O microfone estava ligado, a sala cheia e Dorival Júnior já sabia o que precisava dizer. São Paulo, SuperCT, 18 de maio de 2026 — apresentação oficial da terceira passagem do técnico pelo clube que, em 2023, o catapultou para a Seleção Brasileira. Antes de qualquer análise tática, veio o pedido: voltem ao Morumbi.
"Quero pedir ao torcedor que volte à sua casa, ao Morumbi, e que volte a acreditar na recuperação dessa equipe. Precisamos de uma reação rápida, e isso passa pela participação de todos."
O apelo não é retórico. O Tricolor atravessa turbulências políticas internas que afastaram parte da torcida dos jogos, e a diretoria aposta exatamente na identificação histórica entre Dorival e o são-paulino para destravar esse ciclo de desconfiança.
Por que Dorival saiu e por que voltou ao São Paulo
A saída em 2024 foi motivada por um objetivo que o treinador descreve como pessoal e intransferível. Quando o convite da CBF chegou, ele não hesitou.
"Veio o convite da Seleção. E eu sou da época que o mais importante para qualquer profissional do futebol era justamente vestir a camisa da Seleção. Era um objetivo de vida."
O retorno, agora, tem motivação diferente. Dorival citou sua primeira passagem, em 2017, quando o clube estava na zona de rebaixamento do Brasileirão, como referência de resiliência. Naquela edição, o São Paulo chegou a liderar o segundo turno — dado que o próprio técnico usou para contextualizar o que considera possível em cenários adversos.
A segunda passagem, entre 2022 e 2024, resultou em título da Copa do Brasil e performance que pavimentou o caminho para a Seleção. A terceira chega com o clube em situação mais estável na tabela do Brasileirão 2026, mas com ambiente interno desgastado — exatamente o tipo de problema que Dorival historicamente resolve antes de resolver qualquer problema tático.
Os desafios imediatos que o Tricolor colocou na mesa de Dorival
A estreia oficial não será pelo Brasileirão. O São Paulo enfrenta o Millonarios pela Copa Sul-Americana, e o técnico já começa sob pressão de resultado continental. Gerenciar dois torneios simultâneos enquanto reconstrói o clima interno do elenco é a equação que ele terá de resolver nas primeiras semanas.
O SportNavo mapeou que o engajamento digital do São Paulo nas últimas semanas registrou queda nas métricas de comentários positivos nas redes sociais — reflexo direto das polêmicas fora de campo. A apresentação de Dorival no SuperCT, transmitida ao vivo pelo canal oficial do clube, reverteu parcialmente esse indicador: o vídeo acumulou mais de 180 mil visualizações nas primeiras horas, com sentimento predominantemente favorável nos comentários.
Dorival foi questionado durante a coletiva sobre Neymar e uma eventual convocação pelo novo técnico da Seleção, Carlo Ancelotti. A resposta revelou o quanto o treinador ainda acompanha o cenário nacional mesmo estando de volta ao clube.
"Não temos um jogador como ele. Talvez seja o maior artilheiro do futebol brasileiro vestindo a camisa da seleção mais importante do planeta. É um jogador que pode fazer a diferença em uma ou duas jogadas."
O que o torcedor tricolor pode esperar nos próximos meses
Nas duas passagens anteriores, Dorival demonstrou um padrão reconhecível: primeiras semanas com foco em recuperação de ambiente, seguidas de organização defensiva antes de qualquer proposta ofensiva mais elaborada. Em 2017, o São Paulo saiu da zona de rebaixamento em menos de dois meses sob seu comando. Em 2023, o título da Copa do Brasil veio com uma equipe que não era favorita em nenhuma fase do torneio.
O elenco atual tem peças com qualidade técnica acima da média para o Brasileirão, segundo análises de desempenho que circulam internamente no clube. O próprio Dorival reconheceu isso na apresentação, afirmando que o time manteve "uma postura muito competitiva" mesmo durante o período de instabilidade — algo que ele classificou como "elogiável" e que pretende usar como base.
A relação entre o técnico e o ambiente digital do clube também importa: Dorival é um dos treinadores com maior índice de aprovação nas redes do São Paulo, fenômeno que a diretoria pesou diretamente na decisão de buscá-lo pela terceira vez. Num clube que viu sua gestão ser duramente criticada em fóruns e grupos de WhatsApp de torcedores, ter um nome que ainda gera afeto é um ativo concreto, não apenas sentimental.
A conta que esta terceira passagem precisa fechar
Três passagens pelo mesmo clube constroem uma narrativa que exige consistência. A primeira foi de sobrevivência. A segunda, de conquista. A terceira não tem mais a margem que as anteriores tinham — e Dorival parece consciente disso. Pediu equilíbrio, paciência e presença. Nenhuma dessas três palavras é vaga quando vem de um técnico que já sabe exatamente o que o Morumbi exige.
A estreia acontece já nos próximos dias contra o Millonarios pela Sul-Americana, jogo que servirá de primeiro termômetro real para o que Dorival pretende construir — e para saber se o torcedor atendeu ao chamado de voltar para casa. Como numa partitura que começa pelo compasso mais difícil, o regente já está no palco. A orquestra precisa aparecer.









