Ser campeão interino dos meio-médios do UFC e sair pela porta dos fundos dois anos depois — esse é o paradoxo que define a trajetória de Colby Covington. A contradição não é acidente: é a síntese de uma carreira que atingiu o teto com uma persona construída sobre provocação e resultados, mas que desmoronou quando os resultados pararam de aparecer e só a provocação ficou.
O auge que Covington construiu e o peso que ele não conseguiu sustentar
Entre 2017 e 2019, Covington foi o lutador mais incômodo e eficiente da divisão dos meio-médios (77 kg). Enfileirou sete vitórias consecutivas, conquistou o cinturão interino ao nocautear Rafael dos Anjos em junho de 2018 e se tornou o principal rival de Kamaru Usman — duas lutas entre eles, ambas decididas nos rounds finais, com Usman levando as duas. Essa rivalidade colocou Covington em posição de destaque global, com dois dos cards mais assistidos da divisão na história recente do Ultimate.
O problema é que rivalidade não paga o aluguel indefinidamente. Reparemos no detalhe: após a segunda derrota para Usman, em novembro de 2021, Covington disputou apenas mais duas lutas no UFC — contra Leon Edwards, em julho de 2023, e uma última apresentação em 2024. O saldo dessas quatro lutas finais foi de apenas uma vitória, contra Jorge Masvidal, em março de 2022. Quatro reveses nas últimas oito lutas dentro da organização é um retrospecto que nenhum legado anterior consegue encobrir.
O que os números revelam sobre o declínio técnico de Covington
O contra-argumento mais comum para defender Covington é o de que ele perdeu apenas para campeões — Usman duas vezes, Edwards uma. Há verdade nisso, mas é uma verdade incompleta. A questão não é para quem ele perdeu, mas como. Nas últimas aparições, Covington demonstrou dificuldade crescente para impor o wrestling que o tornou dominante, especialmente contra adversários com base sólida no chão. Contra Edwards, em julho de 2023, foi finalizado no quinto round — uma derrota que expôs limitações físicas e táticas que a idade de 36 anos acentuou.
Segundo o perfil UFC Roster Watch, referência no monitoramento de cortes da organização, Covington acumulava duas derrotas consecutivas no momento do desligamento e não entrava no octógono desde 2024. No esporte de alto rendimento, inatividade combinada com sequência negativa é uma equação sem solução dentro de uma organização que paga para ver performances, não para honrar histórico.
Mayra Sheetara e o custo de cinco derrotas seguidas no peso-galo
O corte da brasileira Mayra Bueno Silva, conhecida como Sheetara, segue uma lógica ainda mais direta. A mineira acumulou cinco derrotas consecutivas no UFC na divisão peso-galo (61 kg) — um número que, em qualquer divisão da organização, representa o limite tolerado pela cúpula antes de uma decisão de desligamento. Diferente de Covington, que ao menos tinha um cinturão interino no currículo, Sheetara nunca chegou perto do topo da divisão, o que reduzia ainda mais o argumento para mantê-la no elenco.
A situação da lutadora já se mostrava delicada nos últimos ciclos de renovação contratual. Cinco derrotas seguidas no UFC representam não apenas um problema de resultados, mas um sinal de que a atleta pode precisar de um ambiente diferente — com mais lutas, mais ritmo e menos pressão — para reconstruir confiança e técnica antes de uma eventual volta à maior organização do mundo.
O efeito cascata na divisão dos meio-médios e o que muda para os novos nomes
A saída de Covington libera espaço — e, mais do que isso, libera uma narrativa. A divisão dos meio-médios vive um momento de transição real: Leon Edwards segura o cinturão, Belal Muhammad e Shavkat Rakhmonov pressionam, e nomes como Ian Machado Garry buscam posicionamento para disputas de título. Covington, mesmo sem chances reais de título, ainda ocupava um slot de visibilidade que agora pode ser preenchido por um veterano em ascensão ou por uma das novas apostas do UFC.
O UFC segue uma política clara de renovação de elenco: veteranos com retrospecto negativo recente são cortados independentemente do nome. Nos últimos 18 meses, a organização dispensou atletas com histórico relevante em múltiplas divisões, priorizando lutadores entre 24 e 30 anos com potencial de crescimento. Covington, aos 36 anos, com contrato vencido e sem luta desde 2024, não se encaixava em nenhum critério de retenção.
Para Covington, o caminho mais provável passa por organizações como o PFL ou o Bellator — hoje sob o guarda-chuva da Eagle FC — onde o nome ainda tem valor comercial suficiente para atrair público. Já Sheetara tem no circuito regional brasileiro e em organizações como o Jungle Fight ou o LFA plataformas para reconstruir retrospecto antes de uma eventual tentativa de retorno ao UFC. A organização já recontratou atletas cortados antes — mas sempre após sequências positivas fora do Ultimate.
Covington deixa o UFC com um cinturão interino, duas disputas de título pelo cinturão unificado e a reputação de ter sido o vilão mais eficiente da divisão nos últimos dez anos. O legado existe. O que não existe mais é argumento esportivo para mantê-lo no octógono mais competitivo do planeta. Quem quiser acompanhar o próximo passo do americano, vale monitorar os anúncios do PFL nas próximas semanas — a organização já demonstrou interesse público em nomes com perfil de Covington para cards de alto impacto comercial.









