O calor escaldante de Riad. O estádio vibrava com a vitória do Al-Nassr por 1 a 0 sobre o Al-Ettifaq, mas nos corredores do vestiário, a preocupação tomava conta. Cristiano Ronaldo havia acabado de vomitar após completar mais uma partida no limite físico, atuando visivelmente doente durante os 90 minutos.
Aos 40 anos, o craque português mais uma vez demonstrou sua capacidade de superar adversidades físicas. Durante o confronto válido pelo Campeonato Saudita, CR7 apresentava sintomas claros de mal-estar, mas permaneceu em campo até o apito final. A cena pós-jogo, com o astro passando mal nos vestiários, trouxe à tona um aspecto marcante de sua carreira: a resistência mental para jogar mesmo comprometido.
Quando a mente vence o corpo
O episódio em solo saudita não representa novidade no currículo de Cristiano Ronaldo. Em 2016, durante a final da Eurocopa entre Portugal e França, o então jogador do Real Madrid foi obrigado a deixar o campo aos 25 minutos do primeiro tempo após lesão no joelho esquerdo. Mesmo com lágrimas nos olhos, orientou os companheiros da beira do gramado e celebrou o título europeu como se estivesse em campo.
Dois anos antes, na Copa do Mundo de 2014 no Brasil, Ronaldo disputou todo o torneio com problemas no joelho direito e na coxa esquerda. Segundo levantamento do SportNavo, o atacante recebeu infiltrações antes de cada partida da Seleção Portuguesa, incluindo o confronto contra os Estados Unidos, onde marcou o gol da vitória por 2 a 1 mesmo claramente limitado fisicamente.

A temporada 2013-14 no Real Madrid ofereceu outro exemplo emblemático. Durante a conquista da décima Champions League, Cristiano atuou a final contra o Atlético de Madrid com uma lesão muscular na coxa que o atormentava há três semanas. O resultado: dois gols na prorrogação e mais um título europeu para sua coleção.
Os números por trás da resistência
Entre 2009 e 2018, período de maior regularidade no Real Madrid, Cristiano Ronaldo perdeu apenas 34 jogos por lesão em nove temporadas completas. Considerando que o clube disputou em média 55 partidas por ano nesse período, o índice de disponibilidade física do português chegou a impressionantes 93,1% - um número notável para um atleta que sempre priorizou a intensidade nos treinos.
Durante a passagem pela Juventus, entre 2018 e 2021, o atacante manteve padrão similar de resistência. Na temporada 2019-20, mesmo com 35 anos, completou 46 das 48 partidas possíveis da equipe italiana, incluindo jogos decisivos onde atuou visivelmente debilitado por problemas musculares menores.
"Sempre disse que a mentalidade é 70% do futebol. Se você acredita que pode, normalmente consegue", declarou Ronaldo em entrevista após a conquista do quinto Bola de Ouro, em 2017.
O preço da longevidade
Especialistas em medicina esportiva questionam até que ponto essa resistência contribui para a longevidade de CR7 ou representa risco desnecessário. Dr. Ramón Cugat, cirurgião que já tratou o português, explicou em 2019 que a capacidade de Ronaldo de "desligar a dor mental" permite que ele atue mesmo com desconfortos que tirariam outros atletas de campo.
A rotina de cuidados físicos desenvolvida pelo astro inclui crioterapia diária, sessões de recuperação muscular e controle rigoroso da alimentação. Mesmo assim, episódios como o registrado em Riad demonstram que nem mesmo o atleta mais preparado do mundo consegue escapar completamente das limitações do corpo humano.
O Al-Nassr volta a campo na próxima sexta-feira contra o Al-Hilal, no clássico saudita que pode definir a liderança do campeonato. A expectativa é que Cristiano Ronaldo se recupere completamente do mal-estar e volte a demonstrar por que, aos 40 anos, ainda consegue transformar limitações físicas em combustível para grandes atuações.

