A eliminação da Itália para a Bósnia e Herzegovina nos pênaltis na última terça-feira (31) carrega ecos perturbadores de uma das maiores humilhações da história do futebol italiano. Assim como em 1966, quando a Azzurra foi derrotada pela Coreia do Norte na Copa da Inglaterra, o fracasso atual revela uma crise que transcende o campo: a mentalidade mercenária dos jogadores que pediram bônus por classificação antes mesmo do jogo decisivo.
Pela terceira Copa do Mundo consecutiva, a seleção tetracampeã mundial ficará de fora da competição. A sequência de ausências em 2018, 2022 e agora 2026 representa o período mais sombrio da Azzurra desde os anos 1950, quando também perdeu três Mundiais seguidos.
Pedidos de bônus expõem mentalidade problemática
Revelações da imprensa italiana mostram que os jogadores da seleção negociaram valores extras por uma eventual classificação à Copa do Mundo antes do confronto com a Bósnia. A postura mercenária dos atletas em momento decisivo gerou revolta na Federação Italiana de Futebol (FIGC) e na torcida, ecoando comportamentos que já custaram caro ao país no passado.
O episódio lembra diretamente o ambiente tóxico que cercou a Azzurra em 1966, quando jogadores foram acusados de pensar mais nos próprios interesses do que na camisa nacional. Naquele ano, a derrota por 1 a 0 para a Coreia do Norte, então considerada uma seleção amadora, provocou um trauma nacional que durou décadas.
"A mentalidade dos jogadores não condiz com a história da nossa seleção. Pensar em dinheiro antes de garantir a classificação é inaceitável", declarou um dirigente da FIGC à imprensa local.
Paralelos históricos entre duas humilhações
Em 1966, a Itália chegou à Copa da Inglaterra como uma das favoritas, mas sucumbiu ao individualismo e à falta de coesão do grupo. Os jogadores foram recebidos com tomates podres no aeroporto de Roma, símbolo do descontentamento nacional. A eliminação custou o emprego do técnico Edmondo Fabbri e levou a uma reformulação completa do sistema de seleções.
O contexto atual guarda semelhanças preocupantes: uma geração de jogadores desconectada da paixão nacional, problemas de liderança no vestiário e a sensação de que o dinheiro dos clubes europeus corrompeu o amor à camisa azul. A diferença é que, em 1966, a Itália pelo menos estava na Copa - hoje, nem isso consegue.
Roberto Mancini, que comandou a seleção na conquista da Eurocopa de 2021, deixou o cargo em 2023 para treinar a Arábia Saudita por questões financeiras, simbolizando a própria crise de valores que assola o futebol italiano. Seu substituto, Luciano Spalletti, herdou um grupo fragmentado e sem identidade clara.
Impacto institucional e cultural profundo
As ausências consecutivas em Mundiais representam mais que fracassos esportivos - são sintomas de uma crise estrutural no futebol italiano. O país que inventou o catenaccio e produziu lendas como Roberto Baggio, Franco Baresi e Francesco Totti vive um período de mediocridade técnica e mental.
A Serie A, outrora o campeonato mais forte do mundo, perdeu protagonismo para Premier League, La Liga e até mesmo a Bundesliga. Apenas dois clubes italianos - Inter de Milão e Milan - mantêm relevância europeia constante, reflexo da decadência geral do movimento.
"Perdemos nossa identidade. Os jovens jogadores preferem o glamour dos clubes estrangeiros à responsabilidade de defender a Azzurra", lamentou o ex-capitão Franco Baresi em entrevista recente.
A comparação com 1966 também revela como crises do futebol refletem momentos sociais mais amplos. Naquela época, a Itália vivia transformações econômicas e culturais aceleradas. Hoje, o país enfrenta desafios demográficos, econômicos e de identidade nacional que se manifestam também no esporte.
A Federação Italiana terá dois anos para reconstruir uma seleção capaz de disputar a Copa do Mundo de 2030, que será realizada na Espanha, Portugal, Marrocos, Argentina, Paraguai e Uruguai. O primeiro teste real será a Nations League de 2025, onde a Itália tentará recuperar o prestígio perdido e provar que aprendeu com os erros históricos que a assombram há quase seis décadas.

