Diz-se que David Moyes é um treinador conservador, refém de um pragmatismo sem horizonte filosófico. Na verdade, não é — e entender por que isso é uma leitura equivocada é o ponto de partida para compreender o que ele está construindo, mais uma vez, no Everton.

O esquema que ele sempre busca rodar

Moyes opera, em sua configuração preferida, com um bloco médio-baixo organizado em 4-5-1 defensivo que se converte em 4-3-3 no momento de transição ofensiva. Não é o gegenpressing de Klopp nem o tiki-taka de Guardiola — é algo mais próximo do que os ingleses chamam de shape-first football: a estrutura define o jogo, não o contrário. O escocês acredita que sem organização posicional sólida, qualquer proposta ofensiva colapsa sob pressão. É uma convicção forjada em mais de duas décadas de banco, e ela não muda conforme o vento editorial sopra.

A passagem pela Real Sociedad, entre novembro de 2014 e novembro de 2015, é frequentemente descartada como um capítulo de exílio após o traumático ano no Manchester United. Mas quem viveu San Sebastián — e eu passei por lá algumas vezes durante os anos em que morei em Barcelona — sabe que o futebol basco tem uma seriedade tática que obriga qualquer treinador a pensar em pressão alta e compactação de linhas com mais sofisticação do que o calendário inglês costuma exigir. Moyes saiu da Espanha diferente de como entrou, ainda que os resultados na Liga não tenham sido os esperados.

Como ele monta o time dentro desse esquema

O princípio organizador de Moyes é a proteção das linhas centrais. Ele não tolera espaços entre a linha de quatro defensores e o meio-campo — o que, em termos táticos europeus, significa que o pressing alto só é acionado em situações específicas de bola recuperável, nunca como filosofia permanente. O lateral-direito tem liberdade de sobreposição, mas o lateral-esquerdo funciona como terceiro zagueiro em situação de perda da bola. É uma assimetria deliberada, não uma limitação de elenco.

No West Ham United, onde trabalhou em dois períodos distintos — de novembro de 2017 a maio de 2018 e depois de dezembro de 2019 a junho de 2024 —, Moyes demonstrou capacidade de adaptar esse esquema a diferentes perfis de jogadores sem abandonar os princípios. O segundo ciclo nos Hammers foi particularmente revelador: a conquista da UEFA Conference League em 2023 mostrou que o método funciona em competição europeia de mata-mata, onde a organização defensiva e a eficiência nas transições valem mais do que posse de bola elaborada.

Onde o esquema funciona melhor (e onde quebra)

O modelo de Moyes prospera em ambientes de pressão institucional moderada, onde o treinador tem tempo para construir entendimento coletivo. Isso não é elogio disfarçado nem crítica velada — é contabilidade. Não há tragédia: há contabilidade. O problema é que a Premier League raramente oferece esse luxo, e o Everton de 2026 está longe de ser um clube em posição confortável.

Os cenários onde o sistema quebra

  • Contra equipes com wingers de velocidade que exploram o corredor entre o lateral-direito e o ponta-esquerda quando o time perde a bola no campo adversário
  • Em jogos onde o adversário tem qualidade técnica superior para circular a bola fora do alcance do pressing seletivo moyesiano
  • Quando o elenco não tem um pivô físico capaz de segurar a bola nas transições — o target man é peça insubstituível nesse sistema

O período no Sunderland, de julho de 2016 a maio de 2017, expôs exatamente essa vulnerabilidade: sem material humano adequado para executar as transições rápidas que o sistema exige, o esquema perde fluidez e se torna apenas defensivo, sem a capacidade de converter organização em ameaça real. O rebaixamento do Sunderland àquela temporada foi o teste mais duro da carreira de Moyes — e ele saiu do Championship com lições que moldaram sua segunda passagem pelo West Ham.

O esquema que ele sempre busca rodar D. Moyes e o método que sobreviveu a Man
O esquema que ele sempre busca rodar D. Moyes e o método que sobreviveu a Man

Os jogadores que ele privilegia para fazer funcionar

Moyes tem um tipo de jogador que ele busca em qualquer elenco: o box-to-box midfielder com capacidade de pressing e recuperação de bola. Não o criativo que dita o ritmo, mas o operário que garante que o ritmo não seja ditado pelo adversário. Na mesma lógica, ele valoriza atacantes que pressionam a saída de bola adversária — o que os espanhóis chamam de delantero presionador — mais do que finalizadores puros.

O retorno ao Everton em janeiro de 2025 — clube onde já havia trabalhado de março de 2002 a maio de 2013, em um dos ciclos mais longos e consistentes de qualquer treinador na era moderna da Premier League — tem uma lógica que vai além da nostalgia. Moyes conhece a cultura do clube, o peso histórico de Goodison Park e as expectativas de uma torcida que nunca confundiu ambição com ilusão. Essa intimidade institucional é um ativo tático tanto quanto qualquer prancheta.

Para os leitores do SportNavo que acompanham o futebol europeu com atenção, a questão relevante não é se Moyes é suficientemente moderno — essa é uma discussão de podcast, não de análise séria. A questão real é se o Everton tem o perfil de jogadores que o método exige e se a temporada 2025/2026 vai dar tempo suficiente para que o entendimento coletivo se consolide. O escocês já provou, em West Ham e na primeira passagem pelo próprio Everton, que quando tem o ambiente certo, o método entrega. O que ele nunca fez foi fingir ser outra coisa — e nessa era de treinadores-marca, isso é, a seu modo, uma forma de integridade. O SportNavo acompanhará de perto o desenrolar dessa equação ao longo das próximas semanas.