Confesso: eu errei sobre Neymar no começo desta temporada. Escrevi, em fevereiro, que ele não chegaria competitivo à Copa. Que o corpo não aguentaria. Que o Santos seria palco de despedida, não de ressurreição. Hoje, na quarta-feira 13 de maio, com a convocação marcada para segunda-feira que vem e o nome dele na pré-lista de 55 enviada à FIFA, preciso revisitar essa análise — porque os números de 2026 estão me cobrando a conta.
O que Ancelotti e Davide enxergam no Neymar de hoje
Na sede da CBF, no Rio de Janeiro, Carlo Ancelotti sentou diante da Reuters com a calma de quem já viveu finais de Champions League e não se deixa intimidar por pergunta de repórter. O tema Neymar dominou a conversa. O treinador italiano foi direto:
"Neymar é um jogador importante para este país devido ao talento que sempre demonstrou. Mas ele teve problemas e está trabalhando duro para se recuperar. Ele melhorou muito recentemente e está jogando regularmente. Obviamente, não é uma decisão fácil para mim. Temos que pesar os prós e os contras com cuidado."
Ancelotti foi além. Apontou uma virada de chave nos últimos 15 a 20 dias — exatamente o período em que o aspecto físico de Neymar deu um salto visível. O atacante marcou contra o Red Bull Bragantino no último fim de semana, e a regularidade de atuações começa a construir um argumento que vai além da saudade e da nostalgia.
Do outro lado do Atlântico, Davide Ancelotti, filho e auxiliar do técnico, reforçou a leitura ao podcast Tripletta, da Gazzetta dello Sport:
"Se ele está nesta lista é porque sua condição física está melhorando. Até o dia 18 de maio, faremos a redução para chegar aos 26 nomes que irão para os Estados Unidos."Duas vozes da mesma comissão técnica, afinadas na mesma frequência. Isso não é coincidência.
Os números no Santos e o que eles realmente significam
A temporada de Neymar pelo Santos em 2026 não é de craque dominante — e seria desonesto dizer que é. Mas ela tampouco é a ruína que parte da imprensa antecipou. O gol diante do Bragantino foi mais um capítulo de uma sequência de atuações com maior volume físico, algo que não se via desde antes da cirurgia no joelho esquerdo, em outubro de 2023.
Aqui está o dado que gruda: Neymar, com 34 anos, acumulou nesta temporada mais participações diretas em gols pelo Santos do que a soma de gols marcados por toda a linha defensiva do próprio clube no Campeonato Brasileiro — um recorte que evidencia o peso ofensivo que ele ainda carrega mesmo em ritmo de recuperação. A comparação não é para elogiar a defesa santista, é para dimensionar o que esse homem ainda produz quando está em campo.
A questão da intensidade, porém, permanece no centro do debate. Ancelotti reconheceu que "há jogos e jogos" — uma frase curta que esconde uma preocupação real: o Brasil entra no Grupo C contra Marrocos em 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), com o calor dos Estados Unidos como fator extra. Davide Ancelotti foi o primeiro a alertar que "o calor será um fator a não ser subestimado". Um jogador que chegou à regularidade há apenas três semanas aguenta esse nível de exigência por quatro rodadas eliminatórias?
A disputa pela vaga e o que pesa contra Neymar além do campo
Com a ausência de Estêvão na pré-lista, a comissão técnica avalia se abre espaço para um atacante extra ou para mais um meio-campista. Nomes como Rayan, Pedro e Andrey Santos disputam essa faixa de vagas. Pedro, por exemplo, tem mais gols na temporada do que Neymar — mas Ancelotti nunca o testou em um esquema titular sob seu comando, o que cria uma variável técnica difícil de ignorar.
O ambiente externo também pesa. Ancelotti foi explícito ao dizer que não teme o vestiário — "não é como se eu fosse soltar uma bomba", afirmou, referindo-se ao carinho que os próprios jogadores demonstram pelo camisa 10. O problema, segundo o treinador, está fora do campo:
"Eu não posso controlar o ambiente externo e o que a mídia diz."Episódios recentes extracampo, segundo apuração da coluna de Rodrigo Mattos no UOL, aumentaram a preocupação interna da CBF com o impacto comportamental na delegação. Ancelotti não citou esses episódios publicamente, mas a ressalva sobre o "ambiente externo" soa como uma resposta cifrada.
A decisão, deixou claro o técnico italiano, é e será exclusivamente dele: "A decisão será 100% profissional. Levarei em consideração apenas o seu desempenho como jogador de futebol. Nada mais." Sem pressão de dirigentes, sem lobby de torcida, sem conselho de ex-jogadores — por mais que todos os tenham oferecido nas últimas semanas.
Na próxima segunda-feira, 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, Carlo Ancelotti anuncia os 26 nomes. Neymar tem 34 anos, um gol no último jogo e 15 dias de crescimento físico documentado pela própria comissão técnica. Esse é o dossiê completo que o italiano tem na mesa.









