O vestiário do Santos cheirou a pólvora nos últimos dias. O desentendimento entre Neymar e Robinho Júnior — dois jogadores que carregam laços afetivos que vão além do campo — estorou nos bastidores do clube e forçou o técnico Cuca a tomar uma decisão que ninguém no Peixe queria precisar tomar: escolher um lado. A resposta veio na escalação para o duelo contra o Recoleta, pela 4ª rodada da Copa Sul-Americana, no Estádio Monumental Río Parapití, no Paraguai, com bola rolando às 21h30 (de Brasília).
Neymar de volta ao centro do Santos em momento delicado
Neymar retorna ao time titular após a crise que agitou a semana santista. Cuca optou por manter o camisa 10 no eixo do time, flanqueado por Rollheiser — que chega para este jogo com três gols e uma assistência nos últimos três jogos, números que justificam a aposta do treinador no argentino como articulador principal das jogadas. A função de Neymar é conectar o meio com os dois centroavantes: Gabigol e Gabriel Bontempo. É uma tríade de peso, mas que só funciona se o ambiente interno não contaminar o desempenho dentro das quatro linhas.
Há quem argumente que escalar Neymar neste momento é arriscado — que um jogador em meio a uma polêmica pessoal com um companheiro de elenco não tem condições de render em alto nível. Esse argumento desconsidera o histórico do próprio Neymar em Copa Sul-Americana com o Santos: foi ele o protagonista da conquista de 2011, e a pressão de situações adversas raramente o travou dentro de campo. O problema de Neymar, quando existe, é consistência ao longo da temporada — não resposta imediata em momentos de tensão.
Robinho Jr. no banco e o peso de uma relação que rachou
Pivô da polêmica, Robinho Júnior começa o duelo no banco de reservas. A decisão de Cuca tem lógica esportiva — o jovem atacante não estava vivendo fase tão consistente quanto Rollheiser — mas o componente político é inevitável. Num grupo de futebol, sentar um jogador após um conflito com uma estrela envia uma mensagem que todos no vestiário leem com clareza. É como numa banda de rock quando o guitarrista principal briga com o vocalista e o produtor manda o guitarrista tocar no segundo set: a hierarquia fica explícita, independentemente de qualquer justificativa técnica.
A escalação completa do Santos é: Gabriel Brazão; Igor Vinícius, Lucas Veríssimo, João Ananias e Escobar; João Schmidt, Cristian Oliva, Neymar e Rollheiser; Gabriel Bontempo e Gabigol. A principal mudança defensiva em relação ao jogo anterior é a entrada de João Ananias no lugar de Luan Peres, alteração de ordem técnica que ficou ofuscada pela trama do ataque.

O que este jogo decide para o Santos na Sul-Americana
Nas próximas semanas, o Santos precisa confirmar presença nas fases seguintes da Copa Sul-Americana, e uma derrota ou empate ruim no Paraguai pode colocar o clube em situação delicada na tabela do grupo. A vitória não serve apenas para os três pontos — serve para demonstrar que o Peixe tem capacidade de isolar problemas internos e manter rendimento em competições internacionais, algo que times brasileiros historicamente falham quando o ambiente interno se deteriora.
A relação entre Neymar e Robinho Jr. precisará ser administrada com cuidado nas próximas semanas. Não existe solução de curto prazo para conflitos de ego entre jogadores de um mesmo setor de campo — e o Santos tem Neymar, Gabigol, Gabriel Bontempo e Robinho Júnior disputando espaço no ataque. Cuca já sinalizou sua hierarquia. Agora o campo precisa validar a escolha.
O Santos joga nesta terça-feira no Paraguai. Se vencer, assume posição confortável no grupo da Sul-Americana. Se perder, a crise nos bastidores ganha um combustível que nem Cuca vai conseguir apagar.









