Confesso: eu errei sobre Deiveson Figueiredo no começo desta temporada. Escrevi, em conversa com colegas de redação, que a transição para os galos seria mais suave do que parecia — que dois cinturões no peso-mosca e 18 finalizações no cartel seriam argumento suficiente para ele se firmar entre os dez primeiros da nova divisão. O UFC Macau desta madrugada de sábado, 30 de maio de 2026, mostrou que eu estava errada. Song Yadong venceu o main event no Galaxy Arena, em Macau, China, e o paraense de Soure saiu do octógono precisando responder perguntas que nenhum ex-campeão quer ouvir.

O peso da divisão que Figueiredo escolheu carregar

Quando Deiveson chegou aos galos, o argumento era sedutor: atleta de 38 anos, cartel de 25 vitórias, seis derrotas e um empate, com poder de finalização comprovado em qualquer categoria. O UFC o posicionou como o número 7 do ranking dos 61,2 kg — ranking que Song Yadong ocupava na quinta posição com 22 vitórias e apenas uma derrota na carreira. A matemática do confronto já era desfavorável antes do sino inicial.

Alonzo Menifield Octagon Interview | UFC Macau

Há uma cena em Raging Bull, o filme de Scorsese, em que Jake LaMotta absorve golpe após golpe encostado nas cordas, recusando-se a cair — não por estratégia, mas por teimosia existencial. Figueiredo sempre teve algo disso. O problema é que a teimosia, sem o físico de uma categoria menor para sustentar, vira exposição. Nos galos, os adversários são mais longos, mais pesados na estrutura óssea e, no caso de Song, mais jovens.

O evento foi batizado de UFC Fight Night: Song vs. Figueiredo — o nome do brasileiro no card principal era sinal de que o UFC ainda apostava no valor de marca do paraense. Mas o placar e o desempenho dentro do octógono contaram outra história, conforme registrado por SportNavo ao longo da semana de lutas em Macau.

O que aconteceu no octógono e o que os números revelam

Song Yadong controlou o ritmo do combate com a consistência que o levou ao top 5 da divisão. O chinês, que compete há anos no UFC com uma sequência de resultados sólidos, foi mais eficiente no jab e mais preciso nas trocas de curta distância — exatamente a zona onde Figueiredo costumava ser mais perigoso quando tinha a vantagem física dos moscas. Nos galos, essa vantagem desapareceu.

Figueiredo tem 37% de taxa de finalização ao longo da carreira, mas nos últimos quatro combates o número não se converteu em vitórias consistentes. O brasileiro chegou ao main event de Macau com um histórico recente que preocupa qualquer analista de ranking: três derrotas nas últimas quatro lutas antes desta noite. Song, por sua vez, entrou no card como favorito nas casas de apostas — as odds refletiam a diferença de momento entre os dois atletas.

Curto e direto: Figueiredo perdeu. E perdeu para um adversário que vai continuar subindo no ranking dos galos.

O restante do card principal também teve peso brasileiro. Tallison Teixeira, o Xicão, enfrentou Sergei Pavlovich no peso pesado — o russo é o número 3 do ranking e ex-desafiante ao título interino. Teixeira chegou a Macau como número 15 da divisão, com cartel de 9-1, e a luta era o maior teste de sua carreira no UFC. No co-main event, Zhang Mingyang enfrentou Alonzo Menifield, número 15 dos meio-pesados.

O que vem depois para o ex-campeão dos moscas

A derrota para Song Yadong coloca Figueiredo em uma encruzilhada que vai além de uma simples sequência ruim de resultados. Aos 38 anos, com o corpo carregando o desgaste de anos competindo em duas categorias, a pergunta que o UFC vai fazer nos próximos meses é direta: o brasileiro ainda tem espaço entre os dez primeiros dos galos, ou o ranking vai empurrá-lo para fora da zona de disputas por título?

Uma opção concreta seria o retorno ao peso-mosca — divisão onde Figueiredo foi bicampeão e onde seu físico encontra mais equilíbrio contra os adversários. O problema é que os moscas também evoluíram. Alex Perez, que estava no mesmo card desta madrugada em Macau enfrentando Sumudaerji, terminou sua luta em um no contest por golpe baixo acidental no segundo round — mas o veterano californiano é exatamente o tipo de atleta que ocupa o top 15 dos moscas hoje, jovem e em ascensão.

A outra saída é permanecer nos galos e aceitar lutas de menor ranking para reconstruir uma sequência positiva. O UFC tem feito isso com ex-campeões antes — e Figueiredo tem o nome e o histórico para conseguir adversários relevantes mesmo sem estar no top 5. Uma vitória sobre um top 10 da divisão ainda colocaria o brasileiro de volta na conversa por uma disputa de título.

No card preliminar do UFC Macau, dois estreantes brasileiros deram motivos para otimismo: Luis Felipe Dias nocauteou Yi Sak Lee no primeiro round no peso médio, e José Henrique Souza venceu Ding Meng por decisão dividida dos juízes (30-27, 28-29, 29-28) no peso meio-médio. Jaqueline Amorim também finalizou Loma Lookboonmee com uma chave de braço aos 4min04s do primeiro round, reencontrando o caminho das vitórias. O Brasil teve noite de resultados mistos em Macau — os jovens entregaram, o veterano não conseguiu.

O próximo passo de Figueiredo depende de uma conversa com o UFC que ainda não aconteceu publicamente. Se o caminho for pelos galos, o mais provável é um combate contra um adversário entre o 10º e o 15º lugar do ranking nos próximos três a quatro meses. Se for o retorno aos moscas, a negociação é mais complexa — e o tempo, para um atleta de 38 anos, não é neutro.