A luz do corredor do centro cirúrgico ainda estava acesa quando um homem de 31 anos, que havia passado 45 dias se recuperando de uma fratura nas costelas, entendeu que o calendário voltaria a ser seu inimigo. Só então, depois do procedimento, o meia Lucas Moura conseguiu organizar os pensamentos e projetar um retorno. A cirurgia havia sido realizada pelo ortopedista e traumatologista Moisés Cohen, um dos nomes de maior referência em medicina esportiva no Brasil, após o diagnóstico de ruptura do tendão calcâneo direito com arrancamento ósseo — lesão sofrida cerca de 20 minutos depois de Lucas entrar em campo contra o Bahia pelo Brasileirão 2026.
O que mudou
A técnica utilizada por Cohen e sua equipe foi a reinserção do tendão ao osso, procedimento que exige precisão cirúrgica e, sobretudo, paciência na reabilitação. O médico foi direto ao descrever o estado emocional do jogador no pré-operatório:
"Ele desabafou, chorou. Trata-se de uma lesão grave. O tempo médio de recuperação para esse tipo de problema é de cerca de seis meses."
Seis meses. O número é preciso e, ao mesmo tempo, carregado de história no futebol brasileiro e europeu. O tendão calcâneo — popularmente chamado de tendão de Aquiles — é uma das estruturas mais exigidas no futebol moderno, onde acelerações explosivas e mudanças de direção em alta velocidade são rotina. No Brasil, Ronaldo Fenômeno conviveu com rupturas musculares próximas à região do tendão ao longo da carreira, e o volante Sandro Ranieri, do Fluminense, levou oito meses para retornar após lesão similar em 2019. Na Europa, o histórico é igualmente extenso: o sueco Zlatan Ibrahimović rompeu o tendão calcâneo esquerdo em abril de 2017, aos 35 anos, e voltou a jogar pela Suécia na Copa do Mundo de 2018 — um dos retornos mais emblemáticos da última década.
Cohen foi além do caso individual e trouxe evidência científica para embasar o prognóstico:
"Em 2025, saiu uma publicação mostrando 16 jogadores profissionais, na Europa, com lesões no tendão do calcâneo submetidos à mesma técnica que usamos na cirurgia. Todos voltaram."
O dado é relevante: 16 atletas de alto rendimento, mesma técnica cirúrgica, 100% de retorno ao esporte profissional. Conforme levantamento do SportNavo sobre casos documentados de lesões no tendão calcâneo no futebol, a taxa de retorno ao futebol profissional após cirurgia de reinserção supera 90% quando o protocolo de reabilitação é seguido rigorosamente — número que contextualiza o otimismo cauteloso de Cohen.
Por que agora
A pergunta que o torcedor são-paulino inevitavelmente se faz não é apenas sobre o tendão, mas sobre o acúmulo.
Quanto pesa sobre um corpo a sequência de uma fratura nas costelas seguida, 45 dias depois, de uma ruptura tendínea grave?
O futebol tem um ditado não oficial que ecoa nos vestiários: quem não tem cão caça com gato — e o São Paulo, sem Lucas disponível por meses, precisará encontrar soluções criativas no setor ofensivo enquanto espera o retorno do camisa 7. A lesão ocorreu num momento em que o clube tentava reencontrar consistência no Brasileirão 2026, e a ausência de um jogador com a leitura de jogo de Lucas representa um buraco tático difícil de tapar no curto prazo. O contexto agrava o diagnóstico médico: não é apenas uma lesão, é uma lesão que interrompe uma reintegração já delicada.
Cohen reconheceu que prever o nível de rendimento pós-cirurgia é território de incerteza:

"Julgar rendimento é difícil. Temos vários atletas de alto nível com esse tipo de lesão — muito comum no vôlei — que voltam a jogar. Mas se o nível será o mesmo, maior ou menor… é algo muito difícil de prever."
A comparação com o vôlei não é aleatória. No voleibol brasileiro, lesões no tendão calcâneo são tratadas com protocolo de reabilitação altamente desenvolvido, e jogadores como Wallace de Souza e Leal acumulam históricos de retorno bem-sucedido após intervenções cirúrgicas similares. A transferência desse conhecimento para o futebol tem avançado, e Cohen está entre os médicos que mais contribuíram para essa ponte científica no Brasil.
O que vem em seguida
Após a cirurgia, o humor de Lucas Moura mudou de tom. O choro do pré-operatório cedeu espaço a uma determinação que Cohen não escondeu ao relatar a conversa:
"Depois da cirurgia, Lucas parecia mais consciente, mais convencido da situação. Falou em voltar no final do ano, disse que quer disputar uma final. Eu brinquei com ele: 'muito bom, mas o São Paulo precisa ganhar muitos jogos para chegar lá'."
A piada do médico carrega uma verdade dupla: o retorno de Lucas em novembro de 2026 é matematicamente possível dentro da janela de seis meses, mas depende tanto da evolução clínica do atleta quanto do desempenho coletivo do São Paulo para que haja uma final a disputar. A análise do SportNavo indica que, com início de recuperação em maio, o protocolo padrão colocaria Lucas apto para transição ao campo entre outubro e novembro — período que coincide com a fase decisiva do Brasileirão e, eventualmente, da Copa do Brasil.
O São Paulo retorna a campo nesta semana pelo Brasileirão 2026, sem Lucas Moura e sem a garantia de quando voltará a contar com um jogador que, quando saudável, é capaz de decidir partidas sozinho. O clube terá de responder a essa ausência com elenco e criatividade tática — enquanto, num centro de reabilitação, um homem de 31 anos começa a reconstruir, passo a passo, a estrutura que o calendário insistiu em romper.









