Três gols em 22 minutos de campo distribuídos em dois amistosos. Aos 17 anos, 3 meses e 3 dias, Endrick não apenas marcou época nos primeiros jogos da era Dorival Júnior, como resgatou algo que há muito tempo faltava à torcida brasileira: a esperança genuína no surgimento de um novo fenômeno. O jovem atacante do Palmeiras tornou-se o mais jovem jogador da história a balançar as redes em Wembley por clube ou seleção, superando marca que resistia há décadas no templo do futebol inglês.

Os números que fazem de Endrick um caso único

Para compreender a dimensão do feito de Endrick, é preciso recorrer aos registros históricos. Na vitória por 1 a 0 sobre a Inglaterra em 23 de março de 2024, ele se tornou apenas o quarto jogador mais jovem a marcar pela Seleção principal, ficando atrás somente de Pelé (16 anos e 9 meses em 1957), Edu Coimbra (17 anos e 3 meses em 1966) e Ronaldo Fenômeno (17 anos e 5 meses em 1994). Três dias depois, no empate épico de 3 a 3 com a Espanha no Santiago Bernabéu, voltou a balançar as redes, desta vez aos 46 minutos do segundo tempo.

A comparação com Romário surgiu naturalmente. Joe Cole, comentarista da emissora inglesa Channel 4, foi certeiro em sua análise após a partida em Wembley:

"Acho que ele tem um pouco de Romário. O formato do corpo, a maneira como ele guarda a bola. E a alegria em seu rosto. É o jogador mais jovem a marcar em Wembley por um clube ou seleção. Excepcional."

A estatística impressiona ainda mais quando confrontada com os dados das últimas Copas do Mundo. Desde 2006, apenas Kylian Mbappé conseguiu marcar em uma Copa com idade inferior aos 20 anos, fato que ocorreu na Rússia-2018 quando o francês tinha 19 anos. Endrick, se confirmado na convocação para 2026, chegará ao torneio com apenas 19 anos completos.

Dorival Júnior e a revolução tática silenciosa

Os primeiros dois jogos de Dorival Júnior à frente da Seleção revelaram muito mais do que apenas a ascensão de Endrick. O técnico implementou um sistema tático que remonta aos tempos de Carlos Alberto Parreira e Luiz Felipe Scolari: organização defensiva sólida com liberdade criativa no terço final. Contra a Inglaterra, escalou Bento; Danilo, Fabricio Bruno, Beraldo e Wendell; João Gomes, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Vinicius Júnior, Raphinha e Rodrygo.

O capitão Danilo foi direto ao ponto sobre a mudança de filosofia implementada pelo novo treinador:

"O futebol às vezes é fazer aquilo que já tem inventado, digamos assim. Acho que essa seleção precisa de um pouco de organização e dentro dessa organização é que os jogadores tenham a liberdade. O Dorival organizou, pôs cada um no seu lugarzinho."

A declaração do lateral-direito do Juventus foi interpretada como uma crítica indireta ao trabalho de Fernando Diniz, que comandou o Brasil em seis partidas com desempenho irregular: duas vitórias, um empate e três derrotas, incluindo a dolorosa derrota por 1 a 0 para a Argentina no Maracanã em novembro de 2023.

O resgate da confiança através de atuações memoráveis

O empate de 3 a 3 contra a Espanha no Santiago Bernabéu demonstrou a capacidade de reação que faltava à Seleção. Perdendo por 2 a 0 no primeiro tempo com gols de Rodri (pênalti aos 12 minutos) e Dani Olmo (36 minutos), o Brasil mostrou personalidade para buscar o resultado. Rodrygo diminuiu ainda no primeiro tempo (38 minutos), Endrick empatou no segundo (50 minutos), Rodri voltou a colocar a Espanha à frente no final (90+4), mas Lucas Paquetá garantiu o empate definitivo de pênalti (90+9).

Endrick celebrou seu primeiro gol no estádio do Real Madrid, clube que o receberá a partir de julho de 2024, de forma emocionante. O jovem atacante destacou o apoio familiar e a determinação do grupo:

"A gente quer sempre vencer. O Danilo estava falando que a gente precisa vencer, a gente precisa mostrar a cara do Brasil. O Vini também falou para a gente voltar a colocar o Brasil no topo, de onde ele nunca deveria ter saído. O que não vai faltar é raça, não vai faltar determinação, não vai faltar garra."

Copa América como palco de confirmação

O próximo teste decisivo para Endrick e para o projeto de Dorival Júnior será a Copa América de 2024, que acontecerá entre junho e julho nos Estados Unidos. Antes disso, a Seleção enfrentará México (8 de junho) e Estados Unidos (12 de junho) em amistosos preparatórios. A competição continental representará a primeira oportunidade real de Endrick conquistar um título pela Seleção principal, algo que nenhum brasileiro conseguiu desde a Copa América de 2019.

Com apenas dois jogos no currículo pela Seleção principal, Endrick já superou marcas de aproveitamento de gerações inteiras. Sua média de 1,5 gol por partida supera os números de Ronaldinho Gaúcho (0,31), Kaká (0,29) e até mesmo Romário (0,70) considerando os primeiros jogos de cada um pela Amarelinha. Os próximos confrontos contra México e Estados Unidos definirão se o fenômeno de Brasília confirmará as expectativas criadas em sua estreia europeia.