Confesso: em 2018, eu apostei que aquele hat-trick contra a Espanha — três gols num empate de 3 a 3 que parou o mundo — seria o catalisador definitivo para Portugal ir longe na Rússia. Errei feio. A seleção caiu nas oitavas para o Uruguai, Cristiano Ronaldo não marcou mais nenhum gol no torneio, e a crônica que escrevi prevendo a final ficou no arquivo como lembrete de humildade. Hoje, com a Copa do Mundo de 2026 em curso e Portugal estreando em Houston, o contexto é outro — mas a dívida histórica permanece.

Vinte e dois jogos, oito gols e o peso de uma conta que não fecha

Os números de Ronaldo em Mundiais são, no mínimo, paradoxais para alguém considerado um dos maiores da história. Em cinco edições — 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022 — o atacante disputou 22 partidas e marcou apenas oito vezes. Para comparação, Miroslav Klose precisou de 24 jogos para atingir 16 gols. A média de CR7 em Copas, 0,36 por jogo, é menos da metade daquela que ele ostenta em clubes ao longo da carreira.

A pior edição foi em 2014, no Brasil, quando Portugal sequer avançou da fase de grupos. A seleção de Paulo Bento perdeu para a Alemanha por 4 a 0 e para os Estados Unidos por 2 a 1, e Ronaldo, visivelmente desgastado após uma temporada exaustiva no Real Madrid, não marcou nenhum gol em três partidas. A melhor campanha, curiosamente, foi a primeira: em 2006, na Alemanha, com apenas 21 anos, ele integrou o time de Luiz Felipe Scolari que terminou em quarto lugar — até hoje a melhor colocação de Portugal num Mundial.

Naquele ano, Ronaldo chegou fisicamente em ascensão, com um calendário aliviado pelo Manchester United, que havia caído nas oitavas de final da Champions League. Marcou apenas um gol, mas foi decisivo nos duelos individuais e no volume de criação. Era um extremo clássico, com obrigações defensivas, que fazia seu segundo ano consecutivo superando dez gols em Old Trafford — 12 no total em 47 partidas na temporada 2005/06.

O que mudou entre 2006 e a estreia desta quarta-feira em Houston

Vinte anos separam o garoto de 21 anos que estreou na Alemanha do homem de 41 que entrou em campo no NRG Stadium nesta quarta-feira, 14 de junho, contra a República Democrática do Congo. O jogo, válido pelo Grupo K — que ainda conta com Uzbequistão e Colômbia —, foi transmitido ao vivo pela CazéTV com início às 14h (horário de Brasília). Roberto Martínez escalou força máxima: Diogo Costa; Nélson Semedo, Rúben Dias, Gonçalo Inácio e Diogo Dalot; João Neves, Vitinha e Bruno Fernandes; Pedro Neto, Cristiano Ronaldo e Rafael Leão.

O Congo retornava aos Mundiais após 52 anos de ausência — a última participação foi em 1974, quando o país ainda se chamava Zaire. Sob o comando do técnico francês Sébastien Desabre, os Leopardos apostaram na espinha dorsal formada por Aaron Wan-Bissaka, Axel Tuanzebe e Yoane Wissa. Era, no papel, o adversário ideal para Ronaldo abrir o marcador numa Copa que, para ele, não terá continuação.

A geração de 2026 é tecnicamente mais rica do que qualquer outra que acompanhou Ronaldo em Mundiais. Bruno Fernandes, Rafael Leão, Pedro Neto e João Neves formam um meio-campo e um ataque capazes de sustentar Portugal sem depender exclusivamente do capitão — o que, paradoxalmente, pode liberá-lo para ser mais eficiente dentro da área, como um ponta de lança, em vez de carregar o jogo nas costas como fez em 2010 e 2022.

Portugal busca o primeiro título e Ronaldo precisa de mais do que gols

A seleção portuguesa nunca venceu uma Copa do Mundo. O único título global do país veio na Eurocopa de 2016, em Paris, numa final surpreendente contra a França — e Ronaldo saiu lesionado no primeiro tempo, assistindo à conquista das arquibancadas. Há algo de irônico nessa história: o maior jogador da história do país estava presente, mas não pôde jogar o momento mais importante.

Segundo o técnico Roberto Martínez, em declaração divulgada antes da estreia,

"Cristiano sabe exatamente o papel que tem neste grupo. Ele está aqui para ajudar Portugal a ganhar, não para perseguir recordes individuais."
A frase soa diplomática, mas aponta para uma tensão real: Ronaldo precisa de gols para justificar sua presença aos 41 anos, mas Portugal precisa de resultados coletivos para ir longe.

A matemática da despedida é cruel. Para terminar como artilheiro isolado de Copas entre os portugueses, Ronaldo precisa superar os próprios oito gols — o que exigiria ao menos cinco jogos e uma regularidade que nunca demonstrou neste torneio. Para dar ao país o primeiro título mundial, precisará que tudo se encaixe: forma física, grupo unido, sorte no chaveamento e adversários que não estudaram o que o Congo certamente estudou.

Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta Copa, a trajetória de Ronaldo em Mundiais é a de um jogador que sempre chegou com o peso do mundo nas costas e partiu antes de conseguir erguê-lo. Em 2026, com um elenco mais equilibrado ao seu redor, a janela parece mais aberta do que em qualquer outra edição desde 2006. Portugal enfrenta o Uzbequistão na segunda rodada do Grupo K, e uma vitória dupla nas duas primeiras partidas praticamente garante a classificação — o ponto de partida mínimo para qualquer sonho de título.