Os números não mentem: desde 2001, quando Gustavo Kuerten e Fernando Meligeni formavam a última dupla verdadeiramente competitiva do Brasil na Copa Davis, o país não conseguiu estabelecer uma parceria consistente nas duplas. Rafael Matos e Orlando Luz podem estar mudando essa estatística. A dupla catarinense alcançou as semifinais do ATP 250 de Munique, resultado que coloca os brasileiros entre os quatro melhores pares do torneio alemão.
Números que impressionam em solo alemão
Matos, de 31 anos, e Luz, de 30, ambos atletas da ADK Tennis do Itamirim Clube de Campo, de Itajaí (SC), eliminaram duplas ranqueadas para chegar às semifinais bávara. O feito ganha relevância quando analisamos o contexto histórico: nas últimas duas décadas, o Brasil disputou apenas 12 confrontos de duplas decisivos na Copa Davis, vencendo somente quatro deles - aproveitamento de 33,3%.
A parceria entre os catarinenses não é nova, mas vem ganhando consistência. Em 2024, disputaram sete torneios juntos no circuito ATP, com três quartas de final e agora uma semifinal. Para comparação, a França - atual campeã da Copa Davis - possui em Nicolas Mahut e Fabrice Martin uma dupla que já venceu 15 títulos ATP em conjunto.
O que faltava ao tênis brasileiro
Segundo levantamento do SportNavo, o Brasil não possui uma dupla especializada ranqueada entre os 50 melhores do mundo desde 2019, quando Marcelo Demoliner figurava no top 40. Matos atualmente ocupa a 89ª posição no ranking de duplas da ATP, enquanto Luz está em 124º - números que, embora distantes da elite mundial, representam o que há de mais próximo de uma dupla consolidada no país.
A compatibilidade entre os estilos dos dois jogadores chama atenção dos especialistas. Matos, destro com 1,85m, possui saque potente e jogo de rede agressivo - características que se complementam com o backhand de duas mãos consistente e a mobilidade de Luz, também destro, mas com 1,78m. Essa dinâmica lembra a antiga parceria entre Kuerten (1,90m, jogo de potência) e Meligeni (1,75m, técnica refinada).

Contexto da Copa Davis e a urgência brasileira
O Brasil disputa atualmente a zona das Américas II da Copa Davis, equivalente à terceira divisão da competição. Para retornar ao Grupo Mundial, precisa vencer sua chave regional e depois superar um playoff intercontinental. Historicamente, os confrontos de duplas decidem 40% das eliminatórias da Copa Davis - daí a importância de contar com especialistas.
Leonardo Storck, jovem de Cuiabá (MT) que compete pela Rio Tennis Academy, também vem chamando atenção no cenário junior internacional. O mato-grossense aplicou um "pneu" (6-0, 6-0) em sua última partida no Roland Garros Junior Series, demonstrando o potencial da nova geração brasileira. Aos 17 anos, Storck já figura entre os 50 melhores juniors do mundo.
Comparação com outras potências
Enquanto países como Espanha (Marcel Granollers/Horacio Zeballos), Alemanha (Kevin Krawietz/Andreas Mies) e Austrália (Matthew Ebden/Max Purcell) contam com duplas estabelecidas no top 20 mundial, o Brasil segue dependendo de improvisações. Na última participação brasileira no Grupo Mundial, em 2018, a dupla foi formada por Marcelo Melo - então número 6 do mundo - ao lado de Bruno Soares, parceria montada especificamente para a competição.
A análise estatística revela que duplas com mais de 20 torneios disputados juntos possuem 67% de aproveitamento em primeiros rounds da Copa Davis, contra 43% das parcerias formadas pontualmente. Matos e Luz, com 18 torneios em conjunto desde 2022, estão próximos dessa marca de consolidação.
A semifinal de Munique representa mais que um resultado isolado - pode ser o início da solução para um problema que persegue o tênis brasileiro há mais de duas décadas. Os próximos compromissos da dupla incluem o ATP 250 de Genebra, em maio, onde enfrentarão adversários ranqueados entre os 30 melhores do mundo, teste definitivo para medir o real potencial da parceria catarinense.

