Travou. A negociação pela venda de 90% da SAF do Vasco avança, mas esbarrou num ponto que divide as partes: o clube exige que 100% da receita obtida com transferências de atletas seja obrigatoriamente reinvestida no futebol, e Marcos Lamacchia — filho do empresário José Roberto Lamacchia e enteado da presidente do Palmeiras, Leila Pereira — rejeita essa cláusula.
O que Lamacchia quer comprar e por quanto
A proposta envolve 90% das ações da Vasco SAF. O valor global da negociação supera R$ 2 bilhões, patamar revelado pelo ge.globo em março de 2026. O investidor argumenta que, se as receitas extraordinárias de vendas de jogadores forem inteiramente carimbadas para recompra de elenco, o montante total oferecido pelo negócio será reduzido — ou seja, a cláusula de reinvestimento tem impacto direto no valuation final.
O presidente do Vasco, Pedrinho, se reuniu com Lamacchia na última terça-feira. As partes descrevem os pontos abertos como poucos, mas relevantes. Já há consenso sobre compromissos mínimos de investimento em transferências, folha salarial e infraestrutura. O próximo passo formal é a assinatura do memorando de entendimento (MoU), com expectativa de conclusão ainda em maio, sem prazo oficial.
O nó do Artigo 86 e a relação com Leila Pereira
O vínculo familiar de Lamacchia com Leila Pereira acende um alerta regulatório. O Artigo 86 do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF) proíbe que uma mesma pessoa exerça controle ou influência significativa em mais de um clube brasileiro. A ANRESF, agência reguladora do futebol nacional, já sinalizou que analisará a operação com rigor.
Segundo apuração do SportNavo, membros da ANRESF avaliaram positivamente a aproximação do grupo de Lamacchia antes da conclusão da venda — interpretando o movimento como disposição de resolver o conflito antes de consumar o negócio. Pela norma vigente, o clube deve comunicar qualquer alteração societária à agência em até 30 dias. A análise vai verificar se vetos ou decisões financeiras de Lamacchia no Vasco configurariam conflito de interesses com o Palmeiras.
"O presidente Pedrinho projeta finalizar a transação ainda em 2026", confirmou a CNN Brasil, com base em informação publicada originalmente pelo ge.globo e chancelada pela Itatiaia.
Um cenário diferente do acordo com a 777 Partners
A negociação atual contrasta com o acordo de 2022, quando o Vasco vendeu 70% da SAF à 777 Partners em contexto de fragilidade financeira — após rebaixamento em 2020, campanha frustrada de acesso em 2021 e empréstimo-ponte de R$ 70 milhões da própria investidora antes da formalização do contrato. Na época, 79,44% dos sócios estatutários aprovaram o acordo, que previa aporte total de R$ 700 milhões.
Agora o clube negocia com estrutura mais sólida e maior poder de barganha. A exigência de reinvestimento de 100% das vendas de jogadores é justamente um reflexo dessa posição mais firme — e representa o principal ponto de atrito com Lamacchia, que quer liberdade para alocar os recursos conforme a estratégia do grupo.

A assinatura do MoU, se concluída em maio, abre caminho para a due diligence formal e a análise definitiva da ANRESF. Quem acompanha o caso de perto deve marcar na agenda a reunião da agência reguladora prevista para as próximas semanas — é nela que o destino do Artigo 86 para esta operação começa a ser definido.









