O calor de Nova Jersey entrou pelo túnel do MetLife Stadium como uma parede. Sessenta e dois mil pessoas de verde e amarelo encheram as arquibancadas, a fumaça dos fogos ainda pairava sobre o gramado quando o árbitro apitou o início da estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026 — e, no banco de reservas, um jovem de 19 anos ajustou o colete, cruzou os braços e assistiu ao jogo que a torcida queria vê-lo jogar. Endrick não entrou. Nem por um minuto.
O Brasil terminou em 1 a 1 com Marrocos na primeira rodada do Grupo C, resultado que já complica o caminho da Seleção antes mesmo de o torneio ganhar ritmo. Igor Thiago foi o nome escolhido por Carlo Ancelotti para liderar o ataque — e o centroavante do Brugge cumpriu sua função sem brilho e sem gol. Quem balançou a rede pelo Brasil foi Vinicius Júnior, mas o empate cedido aos marroquinos deixou um gosto amargo e uma pergunta pulsando nas redes sociais, nos corredores do estádio e nas entrevistas coletivas da noite de sábado.
O silêncio de Ancelotti e a resposta que não veio
Na sala de imprensa do MetLife, Carlo Ancelotti sentou-se diante dos microfones com a calma característica de quem já viu muita pressão. Quando um jornalista perguntou diretamente sobre a ausência de Endrick em campo, o treinador italiano não hesitou — mas também não respondeu.
"Não falo dos jogadores individualmente", disse Ancelotti, encerrando o assunto com uma frase que, na prática, disse tudo sem dizer nada.
A declaração ecoou como um muro. Ancelotti não explicou por que Igor Thiago foi preferido, não comentou o estado físico de Endrick, não abriu nenhuma janela sobre o planejamento para as próximas rodadas. A gestão de informação foi tão hermética quanto o bloqueio defensivo marroquino nos 90 minutos anteriores.
No segundo tempo, quando o Brasil pressionava em busca da virada e o placar marcava 1 a 1, as arquibancadas começaram a cantar um nome. O coro por Endrick subiu das arquibancadas com uma clareza que não precisava de tradução — e Ancelotti ficou sentado no banco, de braços cruzados, olhando para o campo.
Decidiu.
Os números que justificam a pressão da torcida
A exigência do público não nasceu do nada. Endrick acumula cinco participações diretas em gols com a camisa da Seleção Brasileira — quatro gols marcados e uma assistência. O dado mais revelador, porém, é o contexto em que essas participações ocorreram: em todas elas, o Brasil estava empatando ou perdendo no segundo tempo. O jovem entrou, mudou o jogo e garantiu resultados.
O episódio mais recente é fresco na memória. No último amistoso de preparação antes da Copa, contra o Egito, Endrick marcou o gol da vitória. Foi ele quem deixou o Brasil chegar ao torneio com moral — e foi ele quem ficou sentado contra Marrocos enquanto Igor Thiago tentava, sem sucesso, criar perigo.
Na enquete do portal ge, o VC Escala, publicada durante a semana anterior à estreia, Endrick foi o terceiro jogador mais votado pelos torcedores brasileiros para começar como titular — ficando atrás apenas de Vinicius Júnior e Bruno Guimarães. A torcida havia dado seu veredicto com antecedência. Ancelotti simplesmente ignorou.
Igor Thiago e a aposta que não convenceu
Igor Thiago, 24 anos, viveu uma temporada sólida no Club Brugge, da Bélgica, e chegou à Copa como alternativa legítima ao centroavante tradicional. Mas a partida contra Marrocos não foi seu melhor momento. O atacante trabalhou na profundidade, disputou bolas aéreas e tentou criar espaços para Vinicius e Raphinha, mas ficou sem finalização de perigo e sem envolvimento direto no único gol brasileiro.
A opção de Ancelotti por Igor Thiago como titular revela uma escolha tática clara — um pivô físico, de referência, capaz de fixar a zaga adversária. O problema é que Marrocos, com sua organização defensiva compacta e transições rápidas, não foi desestabilizado por esse perfil. E Endrick, cujo movimento entre linhas e velocidade de decisão é completamente diferente, ficou observando da lateral do campo.
A questão que os analistas levantam não é se Igor Thiago é um bom jogador — é se ele era a escolha certa para aquele adversário, naquele momento, naquela fase de Copa do Mundo.
O que muda a partir de agora no Grupo C
Com um ponto na tabela, o Brasil precisa vencer as próximas duas partidas da fase de grupos para garantir classificação com tranquilidade. O empate contra Marrocos, equipe que chegou às semifinais da Copa do Mundo de 2022 no Qatar, não é necessariamente uma vergonha — mas exige resposta imediata.
A pressão sobre Ancelotti para escalar Endrick deve crescer exponencialmente antes da segunda rodada. Não existe mais o conforto da estreia, do período de adaptação, da margem para experimentos. O Brasil está empatado no grupo e cada detalhe de escalação passa a ter peso eliminatório.
Endrick tem 19 anos, um histórico de decisões com a camisa verde e amarela, e 90 minutos intocados contra Marrocos no MetLife Stadium. A próxima rodada do Grupo C começa a ser disputada daqui a quatro dias — e o jovem atacante ainda não entrou sequer uma vez nesta Copa do Mundo.








