Confesso: em março de 2026, escrevi aqui no SportNavo que Neymar chegaria à Copa fisicamente estável, que o pior havia ficado para trás depois da cirurgia de outubro de 2023. Errei. As duas lesões musculares na mesma coxa em menos de trinta dias me obrigam a revisar essa avaliação com dados que, honestamente, não estavam no meu cálculo.
A cronologia que nenhum torcedor quer ler sobre Neymar em 2026
O atacante de 34 anos disputou sua última partida pelo Santos no dia 16 de abril de 2026. Aos 34 minutos do primeiro tempo, a contusão muscular na coxa reapareceu — a mesma região que já havia interrompido sua sequência semanas antes. Duas ocorrências no mesmo grupamento muscular, no intervalo de menos de um mês, formam um padrão que a medicina esportiva trata com cautela máxima, não com otimismo de comissão técnica.
Para situar historicamente: Neymar rompeu o ligamento cruzado anterior (LCA) em outubro de 2023, durante partida do Al-Hilal. A cirurgia veio na sequência, e o processo de reabilitação consumiu mais de um ano. O retorno ao Santos aconteceu em janeiro de 2026, com o objetivo declarado de recuperar ritmo e reconquistar a Seleção. Até aqui, o roteiro era previsível. O que não estava no script foram as recidivas musculares que surgiram justamente quando o calendário mais exigia consistência.
Maior artilheiro da história da Seleção Brasileira, com 79 gols em 128 partidas, Neymar chega à sua quarta Copa do Mundo carregando um histórico físico que nenhum dos três Mundiais anteriores — 2010, 2014 e 2018 — apresentava com essa densidade de episódios em tão curto espaço de tempo.
O que os desequilíbrios musculares pós-LCA revelam sobre o risco real
O Dr. Ricardo Soares, médico especialista do Hospital Ortopédico AACD, ofereceu a interpretação clínica mais equilibrada disponível até agora.
"É natural essa oscilação de desconforto muscular em lesões de graus 1 ou 2. É comum que o atleta volte e jogue três ou quatro jogos e tenha que parar ou voltar para somente meio tempo, por exemplo. O retorno é gradual e é importante sempre respeitar a queixa clínica para que o retorno seja progressivo na medida que o paciente tenha conforto. Avalio que há tempo hábil para essa total recuperação e que não tenha problema para a atuação dele na competição de 2026", explicou o especialista.
A ressalva técnica que o próprio Dr. Soares embute na análise merece atenção: o retorno pós-LCA frequentemente gera desequilíbrios entre os músculos isquiotibiais e o quadríceps. Quando essa assimetria não é corrigida integralmente antes da retomada de carga competitiva, as lesões musculares de grau 1 e 2 tornam-se recorrentes — exatamente o padrão que Neymar demonstrou em abril.
Dois episódios. Mesma coxa. Menos de trinta dias.
A medicina esportiva não trata isso como coincidência. Trata como sinal de que a musculatura ainda não absorveu a demanda de jogo em intensidade máxima, o que coloca a preparação pré-Copa numa equação delicada: avançar rápido demais aumenta o risco de uma terceira lesão; avançar devagar demais significa chegar ao MetLife Stadium sem ritmo competitivo real.

A convocação de Ancelotti e a síntese que os números exigem
Carlo Ancelotti adotou cautela pública durante meses, afirmando repetidamente que só convocaria Neymar quando o atleta estivesse em plenas condições físicas. A convocação, anunciada no dia 19 de maio de 2026 no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, contradiz parcialmente esse discurso — o jogador está sem atuar há mais de um mês.
"Não sou um cara ansioso. Com certeza será a última Copa de qualquer jeito, indo ou não. Me lesionei de novo, tive que me reerguer de novo. Várias vezes foram assim: momentos de lesão, dor, volta por cima... mas deu certo, estou feliz e orgulhoso", disse Neymar antes de saber que estava na lista de 26.
A fala do próprio jogador é reveladora: ele reconhece as recaídas, não as minimiza. E a reação emocional à convocação — Neymar revelou ter chorado por horas após ouvir seu nome, cercado de familiares e amigos como Thiaguinho e Gabigol no Santos — mostra que ele próprio não tinha certeza de que estaria no grupo.
Historicamente, convocações de risco físico elevado raramente terminam bem em Copas do Mundo. A mais dolorosa para o Brasil foi justamente em 2014, quando Neymar entrou no torneio como protagonista absoluto e saiu de maca na fase de quartas de final, após fratura na vértebra lombar no duelo contra a Colômbia. Aquela Copa terminou em 7 a 1 contra a Alemanha. A ausência do camisa 10 não foi a única causa, mas foi o catalisador do colapso emocional e tático da equipe.
A síntese honesta que os dados impõem é esta: Ancelotti apostou num Neymar de meio tempo, de jogo controlado, de participação cirúrgica — não num camisa 10 de 90 minutos em alta intensidade durante quatro semanas de torneio. Essa aposta pode funcionar se o músculo da coxa responder ao protocolo de recuperação nas próximas três semanas. Pode fracassar se uma terceira lesão surgir no aquecimento da estreia.
O Santos retoma os treinos com Neymar ainda em protocolo de fisioterapia. A comissão técnica da Seleção Brasileira terá acesso ao atleta a partir do início de junho, quando o grupo se concentra para a preparação final. O prazo entre agora e a estreia do Brasil na Copa do Mundo 2026 é de aproximadamente três semanas — tempo que o Dr. Soares considera suficiente para recuperação, mas que a cronologia de abril torna objetivamente incerto.
Se Neymar entrar em campo na estreia e sofrer uma terceira lesão muscular na mesma coxa, qual deve ser a decisão de Ancelotti — mantê-lo no grupo como opção de banco para a fase mata-mata ou devolvê-lo ao Brasil e convocar um substituto em tempo hábil?









