Quantas vezes, nos últimos vinte anos, um jogador reuniu título da Champions League, campeonato nacional e arrancada decisiva numa Copa do Mundo — tudo na mesma temporada? A pergunta não é retórica por acidente. Ela é o centro exato do debate que André Rizek abriu ao vivo no SporTV após a França atropelar a Noruega por 4 a 1, nesta sexta-feira (26), assumindo a liderança do Grupo I com 100% de aproveitamento. O comentarista não hesitou: Ousmane Dembélé é, hoje, o principal candidato ao prêmio de melhor do mundo.
Antes de cravar qualquer resposta, porém, convém circular pelo cenário completo. Dembélé não chegou a este ponto da Copa do Mundo como uma revelação tardia. O atacante do PSG foi o motor da campanha que levou o clube parisiense ao bicampeonato europeu, conquistando a Champions League pela segunda vez consecutiva — feito que, fora de Real Madrid e Bayern de Munique nas décadas de 80 e 90, raríssimos clubes conseguiram repetir em anos seguidos. O PSG também faturou o Campeonato Francês e chegou à final da Copa do Mundo de Clubes. É uma pilha de troféus que, historicamente, costuma pesar muito mais do que qualquer estatística individual na hora da premiação.
O que Dembélé construiu nesta temporada para ser favorito
Na temporada 2025/2026, Dembélé foi decisivo em momentos que outros atacantes de elite simplesmente não aparecem — semifinais europeias, clássicos do Ligue 1, fases eliminatórias. Contra a Noruega, ele respondeu às críticas pela estreia apagada com três gols que desmantelaram uma defesa escandinava que havia concedido apenas quatro tentos em toda a fase de classificação europeia para a Copa. Três gols em um único jogo equivalem ao total que a Noruega levou nos últimos quatro jogos antes deste confronto — dado que ilustra a dimensão da atuação.
"O candidato é um repeteco. Como o prêmio de melhor do mundo normalmente é dado ao representante do time ou seleção mais vitorioso da temporada, o time já foi campeão da Champions, campeão francês. Então o Dembélé é de novo o candidato — e esses três gols ajudam muito", afirmou Rizek durante a transmissão ao vivo.
O histórico recente do prêmio confirma a lógica de Rizek. Desde 2008, apenas três jogadores — Messi, Cristiano Ronaldo e Modric — venceram a Bola de Ouro sem ter levantado a Champions ou chegado longe numa grande competição de seleções naquele ano. Dembélé já tem a Champions. Agora busca o segundo ingrediente. Na edição anterior da premiação, ele superou Lamine Yamal por 321 pontos — margem considerável, que reflete o reconhecimento coletivo de uma temporada dominante.

Mbappé e Haaland ainda têm argumentos para brigar
A hegemonia que Rizek menciona não é apenas simbólica. Kylian Mbappé — Real Madrid — e Erling Haaland dominaram o imaginário coletivo do futebol mundial nos últimos três anos, acumulando Botas de Ouro, recordes de gols em Premier League e La Liga e campanhas europeias de alto nível. Mbappé, em particular, carrega o peso histórico de ser o maior artilheiro da história da seleção francesa e chegou à Copa do Mundo como co-favorito ao prêmio. O problema, ao menos por enquanto, é que nenhum dos dois reúne o mesmo pacote completo que Dembélé ostenta neste momento.
Haaland — atacante que transformou o Manchester City num laboratório de eficiência ofensiva entre 2022 e 2024 — não disputou uma Champions League vencedora nesta temporada. Mbappé, por sua vez, chegou ao torneio com a pressão de liderar o Real Madrid após uma temporada europeia abaixo do esperado. Ambos podem virar o jogo com campanhas individuais brilhantes na Copa, mas partem de uma desvantagem estrutural que raramente se reverter nos critérios históricos da premiação.
"Vai brigar, vai ficar entre ele e Mbappé", completou Rizek, reconhecendo que o capitão francês — artilheiro histórico dos Bleus — ainda tem capacidade de mudar o roteiro caso chegue perto da artilharia do torneio.
O que as próximas semanas decidem para Dembélé e para a França
A França terminou a fase de grupos com liderança absoluta no Grupo I — três jogos, três vitórias, aproveitamento de 100%. O mata-mata começa e, com ele, o filtro que separa candidatos de vencedores. A história oferece um paralelo preciso: em 1998, Zinedine Zidane entrou na Copa do Mundo como o melhor jogador do mundo em clube — havia acabado de ganhar a Champions pela Juventus — e saiu dela com a Bola de Ouro depois de duas cabeçadas na final contra o Brasil. O roteiro de Dembélé segue trilha semelhante, mas com uma diferença crucial: ele já tem o prêmio individual do ano anterior, o que significa que qualquer tropeço da França nas oitavas ou quartas pode abrir espaço para a narrativa de Mbappé ou até de um nome inesperado.
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da Copa do Mundo de Clubes, o PSG mostrou consistência tática mesmo sem Dembélé como titular absoluto em alguns jogos — o que torna ainda mais impressionante o fato de ele ter sido o elemento diferencial nas partidas que definiram títulos. A França volta a campo nas oitavas de final, onde o adversário ainda será definido pelo cruzamento dos grupos. Se os Bleus avançarem ao menos até a semifinal e Dembélé mantiver o nível desta sexta-feira, a discussão sobre o melhor do mundo pode estar encerrada antes mesmo da grande final.








