A arena ainda estava iluminada quando o animal pisou pela segunda vez no mesmo ponto. O peão já estava no chão, imóvel, enquanto outros competidores tentavam afastar o touro com movimentos de distração. Só na sequência as câmeras mostraram o rosto: era José Thaysson, 20 anos, representando o Pará na Expo Ubiratã, em Nova Ubiratã (MT), na noite do dia 5 de maio. A pisada fatal foi na cabeça. Ele foi atendido pela equipe médica do evento e encaminhado à UPA municipal, mas não resistiu. A Polícia Civil do Mato Grosso registrou o caso como acidente de trabalho e confirmou que o atleta usava todos os equipamentos de proteção exigidos.

Três dias antes, em Alvorada do Oeste (RO), a sequência foi quase idêntica. Ranner Luan, 25 anos, participava da 31ª edição da Expoalvo quando caiu do animal e foi golpeado repetidamente pelo touro. Socorrido no local, foi transferido ao Hospital de Urgência e Emergência Regional de Cacoal (Heuro), a aproximadamente 80 km do município, e morreu em decorrência dos ferimentos. As imagens que circularam nas redes sociais mostram o atleta sendo atingido mais de uma vez antes que a equipe de apoio conseguisse intervir.

O que os dois acidentes têm em comum além da fatalidade

A coincidência de variáveis entre os dois casos é o ponto de partida para qualquer análise séria. Ambos os peões portavam equipamentos homologados — colete de proteção, luva de montaria e, presumivelmente, protetor de cabeça, embora a especificação do modelo utilizado por Ranner Luan não tenha sido divulgada pela organização da Expoalvo. Em ambos os eventos havia equipe médica presente na arena. Em ambos os casos, a lesão determinante foi craniana, provocada por impacto direto do casco do animal após a queda.

Esse padrão aponta para uma zona de conflito estrutural no protocolo de segurança dos rodeios brasileiros: os equipamentos atuais foram desenvolvidos para absorver impacto lateral e de queda, não para suportar a força de um bovino de competição — animais que frequentemente ultrapassam 700 kg — pisoteando uma região específica do corpo. Um colete de alta densidade distribui energia cinética no tronco. Um capacete de montaria, na maioria dos modelos disponíveis no mercado nacional, não é certificado para o nível de impacto gerado por um casco bovino em movimento descendente com esse peso.

"O Dream Team perdeu mais que um competidor, perdeu um amigo, um irmão de arena. Que ele descanse em paz nos braços do Senhor, e que Deus conforte o coração de todos os familiares, amigos e companheiros de estrada", escreveu a Arena Dream Team em nota publicada nas redes sociais após a morte de José Thaysson.

A organização da Expoalvo, por sua vez, publicou nota lamentando a perda de Ranner Luan.

"Neste momento de dor, nos solidarizamos com familiares, amigos e toda a comunidade, pedindo a Deus que conforte o coração de todos", dizia o comunicado divulgado no Instagram do evento.
Nenhuma das duas organizações detalhou publicamente os protocolos médicos acionados nem o tempo de resposta entre a queda e o primeiro atendimento.

Os limites técnicos dos equipamentos de proteção em rodeios

No vôlei de praia, trabalhamos com zonas de risco mapeadas: sabe-se onde o bloqueio duplo vai pressionar, onde o pipe vai cair, onde o saque viagem vai explorar o espaço. O rodeio não tem essa previsibilidade — o vetor de força muda a cada segundo conforme o comportamento do animal. Essa imprevisibilidade é exatamente o que torna a padronização de equipamentos tão complexa e, ao mesmo tempo, tão urgente.

No Brasil, a regulamentação de equipamentos para peões de rodeio é estabelecida principalmente pela Associação Brasileira de Rodeios (ABRO) e pela Confederação Nacional de Rodeio (CNAR), mas não existe uma norma técnica da ABNT específica para proteção craniana em montaria. Os capacetes utilizados seguem, em geral, parâmetros adaptados de outros esportes. Para efeito de comparação, o bull riding norte-americano, regulamentado pela Professional Bull Riders (PBR), exige desde 2021 o uso obrigatório de capacete com certificação ASTM F1163, desenvolvido especificamente para equitação de alto impacto, com resistência testada para quedas de até 2,5 metros em superfície rígida.

Outro ponto crítico é a presença e qualificação da equipe médica. Eventos de grande porte como Barretos e Jaguariúna mantêm estrutura hospitalar dentro do recinto, com UTI móvel e médico ortopedista de plantão. Eventos de médio porte — categoria em que se enquadram tanto a Expo Ubiratã quanto a Expoalvo — frequentemente operam com uma ambulância e um técnico de enfermagem, configuração que pode ser insuficiente para politraumatismo grave com comprometimento neurológico.

O que precisa mudar nos rodeios para além do luto

A morte de dois peões em três dias, em estados diferentes, com equipamentos regulamentares, evidencia que o problema não é de fiscalização pontual, mas de arquitetura regulatória. Há três eixos de intervenção imediata que especialistas em medicina esportiva e segurança em eventos têm apontado de forma recorrente.

  • Certificação de capacetes por norma específica — adoção de padrão equivalente ao ASTM F1163 ou criação de norma ABNT própria para montaria em bovinos, com testes de impacto vertical.
  • Escalonamento obrigatório da estrutura médica por porte do evento — eventos com mais de 500 espectadores ou com competição de montaria em touros deveriam exigir, no mínimo, médico plantonista e desfibrilador externo automático (DEA) na borda da arena.
  • Tempo máximo de resposta regulamentado — a PBR exige que a equipe médica esteja a menos de 30 segundos de distância do centro da arena durante qualquer montaria. No Brasil, não há equivalente normativo.

A discussão sobre a pertinência ética do rodeio como espetáculo é legítima e permanente. Mas ela não substitui — e não pode atrasar — a regulamentação técnica de segurança para os atletas que já estão competindo hoje. José Thaysson completaria 21 anos no dia 6 de maio, um dia depois de morrer. Ranner Luan tinha 25 anos e foi descrito pelo narrador da Expoalvo como alguém que partiu "fazendo aquilo que ama". Ambos morreram dentro das regras vigentes — esse é o dado que o setor não pode ignorar.

O Ministério do Esporte não se pronunciou publicamente sobre os dois casos até o fechamento desta reportagem. A CNAR também não respondeu a pedidos de posicionamento feitos por veículos de imprensa na semana dos acidentes. A ausência de nota oficial é, ela mesma, um dado — a regulamentação existe no papel, mas o debate sobre sua adequação ainda não chegou às instâncias que têm poder de alterá-la.