Às vezes, para avançar, é preciso recuar. Endrick saiu do maior clube do mundo — o Real Madrid — e foi para um Lyon em reconstrução na Ligue 1 para finalmente se tornar o jogador que o futebol brasileiro sempre esperou que ele fosse. Esse paradoxo, que poderia parecer derrota, é hoje o argumento mais sólido que o atacante de 19 anos carrega na bagagem rumo à Copa do Mundo de 2026.

De três jogos em Madrid a 21 no Lyon — o que os números escondem

Antes do empréstimo ao Lyon, firmado em janeiro de 2026, Endrick havia participado de apenas três partidas com a camisa merengue na temporada 2025/26. O motivo era simples e cruel ao mesmo tempo: sob o comando de Xabi Alonso, o clube preferia escalar Gonzalo García, jovem que havia se destacado no Mundial de Clubes e conquistado a confiança do técnico espanhol. Para um atacante que chegou ao Santiago Bernabéu cercado de expectativa e um custo que superou os 60 milhões de euros, ser o quarto da fila é uma pressão silenciosa que consome.

No Lyon, o cenário mudou radicalmente. Em 21 jogos, Endrick registrou 8 gols e 7 assistências, chegando a 15 participações diretas em gols — uma média que nenhum atacante brasileiro no futebol europeu igualou no mesmo período. O técnico Paulo Fonseca não escondeu o entusiasmo com o rendimento do brasileiro, elogiando publicamente sua capacidade de atuar como ponta-direita, posição que amplia as possibilidades táticas do jogador e o torna mais imprevisível para marcadores adversários.

"Não foi difícil, fui sem medo. Foi uma das melhores decisões da minha vida. São oito gols e sete assistências, espero seguir somando e buscando coisas melhores no futebol", declarou Endrick ao canal Men in Blazers, no YouTube.

A frase carrega mais do que autoconfiança juvenil. Ela revela um atleta que processou a adversidade sem drama público e entregou resultado mensurável — a moeda mais valiosa no futebol de alto nível.

O que Bellingham e Alexander-Arnold fizeram além de ensinar inglês

Pouco se fala sobre o custo emocional de ser preterido no Real Madrid enquanto companheiros de treino disputam Bolas de Ouro. Endrick, porém, foi direto ao revelar que o apoio de Jude Bellingham e Trent Alexander-Arnold foi determinante para atravessar a fase mais difícil de sua adaptação europeia.

"Bellingham me liga todos os dias. Quando eu estava me sentindo mal, ele me procurava e conversávamos. Ele me ajudou muito. Trent também. Eles são jogadores muito acessíveis. Tento aprender com eles, inclusive inglês, mas é impossível entendê-los", disse o atacante, com bom humor, referindo-se ao sotaque britânico cerrado dos dois.

Seria injusto chamar de rede de apoio emocional o que Bellingham e Alexander-Arnold construíram com Endrick — mas é uma rede de apoio emocional em escala de vestiário de clube bilionário. O detalhe importa porque revela um atleta inserido em relações de confiança dentro de um ambiente que costuma ser impiedoso com os mais jovens. Essa estabilidade pessoal transparece em campo: Endrick no Lyon não era um jogador ansioso tentando provar algo. Era um atleta jogando futebol.

Na Seleção Brasileira, esse suporte emocional ganhou novos personagens. Os treinos nos Estados Unidos, onde o Brasil se prepara para a Copa do Mundo 2026, mostraram um ambiente de alta intensidade — Casemiro, reconhecido pela seriedade em campo, chegou a acertar um carrinho em Endrick durante uma atividade, em episódio que viralizou entre torcedores e foi motivo de risos no grupo. O veterano também tentou o mesmo com Wesley, ex-Flamengo, que percebeu a chegada do volante a tempo e pulou para escapar do bote.

Ancelotti sabe o que Endrick representa — e a Seleção também

Carlo Ancelotti reencontrou Endrick na Seleção Brasileira depois de tê-lo recebido no Real Madrid. O técnico italiano, que assumiu o comando do Brasil após o ciclo eliminatório, já conhecia o perfil do atacante e, segundo o próprio jogador, sempre demonstrou cuidado genuíno com o desenvolvimento humano de seus atletas.

"Grande treinador e um grande paizão de todos os jogadores. Te entende muito bem como pessoa e sabe muito bem o que você deve fazer dentro de campo. A minha relação com ele e todo o estafe dele é maravilhosa", afirmou Endrick sobre Ancelotti.

Essa relação prévia entre técnico e atacante elimina o período de adaptação que normalmente penaliza jovens em suas primeiras Copas do Mundo. Endrick chega ao torneio sabendo exatamente o que Ancelotti espera dele — e Ancelotti sabe o que Endrick é capaz de entregar quando tem confiança e minutagem consistente. Os 8 gols no Lyon são a prova documental dessa capacidade.

O elenco brasileiro para o Mundial reúne nomes como Danilo, o lateral do Flamengo que disputa sua terceira Copa do Mundo aos 34 anos e representa a espinha dorsal experiente do grupo, e Lucas Paquetá, que também treinou normalmente com o elenco nesta sexta-feira (05). A mistura de veteranos com rodagem em Champions League e jovens com fome de prova é exatamente o tipo de ambiente que acelera o amadurecimento de um atacante de 19 anos.

O efeito cascata que começa no sábado e vai até julho

Qual é o verdadeiro teste de tudo isso?

O Brasil enfrenta o Egito neste sábado (06), às 19h (horário de Brasília), nos Estados Unidos, em um amistoso que é também vitrine para Ancelotti ajustar últimos detalhes táticos antes do torneio. O duelo tem ainda um detalhe simbólico: a Seleção jogará com camisetas azuis, calções e meias pretas — combinação que não aparecia desde a década de 1930, quando o Brasil usou meias pretas nas três primeiras participações em Mundiais, em 1930 e 1934. A Nike criou a coleção especialmente para a Copa do Mundo 2026, resgatando uma estética de quase um século atrás.

Para Endrick, o amistoso contra o Egito é a primeira oportunidade de mostrar ao mundo que o Lyon não foi um desvio na carreira — foi a reta que faltava. Após o Mundial, o atacante retorna ao Real Madrid com um currículo completamente diferente do que tinha quando deixou o clube: 15 participações em gols em 21 jogos no futebol europeu, um título de Copa do Mundo na mira e a maturidade de quem escolheu o caminho difícil e acertou. Xabi Alonso terá um problema diferente para resolver na próxima temporada da La Liga 2026/27.