Errou. O deputado federal Hélio Lopes (PL-RJ) encaminhou um ofício formal à CBF nesta semana solicitando a convocação de Neymar para a Copa do Mundo de 2026 — e, ao fazer isso, demonstrou desconhecimento elementar sobre como funciona a estrutura do futebol brasileiro. A CBF é uma entidade de direito privado. Ela não recebe ordens de gabinete parlamentar.
O que diz o ofício de Hélio Lopes
No documento, Lopes afirma representar "uma manifestação legítima de milhões de brasileiros" que teriam procurado seu gabinete nos últimos dias. O texto descreve Neymar não como atleta, mas como "símbolo de talento, criatividade, superação e esperança para milhões de torcedores" — linguagem mais próxima de palanque eleitoral do que de análise técnica sobre forma física e minutagem em campo.
"Neymar não é apenas um jogador", diz trecho do ofício enviado pelo gabinete de Hélio Lopes à CBF, segundo a Agência Estado.
O problema concreto: o ofício foi endereçado à entidade errada. A decisão de convocar ou não um atleta para a seleção brasileira cabe exclusivamente ao técnico Carlo Ancelotti, contratado pela CBF para comandar o time até o fim da Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, Canadá e México.

Ancelotti decide, não o Congresso
Ancelotti assumiu o comando da Seleção Brasileira com autonomia técnica garantida em contrato. Nenhum ofício parlamentar tem poder vinculante sobre uma escolha técnica do treinador italiano — que, até o momento, não se pronunciou publicamente sobre a situação de Neymar para o torneio. A Copa do Mundo começa em junho de 2026, e a lista de convocados ainda não foi divulgada.
Neymar, aos 34 anos, retornou ao Santos em 2025 após passagem pelo Al-Hilal, clube saudita onde acumulou sequências longas de ausência por lesões. Sua regularidade física segue sendo o principal questionamento técnico — não sua qualidade, mas sua disponibilidade.
O perfil político por trás do ofício
A Agência Estado levantou o histórico parlamentar de Hélio Lopes no ano corrente: 47 sessões de plenário e comissões frequentadas, mas também 20 ausências não justificadas, zero discursos em plenário e nenhuma relatoria de projeto. O dado situa o ofício sobre Neymar num contexto de visibilidade política, não de política pública esportiva.
Segundo a Agência Estado, Lopes é próximo da família Bolsonaro e chegou a transferir seu domicílio eleitoral do Rio de Janeiro para Roraima para concorrer ao Senado — candidatura que pode não se concretizar.
Não existe na legislação brasileira qualquer mecanismo que obrigue uma federação esportiva privada a acatar recomendação de parlamentar sobre seleção de atletas.

O que a pressão política revela sobre o debate em torno de Neymar
A movimentação de Lopes é sintomática de um debate que extrapolou os limites técnicos há meses. Neymar acumula 77 gols em 129 jogos pela Seleção Brasileira — artilheiro histórico do país, à frente de Pelé. Esse dado alimenta o argumento emocional. Só que Ancelotti trabalha com outros números: minutos jogados na temporada, índice de lesões, intensidade das partidas. Esses dados, por ora, não foram divulgados publicamente pelo estafe do jogador ou pelo clube.
A CBF não respondeu ao ofício até o fechamento desta matéria. A lista de convocados de Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026 deve ser divulgada em maio, com o torneio tendo início em 11 de junho.
Em Brasília, o ofício já circula nas redes. Em Berna, onde a FIFA coordena o torneio, ninguém sabe o nome de Hélio Lopes.









