Terça-feira, 2 de junho de 2026. Enquanto o sol ainda não havia aquecido o gramado do CT do Red Bull, em Basking Ridge, Nova Jersey, Neymar pisava no campo pela primeira vez em solo norte-americano como convocado da Seleção Brasileira. A cena carregava uma carga simbólica que nenhum roteiro de ficção científica teria ousado escrever: o maior artilheiro da história do Brasil, aos 34 anos, tentando provar que ainda pertence a uma Copa do Mundo.
O contraste com Vinicius Júnior não poderia ser mais eloquente. Na mesma semana, a BBC inglesa publicava análise elegendo o atacante do Real Madrid como um dos principais candidatos à Chuteira de Ouro da Copa do Mundo 2026 — ao lado de Mbappé, Kane, Messi, Haaland, Cristiano Ronaldo e Lamine Yamal. Dois brasileiros, dois momentos de carreira absolutamente distintos, uma única camisa.
O Grupo C e o que os números dizem sobre os adversários do Brasil
O Brasil está no Grupo C ao lado de Marrocos, Escócia e Haiti. A estreia está marcada para 13 de junho, um sábado, às 19h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Para quem acompanha o futebol com memória histórica, Marrocos não é adversário para subestimar: a seleção africana chegou às semifinais da Copa do Mundo de 2022, no Catar, eliminando Espanha e Portugal no caminho — feito inédito para uma nação africana.
Historicamente, o Brasil nunca perdeu para Marrocos em Copas do Mundo. O único confronto oficial entre as seleções ocorreu em 1970, no México, com vitória brasileira por 1 a 0, gol de Jairzinho. Mas comparar aquele Marrocos com o de 2026 seria o mesmo que comparar o Corinthians de 1977 com o time que venceu o Mundial de Clubes em 2012. A seleção de Walid Regragui construiu uma identidade defensiva sólida e um contra-ataque letal que derrubou potências europeias há menos de quatro anos.
Escócia e Haiti completam o grupo. O ex-jogador Cicinho, no programa Jogo Aberto da Band nesta quarta-feira (3), foi categórico ao analisar o confronto com os haitianos, marcado para 19 de junho na Filadélfia:
"O treinador do Haiti testou bastante jogadores. Talvez, para saber qual time vai perder para o Brasil. Porque vai ser um atropelo." — Cicinho, ex-jogador e comentarista
A observação de Cicinho tem fundamento estatístico. O Haiti chegou à Copa após vencer a Nova Zelândia por 4 a 0 num amistoso preparatório, mas o nível de exigência contra o Brasil é de outra magnitude. Nas últimas quatro edições do torneio, o Brasil eliminou adversários de nível similar com médias superiores a 2,5 gols por partida na fase de grupos.
Vini Jr. entre os favoritos à Chuteira de Ouro e o que os dados sustentam
O histórico de Vinicius Júnior pela Seleção Brasileira — entre oito e nove gols em 47 ou 48 partidas — pode parecer modesto para quem o vê devastar defesas na Champions League. Mas a BBC fundamentou sua análise no desempenho recente do atacante em grandes palcos europeus, onde o contexto coletivo do Real Madrid potencializa suas características individuais de forma que a Seleção, em ciclos anteriores, nem sempre conseguiu replicar.

Para efeito comparativo: Ronaldo Fenômeno marcou 15 gols em 19 jogos de Copa do Mundo, média de 0,79 por partida. Romário fez 5 em 7 jogos em 1994, média de 0,71. Vini Jr. precisaria de algo entre 6 e 7 gols para entrar nessa conversa histórica — número factível num torneio de 7 partidas se o Brasil chegar à final. A lista da BBC inclui ainda Raphinha e Igor Thiago como candidatos a surpresa, o que demonstra que o potencial ofensivo brasileiro é reconhecido além das fronteiras.
A disputa pela Chuteira de Ouro, contudo, depende de variáveis coletivas. Mbappé, por exemplo, marcou 12 gols em 14 jogos de Copa do Mundo pela França. Haaland nunca disputou um Mundial. Messi, aos 38 anos, chega ao torneio com uma inflamação no isquiotibial esquerdo — exames descartaram ruptura muscular, mas a Argentina planeja poupá-lo no amistoso contra Honduras no dia 6 de junho. O campo está mais aberto do que parece.
A situação de Neymar e o peso de uma panturrilha que o Brasil conhece bem
Existe uma cena no filme Invictus em que Nelson Mandela pergunta ao capitão Francois Pienaar quanto tempo ele tem para preparar o time. A resposta é: menos do que o necessário, mais do que o suficiente. A situação de Neymar na Copa do Mundo 2026 ecoa essa lógica. O atacante realizou o primeiro treino com o grupo nos EUA, mas a questão não é apenas física — é narrativa.
Neymar acumula 79 gols em 129 jogos pela Seleção, marca histórica que nenhum brasileiro superou. Mas nas últimas duas Copas do Mundo, lesões interromperam campanhas: em 2014, fratura na vértebra contra a Colômbia nas quartas de final; em 2022, lesão no tornozelo logo na estreia contra a Sérvia, retornando apenas nas oitavas. O padrão preocupa qualquer torcedor que acompanhou esses ciclos de perto.
O técnico Carlo Ancelotti, que assumiu a Seleção após anos de Real Madrid, terá de administrar essa variável com precisão cirúrgica. A presença de Neymar no grupo — mesmo que como opção e não como titular absoluto — altera o comportamento dos adversários na marcação, cria linhas de passe que não existiriam sem ele e libera espaços para Vini Jr. explorar. Essa função de gravitação tática tem valor independente dos minutos jogados.
O Brasil enfrenta o Egito neste sábado (6) num amistoso preparatório em Nova Jersey, antes de estrear oficialmente contra Marrocos em 13 de junho. Será o último teste real antes de Ancelotti bater o martelo sobre a escalação para o MetLife Stadium — e a decisão sobre o papel de Neymar nesse onze inicial pode definir o tom de toda a campanha brasileira no torneio.












