O cheiro de cera fresca no vestiário ainda não secou quando a polêmica já estava instalada. Antes mesmo de a Copa do Mundo começar para a Espanha, o nome que mais circulou nos corredores do centro de treinamento da Fúria não era o de nenhum convocado — era o dos ausentes. Luis de la Fuente, pela primeira vez na história moderna do futebol espanhol, montou um elenco para um Mundial sem um único representante do Real Madrid. Nenhum. Zero. Uma decisão que, dependendo de para quem você pergunta, é genialidade ou heresia.

A tese dominante e o que ela ignora

A narrativa mais fácil é a da ruptura. Desde que Emilio Butragueño e Michel eram a espinha dorsal da seleção nos anos 80, passando pela geração de Hierro e Raúl nos anos 90, até o ciclo de Casillas, Ramos e Benzema nos anos 2000 e 2010, o Real Madrid sempre exportou jogadores para a Fúria com a mesma naturalidade com que o clube exporta troféus da Champions League. A ausência desses nomes em 2026 parece, à primeira vista, um sinal de crise ou de ruptura ideológica. Afinal, nas Eurocopas de 2008 e 2012 — os dois títulos que moldaram a identidade do futebol espanhol contemporâneo — os merengues forneceram peças estruturais ao esquema de Vicente del Bosque.

O que essa narrativa ignora, porém, é o contexto real do elenco do Real Madrid neste momento. Vinicius Jr., Rodrygo, Bellingham e Mbappé não vestem a camisa espanhola — são brasileiros, ingleses e franceses. Os espanhóis do clube, como Carvajal, vivem ciclos de lesão que comprometeram suas últimas temporadas. De la Fuente não excluiu o Real Madrid por capricho filosófico. Ele simplesmente não encontrou, nos jogadores disponíveis do clube, o melhor que a Espanha pode oferecer agora.

A contra-leitura que muda o ângulo da análise

Há uma leitura alternativa que os números sustentam com alguma firmeza. A Espanha chega a esta Copa invicta há 30 jogos consecutivos — uma sequência que inclui a conquista da Eurocopa de 2024 e o título da Liga das Nações. Esse ciclo foi construído, em grande medida, com jogadores de Barcelona, Arsenal e times menores. David Raya, goleiro do Arsenal, sintetizou bem o espírito do grupo em entrevista coletiva antes da estreia:

"O grupo está incrivelmente feliz e ansioso para começar. Vamos dar tudo de nós e tentar vencer a primeira partida, o que é muito importante."

Raya também não fugiu do debate sobre favoritismo, que tem dominado as conversas nos bastidores da seleção nos últimos dias:

"Sabemos que somos os campeões europeus, mas também sabemos que há muitas equipes muito boas. O que temos que fazer é encarar um jogo de cada vez e nos concentrar no que podemos controlar."
Há algo de didático nessa postura — o que para o argentino é confiança inquebrantável, para o espanhol costuma ser cautela estratégica. São culturas de vestiário distintas, moldadas por histórias diferentes de fracasso e glória.

O próprio Raya reconheceu a qualidade da disputa interna pela posição de goleiro, citando Unai Simón — que foi titular nas conquistas da Liga das Nações e da Eurocopa — como referência do grupo:

"Conquistamos esses títulos com o Unai, e ele tem sido muito importante para nós. A competição é muito saudável."
Essa saudável disputa interna, aliás, é uma das marcas do modelo que De la Fuente construiu: nenhum jogador é intocável, nenhum clube tem representação garantida.

A síntese que a estreia contra Cabo Verde vai começar a responder

A história do futebol europeu mostra que ciclos de hegemonia raramente dependem de um único clube fornecedor. O Milan de Sacchi que dominou a Europa entre 1988 e 1994 tinha jogadores de origens dispersas; a França campeã mundial de 1998 não era uma extensão do PSG ou do Olympique de Marseille. O que une gerações vencedoras é um modelo de jogo coeso, não uma camiseta de clube. De la Fuente parece ter entendido isso — e os 30 jogos sem derrota são o argumento mais sólido a seu favor.

Cabo Verde, por sua vez, não é um adversário para ser subestimado com base apenas no ranking. Os cabo-verdianos querem ter a bola — e o próprio Raya alertou para isso: "Será uma partida difícil. Eles querem ter a bola, mas nós também. Qualquer erro pode resultar em gol." Uma seleção africana que chega à sua estreia em Copa do Mundo com ambição de posse de bola é, por si só, um dado que contextualiza a evolução do futebol global. Não é 1982, quando a Espanha de Arconada entrava em campo contra adversários do continente africano sem maiores preocupações táticas.

A síntese entre a tese da ruptura e a contra-narrativa do mérito técnico só começará a ser escrita às 13h desta segunda-feira, 15 de junho, quando a Fúria entrar em campo. Em matéria do SportNavo, acompanhamos o desenvolvimento desse elenco desde a Eurocopa de 2024, e o que De la Fuente construiu é, no mínimo, coerente com a identidade que ele mesmo definiu: um time sem donos, onde a vaga se ganha no campo, não no escudo da camisa.

A tese dominante e o que ela ignora De la Fuente monta Espanha sem Real Madr
A tese dominante e o que ela ignora De la Fuente monta Espanha sem Real Madr

O cheiro de cera fresca no vestiário ainda não secou — mas agora, pelo menos, a polêmica tem um jogo para respondê-la.