O silêncio dos gols persegue Endrick no Groupama Stadium. O jovem atacante brasileiro completou sete jogos sem marcar pelo Lyon, sua maior sequência negativa desde a chegada ao futebol europeu. O empate sem gols contra o Montpellier na última rodada da Ligue 1 ilustrou perfeitamente o dilema que envolve tanto o jogador quanto o sistema tático implementado por Pierre Sage.
A situação lembra os primeiros meses de Gabriel Jesus no Arsenal, quando Mikel Arteta priorizou a solidez defensiva em detrimento da criação ofensiva. No caso do Lyon, o pressing alto característico do gegenpressing alemão tem sido aplicado de forma conservadora, com Endrick operando mais como um facilitador do que como finalizador nato que demonstrou ser no Palmeiras.
Sistema tático limita chegadas ao gol
As estatísticas revelam o cerne do problema: Endrick registra apenas 2.1 finalizações por jogo no Lyon, contra 4.3 que mantinha no Verdão. Pierre Sage adotou um esquema 4-3-3 modificado que prioriza a recuperação da posse no terço intermediário, deixando o atacante brasileiro com menos espaços para explorar dentro da área adversária.
O técnico francês, de 45 anos, assumiu o cargo em novembro passado com a missão de estabilizar defensivamente um Lyon que sofria 1.8 gols por partida. A estratégia funcionou: a equipe reduziu para 0.9 gols sofridos por jogo, mas o preço foi uma produção ofensiva que despencou de 2.2 para 1.4 gols marcados por confronto.
"O sistema defensivo está funcionando, mas precisamos encontrar o equilíbrio para potencializar nossos atacantes", admitiu Sage após o empate contra o Montpellier.
Comparação com outros jovens talentos europeus
A adaptação de Endrick ao futebol francês ecoa as dificuldades enfrentadas por outros prodígios sul-americanos na Europa. Vinícius Júnior passou por período similar no Real Madrid sob Zinedine Zidane, quando o tiki-taca madridista limitava suas investidas pelo corredor esquerdo. A diferença reside na paciência institucional: o Lyon precisa de resultados imediatos para escapar da zona de rebaixamento.
Atualmente na 14ª posição da Ligue 1 com 23 pontos, o Lyon mantém apenas três pontos de vantagem sobre o Angers, primeiro time dentro da zona de descenso. Essa proximidade com o Z-3 explica a postura defensiva de Sage, que prefere somar pontos a arriscar derrotas buscando espetáculo ofensivo.
Números individuais preocupam comissão técnica
Além dos sete jogos sem gols, Endrick apresenta outros indicadores preocupantes: apenas 31% de aproveitamento nos passes dentro da área adversária e 28% de precisão nos cruzamentos. Esses números contrastam drasticamente com os 67% de aproveitamento nos passes decisivos que mantinha no Palmeiras, clube onde desenvolveu características de armador avançado.
A imprensa esportiva francesa não poupou críticas ao desempenho do brasileiro. O jornal L'Équipe classificou sua atuação contra o Montpellier com nota 4 de 10, destacando "falta de objetividade nas ações ofensivas" e "desconexão com o ritmo de jogo da equipe".
"Endrick precisa se adaptar ao sistema coletivo. Individual ele tem qualidade, mas o futebol moderno exige compreensão tática", analisou o ex-atacante Thierry Henry em programa da Amazon Prime Video França.
O próximo desafio será diante do Lille, na sexta-feira, no Estádio Pierre-Mauroy. O confronto contra o quarto colocado da Ligue 1 representa oportunidade crucial para Endrick quebrar o jejum e para o Lyon se afastar definitivamente da zona de rebaixamento que assombra a temporada 2024-25.

