A última vez que o Santos precisou administrar dois astros de porte global ao mesmo tempo foi na era Robinho-Neymar, entre 2009 e 2010. Dezesseis anos depois, Cuca enfrenta desafio parecido — mas com calendário mais denso e margem de erro menor. Em três jogos consecutivos pela Copa Sul-Americana e pelo Brasileirão, Santos teve configurações diferentes de elenco para cada partida, com Neymar e Gabigol raramente disponíveis ao mesmo tempo.
Quem ganhou com a gestão de Cuca nas últimas rodadas
Na estreia da Sul-Americana, em 8 de maio, diante do Deportivo Cuenca, no Equador, nenhum dos dois esteve disponível. Neymar foi poupado por conta da logística complicada da viagem — o clube optou por preservá-lo para a sequência de jogos até a pausa da Copa do Mundo. Gabriel Barbosa, o Gabigol, realizou o segundo procedimento de plasma rico em plaquetas (PRP) na carreira, tratamento indicado para atletas com queixas físicas recorrentes e que acelera o processo de reabilitação tecidual.
Com os dois fora, Cuca escalou um Santos mais compacto. O resultado foi derrota, e o Peixe chegou à segunda rodada da fase de grupos precisando de vitória em casa para não entrar em crise precoce na competição — a última participação do clube na Sul-Americana, em 2023, terminou com apenas uma vitória em seis jogos na fase de grupos e rebaixamento à Série B.
O segundo jogo do ciclo foi o Brasileirão, dia 10 de maio, contra o Bragantino, na Vila Belmiro, pela 15ª rodada. Neymar apareceu na lista de relacionados, vivendo o que o clube descreveu como a reta final da sequência antes de uma possível convocação para a Copa do Mundo. Gabigol também foi relacionado. A presença dos dois neste jogo funcionou como teste de carga antes da sequência europeia.
O efeito cascata sobre quem ficou de fora
Para a segunda rodada da Sul-Americana, contra o Recoleta-PAR, na Vila Belmiro, Cuca relacionou 24 jogadores — com Neymar e Gabigol na lista pela primeira vez juntos na competição. A tendência era de que o técnico mantivesse a base que venceu o Atlético-MG por 1 a 0 no Brasileirão, com a estreia da dupla na Copa Sul-Americana.
Três desfalques certos pesaram no planejamento: Vinícius Lira (ruptura total do LCA do joelho esquerdo), Mayke (transição física) e Gabriel Menino (lesão no músculo posterior da coxa direita). Zé Rafael, com entorse no tornozelo, e Gustavo Henrique, com lesão no adutor da coxa esquerda, também ficaram de fora em determinados momentos do ciclo. A ausência de Tomás Rincón na estreia da Sul-Americana teve causa burocrática — o venezuelano não tinha visto para entrar no Equador.
O provável Santos para o duelo com o Recoleta tinha: Gabriel Brazão; Igor Vinícius, Lucas Veríssimo, Luan Peres e Escobar; Willian Arão, Gustavo Henrique (ou Christian Oliva), Gabriel Bontempo e Moisés; Neymar e Gabigol. A dupla de ataque, finalmente reunida, era a principal novidade da noite.
O número que explica a cautela do técnico com os dois atacantes
A gestão de Cuca tem respaldo em métricas de desempenho. O xG (gols esperados, métrica que mede a qualidade das chances criadas independentemente do resultado) do Santos nas partidas sem Neymar ou Gabigol caiu para índices abaixo de 1,0 por jogo — o que significa que o time criou chances de baixíssima conversão esperada. Com os dois em campo juntos, o índice sobe para a faixa de 1,8, número que coloca o Santos entre os times mais perigosos do grupo D. Em termos simples: a presença da dupla dobra a ameaça ofensiva do Peixe.
"Quando você tem jogadores desse nível no elenco, o desafio não é escalar — é saber quando poupar. Errar o timing pode custar a temporada inteira", afirmou um preparador físico de clube da Série A consultado pelo SportNavo sobre a gestão de atletas de alto rendimento em calendários sobrecarregados.
A virose que tirou Neymar do treino de domingo antes da viagem para Buenos Aires gerou alerta, mas o camisa 10 foi liberado pelo departamento médico e embarcou com o grupo para enfrentar o San Lorenzo, no estádio Nuevo Gasómetro. Para esse jogo, Cuca chegou a ter 27 jogadores relacionados, precisando cortar quatro — já que somente 12 podem ficar no banco de reservas pela regulamentação da Conmebol.
O que vem pela frente no Grupo D da Sul-Americana
O Santos soma zero pontos na fase de grupos após a derrota na estreia para o Deportivo Cuenca. A sequência de jogos contra Recoleta e San Lorenzo, ambos fora da briga pela liderança do Grupo D, é tratada internamente como janela obrigatória de recuperação. Uma segunda derrota em casa complicaria matematicamente a classificação ainda na metade da fase de grupos.
A gestão do calendário por Cuca aponta para uma lógica clara: preservar Neymar e Gabigol para os jogos de maior peso competitivo, aceitando riscos pontuais nas partidas com menor impacto na tabela. O problema é que, na Sul-Americana, não há jogo de menor impacto quando o time ainda não pontuou. O Peixe volta a campo pelo Brasileirão no próximo fim de semana, com a classificação na Sul-Americana como pano de fundo permanente.









