O vento quente do México carregava duas histórias opostas na noite desta terça-feira. De um lado, lágrimas de alegria de jogadores que fizeram história. Do outro, o silêncio ensurdecedor de uma potência mundial em crise. A repescagem da Copa do Mundo de 2026 selou destinos contrastantes: a República Democrática do Congo voltou ao palco principal após 52 anos, enquanto a Itália ficou fora pelo terceiro Mundial consecutivo.
O estádio Azteca vibrou quando o zagueiro Chancel Mbemba, da Premier League, marcou aos 107 minutos de jogo. A prorrogação contra a Jamaica não foi apenas uma partida - foi a materialização de um sonho que dormitava desde 1974. Os Leopardos rugiam novamente.
O milagre congolês: quando a história se repete depois de meio século
A temperatura beirava os 28 graus na Cidade do México quando o juiz apitou o início do confronto decisivo. Nas arquibancadas, bandeiras vermelhas, amarelas e azuis tremulavam ao vento - cores que não apareciam numa Copa desde que Mobutu ainda governava o Zaire. A pressão era palpável no ar rarefeito da capital mexicana.
Durante 90 minutos, jamaicanos e congoleses se equivaleram no placar e na intensidade. O empate em 1 a 1 no tempo normal levou a decisão para os 30 minutos extras, onde a experiência europeia de Mbemba fez a diferença. O defensor do Crystal Palace, com 30 anos e mais de 200 jogos na Premier League, aproveitou cobrança de escanteio para cabecear no ângulo direito do goleiro Andre Blake.

A explosão de alegria tomou conta não apenas do estádio, mas de todo o continente africano. Yannick Bolasie, meio-campista de 35 anos que disputou a Premier League por oito temporadas, chorava copiosamente no gramado. Aos seus pés, a realização de uma geração inteira que cresceu ouvindo histórias sobre 1974, quando o país ainda se chamava Zaire e chegou às oitavas de final na Alemanha Ocidental.
Com a classificação, o Congo integra o Grupo K ao lado de Portugal e Colômbia - um sorteio que promete confrontos épicos entre Cristiano Ronaldo e uma geração congolesa faminta por protagonismo internacional. Será a quinta participação africana na Copa de 2026, consolidando o crescimento técnico do futebol continental.
O pesadelo italiano: Gattuso e a terceira ausência consecutiva
A quase três mil quilômetros de distância, em Sarajevo, o frio cortante da noite bosníaca testemunhava outro drama. O estádio Grbavica fervia com 15 mil torcedores locais, mas o silêncio que se seguiu à cobrança final dos pênaltis ecoou até Roma. A Itália, tetracampeã mundial e atual campeã europeia, estava novamente fora de uma Copa do Mundo.
Gennaro Gattuso, aos 48 anos, carregava o peso de uma nação inteira sobre os ombros quando a disputa por pênaltis começou. O técnico que conquistou dois Champions League como jogador do Milan assistiu impotente enquanto Federico Chiesa, atacante da Juventus com 26 anos e autor de 12 gols na temporada 2025-26, desperdiçava a cobrança decisiva.
O empate por 1 a 1 no tempo normal já havia deixado a Azzurra em situação delicada. Nicolo Barella, meio-campista da Inter de Milão, havia aberto o placar aos 23 minutos, mas Edin Dzeko, aos 38 anos e ainda letal, empatou para os bósnios antes do intervalo. A prorrogação manteve o placar inalterado, levando a decisão para as penalidades.
'Peço desculpas ao povo italiano. Falhamos novamente quando mais precisávamos acertar. Esta dor vai ficar conosco para sempre', declarou Gattuso na entrevista coletiva pós-jogo, visivelmente abalado.
A eliminação marca o terceiro Mundial consecutivo que a Itália perde - Rússia 2018, Qatar 2022 e agora Estados Unidos/México/Canadá 2026. Para uma seleção que possui quatro títulos mundiais e chegou à final da Eurocopa de 2024, a ausência representa uma crise estrutural profunda no futebol peninsular.
Contrastes continentais: África em ascensão, Europa em crise
Os resultados da repescagem cristalizam uma mudança tectônica no futebol mundial. Enquanto a República Democrática do Congo celebra sua volta após cinco décadas, a Itália enfrenta questionamentos sobre sua metodologia de formação e planejamento de longo prazo.
Para o futebol africano, a classificação congolesa soma-se às presenças confirmadas de Marrocos, Senegal, Tunísia e Nigéria, totalizando cinco representantes continentais - o maior número da história em Copas do Mundo. O crescimento técnico das seleções africanas, impulsionado pela experiência de jogadores em ligas europeias, reflete-se nestes números.

Do lado europeu, a ausência italiana junta-se à eliminação precoce da Holanda na repescagem, sinalizando que as potências tradicionais não podem mais confiar apenas no passado glorioso. A Azzurra soma agora oito anos sem Copa do Mundo - um jejum impensável para uma seleção que tradicionalmente figura entre as favoritas.

O técnico Sébastien Desabre, francês de 48 anos que comanda o Congo, construiu um trabalho de três anos baseado na disciplina tática e no aproveitamento de jogadores da diáspora. Diferentemente da Itália, que ainda busca uma identidade pós-Mancini, os Leopardos souberam maximizar seu talento limitado com organização coletiva.
A Copa do Mundo de 2026, expandida para 48 seleções, promete ser palco de surpresas como esta. Com três países-sede e um formato renovado, o torneio já nasce marcado pelos contrastes entre tradição e renovação, entre potências decadentes e emergentes famintos por reconhecimento. O Congo provou que, no futebol, a história sempre pode ser reescrita - mesmo depois de 52 anos de espera.

