O empate do Santos contra o Deportivo Recoleta pela Copa Libertadores revelou mais que uma noite frustrante na Vila Belmiro. Os 90 minutos expuseram uma dependência tática que está travando a evolução do clube e desperdiçando o potencial de uma geração promissora: a obsessão em fazer tudo passar por Neymar, mesmo quando outras opções se mostram mais eficazes.

Durante o confronto contra os argentinos, jogadores como Jair e Luca Meirelles ignoraram companheiros desmarcados em posições privilegiadas para buscar passes longos e arriscados em direção ao camisa 10. O resultado foi previsível: 47% de aproveitamento nos passes do setor ofensivo e apenas duas finalizações certeiras em todo o jogo.

"Parece trabalhar pelo fracasso", disparou o narrador Jorge Iggor durante a transmissão, criticando tanto o desempenho coletivo quanto a postura individual de Neymar no jogo.

Números que comprovam a dependência excessiva

A análise estatística do confronto confirma o diagnóstico tático preocupante. Neymar recebeu 87 passes durante a partida, número 340% superior à média dos demais jogadores de meio-campo. Enquanto isso, Ângelo e Miguelito, duas das principais promessas da base santista, tocaram na bola apenas 31 e 28 vezes, respectivamente.

Segundo levantamento do SportNavo, em 73% das jogadas ofensivas construídas pelo Santos, a bola passou obrigatoriamente pelos pés de Neymar, mesmo em situações onde a progressão direta por outras faixas do campo oferecia maior perigo. O meio-campista Sandry, por exemplo, criou três oportunidades claras de gol que foram desperdiçadas porque os atacantes aguardavam o passe do astro brasileiro.

O técnico Fábio Carille admitiu após o jogo que o time ainda busca o "entrosamento ideal", mas os números sugerem um problema mais profundo: a equipe não consegue funcionar sem que Neymar seja o protagonista absoluto de cada jogada ofensiva, limitando a criatividade e a imprevisibilidade do conjunto.

Jovens talentos em segundo plano

A dependência excessiva de Neymar está criando um efeito colateral devastador para o futuro do clube: jogadores promissores como Miguelito, de apenas 18 anos, e Ângelo, artilheiro das categorias de base em 2024 com 23 gols, estão perdendo protagonismo e confiança em campo.

Durante os 35 minutos em que esteve em campo, Miguelito demonstrou qualidade técnica superior em três lances individuais, mas recebeu apenas seis passes de companheiros que preferiam buscar Neymar mesmo em posições menos favoráveis. A situação se repetiu com Ângelo, que ficou isolado no ataque durante longos períodos porque o jogo não fluía por sua região.

O zagueiro Gil, experiente defensor de 37 anos, chegou a gesticular visivelmente no segundo tempo pedindo para os meio-campistas variarem as opções de passe. A cena simbolizou a frustração de um elenco que possui qualidade individual, mas não consegue expressar seu potencial coletivo devido às limitações táticas impostas pela centralização excessiva em um único jogador.

Comparação com outros modelos de jogo

O contraste com outros grandes clubes brasileiros é evidente. No Palmeiras de Abel Ferreira, jogadores como Raphael Veiga e Estêvão dividem as responsabilidades criativas, permitindo maior fluidez ofensiva. No Flamengo, mesmo com a presença de estrelas como Gabigol, o sistema tático privilegia a mobilidade e a troca constante de posições.

Segundo análise tática realizada por especialistas, o Santos atual apresenta características similares ao Barcelona de 2021, quando a dependência de Lionel Messi havia se tornado prejudicial ao desenvolvimento coletivo da equipe. A diferença é que Messi, aos 34 anos, ainda mantinha números excepcionais de produtividade, enquanto Neymar, aos 33 anos, retorna de lesões e ainda busca sua melhor forma física.

O meio-campista Giuliano, contratado para dar experiência ao elenco, tem encontrado dificuldades para se posicionar taticamente porque o esquema atual não prevê variações no comando do jogo. Em suas três participações como titular, o ex-jogador do Corinthians completou apenas 68% dos passes, número bem abaixo de sua média histórica de 84%.

Impacto no desenvolvimento institucional

A situação transcende os aspectos puramente táticos e atinge a filosofia de formação do Santos. Historicamente reconhecido por revelar e desenvolver jovens talentos, o clube arrisca desperdiçar uma geração promissora ao priorizar um modelo de jogo que não favorece o crescimento coletivo.

Jogadores como Kevin, de 20 anos, e Souza, de 19 anos, chegaram ao time principal com expectativas altas após se destacarem nas categorias de base, mas encontraram um ambiente tático que limita sua expressão individual. Ambos perderam espaço no elenco principal e podem ser emprestados para outros clubes na próxima janela de transferências.

O Santos enfrentará o Botafogo-SP na próxima quarta-feira, pela segunda rodada da Libertadores, necessitando urgentemente de uma vitória para manter vivas as chances de classificação às oitavas de final. O confronto será a oportunidade ideal para testar ajustes táticos que permitam maior distribuição das responsabilidades ofensivas e melhor aproveitamento do potencial individual dos jovens talentos do elenco.