Diz-se que o Flamengo possui um dos ataques mais produtivos do Brasileirão. Leonardo Jardim ele mesmo reforçou essa ideia na noite de quinta-feira (14). Na soma de dois jogos contra o Vitória, porém, os números desmentem qualquer celebração: 47 finalizações, apenas 2 gols, e uma eliminação precoce na Copa do Brasil que deixa o clube rubro-negro restrito a Brasileirão e Libertadores até o fim de 2026.
Um campeonato descartado pela pontaria
Na ida, dia 21 de abril, o Flamengo venceu por 2 a 1 no Maracanã com 21 finalizações contra apenas 5 do Vitória. O resultado deixou a torcida insatisfeita já naquela noite — o clube criou chances suficientes para fechar o confronto ali mesmo, mas desperdiçou a margem. Na volta, quinta-feira no Barradão, foram 26 chutes a gol contra 5 do adversário. Placar: 0 a 2. Eliminação no agregado por 3 a 2.
A proporção de finalizações na série foi de 47 a 10 em favor do Flamengo. Em termos de domínio territorial, o clube carioca foi amplamente superior. Em termos de resultado, caiu. É o equivalente a um pianista que acerta todas as notas da partitura no ensaio e trava em silêncio no palco — a técnica existe, mas não se converte no momento que importa.
O histórico recente que acende o alerta em Jardim
A ineficiência do Barradão não é caso isolado. Levantamento do Lance! aponta que nas cinco partidas anteriores ao jogo de quinta, o Flamengo acumulou 70 finalizações, sendo 31 no alvo. Média de 14 chutes por partida, com apenas 6 acertando a meta — menos da metade. Contra o Grêmio, venceu por 1 a 0 em atuação elogiada, mas o placar mínimo já sinalizava o problema. No clássico com o Vasco, estava 2 a 0 aos 38 minutos do segundo tempo e cedeu o empate. Contra o Estudiantes, pela Libertadores, Bruno Henrique desperdiçou chance cara a cara e o time argentino empatou no lance seguinte.
Segundo apuração do SportNavo com dados das fontes que cobriram a eliminação, o Flamengo é apontado como um dos melhores ataques do Brasileirão em volume de finalizações — mas o aproveitamento efetivo contradiz esse posto quando a competição exige resultado eliminatório.

"Com 26 finalizações não conseguimos fazer um gol, há dias que as coisas não acontecem. Estou dizendo aqui e disse aos jogadores que não foi por falta de empenho, os jogadores deram seu melhor", afirmou Jardim em entrevista após o apito final em Salvador.
O técnico também rechaçou a tese de posse estéril, mas reconheceu o problema de concretização:
"Quando eu falo em posse estéril, é uma posse que não cria situações de finalização. Eu acho que a nossa posse criou situações de finalização. Creio que tivemos essa capacidade de criar; não tivemos foi a capacidade de finalizar. Porque normalmente, em um jogo com estas características, sairiam dois ou três gols."
Pedro e o lance que virou símbolo da noite
Nenhum momento resumiu melhor a falência ofensiva do que a jogada aos 41 minutos do segundo tempo. Wallace Yan cruzou na área, Bruno Henrique escorou de volta e Pedro dominou em posição privilegiada — mas finalizou fraco, direto nas mãos do goleiro Lucas Arcanjo, que defendeu praticamente sobre a linha. O Flamengo precisava do gol para se manter vivo. Não veio.

O jornalista Mauro Cezar não poupou o atacante nas redes sociais:
"A finalização peteleco de Pedro aos 42 minutos é caso de chamar a atenção com veemência assim que o jogo acabar. E há quem defenda a convocação de um atacante irregular pela própria displicência", publicou o comentarista.
Jardim, por sua vez, enquadrou o problema no âmbito técnico e psicológico:
"Melhorar a eficácia é um gesto técnico. Treinamos finalização, mas isso tem a ver com a confiança do jogador."O camisa 9 também teve oportunidades no primeiro tempo, sem concluir com precisão. Léo Pereira, zagueiro, chegou a finalizar na segunda etapa em tentativa de desespero — sinal claro de que o setor ofensivo havia esgotado as alternativas.
Dois títulos em jogo e pressão crescente sobre Jardim
Com a eliminação na Copa do Brasil, o Flamengo encerra qualquer possibilidade de conquista do torneio — que distribui premiação milionária e vaga na Supercopa do Brasil. O clube ocupa a segunda posição no Campeonato Brasileiro e lidera o Grupo A da Libertadores, com vaga encaminhada às oitavas de final. Jardim reconheceu o aumento da pressão:
"Nosso objetivo era manter as três competições em aberto, mas acabamos perdendo. Aumenta a pressão para conquistarmos as outras competições, mas a responsabilidade é a mesma."
O próximo teste chega rápido. O Flamengo enfrenta o Athletico-PR no domingo (17), às 19h30 (horário de Brasília), na Arena da Baixada, pela 16ª rodada do Brasileirão. Vencer é obrigação para manter o ritmo na tabela — e para provar que os 47 chutes desperdiçados em Salvador foram anomalia, não padrão.
Pedro saiu do Barradão sem marcar. As luzes do estádio se apagaram com o Vitória ainda em campo, comemorando. A bola, por algum motivo, insistiu em não entrar.









