário europeu, equivale a uma declaração pública de crise interna.

Que ele não tenha abandonado a camisa laranja diz muito sobre seu senso de dever. Mas diz mais ainda sobre o quanto esse senso de dever o consome.

Seis dias de descanso e o que Van Dijk precisa mostrar na Copa do Mundo

Entre o fim da temporada europeia e a viagem ao torneio, Van Dijk conseguiu apenas seis dias com a família — esposa, filhos, mãe e sogros. Ele foi direto: não foi tempo suficiente para processar tudo, mas foi o bastante para mudar de mentalidade. Quem já acompanhou ciclos de grandes zagueiros sabe que essa fronteira entre o esgotamento pessoal e a performance coletiva é onde carreiras se definem.

Pense em Franco Baresi, que disputou sua última Copa em 1994 aos 34 anos — a mesma idade de Van Dijk agora — e chegou à final contra o Brasil carregando uma cirurgia no joelho feita semanas antes. Ou em Gaetano Scirea, que encerrou sua trajetória na Juventus em 1988 com a mesma elegância com que a começou. Esses jogadores não eram invulneráveis; eram capazes de compartimentar a dor. Van Dijk está tentando aprender essa habilidade em tempo real, diante de câmeras e microfones.

A Holanda chega à Copa do Mundo de 2026 com um elenco competitivo — Xavi Simons, Cody Gakpo e Tijjani Reijnders formam uma geração de meio-campo que não existia nos ciclos anteriores. Mas nenhum deles tem a autoridade simbólica do capitão. Se Van Dijk conseguir traduzir o luto e o cansaço em liderança serena dentro de campo — como fez Baresi em Pasadena em julho de 1994 —, a Laranja Mecânica pode ir longe. Se o peso emocional da temporada o alcançar nas partidas decisivas, a Copa pode mesmo ser seu adeus.

A Holanda estreia na Copa do Mundo de 2026 em 11 de junho, contra o Senegal, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Nessa tarde, saberemos se Van Dijk conseguiu, de fato, mudar de marcha.