Confesso: eu errei sobre o Napoli de Antonio Conte no começo desta temporada. Quando o treinador foi anunciado em junho de 2025, escrevi que o projeto levaria pelo menos dois anos para chegar ao nível de brigar pelo Scudetto — achei que o elenco tinha lacunas demais, que a saída de Osimhen tinha deixado um buraco irreparável no ataque. Pois bem: 37 rodadas depois, o Napoli está em 2º lugar com 73 pontos, tem o melhor ataque e a melhor defesa da Serie A, e chega à última rodada com chance real de título. Eu precisava escrever isso.

O que aconteceu em Pisa neste domingo

No Arena Garibaldi, neste domingo (17), o Napoli foi absolutamente dominante. Com formação em 3-4-2-1, Conte escalou um time que controlou a partida desde o primeiro minuto: 72,6% de posse de bola, 376 passes completados contra apenas 142 do Pisa, e uma precisão de passe de 91,5% — enquanto o Pisa mal chegou a 72%.

Os gols saíram no primeiro tempo. Aos 21 minutos, Scott McTominay abriu o placar com assistência de Rasmus Højlund. Seis minutos depois, Amir Rrahmani ampliou com assistência de Eljif Elmas. O Pisa, lanterna com apenas 18 pontos e candidato ao rebaixamento, não tinha como responder: só 2 finalizações no total, 1 no alvo, contra 8 finalizações e 4 no alvo do Napoli.

O dado que mais me chamou atenção foi o de toques na área adversária: Napoli 20, Pisa 6. Isso não é só dominância de bola — é pressão territorial constante, característica central do modelo de Conte.

As métricas que explicam a temporada do Napoli

Para entender por que essa campanha é tão impressionante, precisamos olhar além dos pontos na tabela. Três métricas contam a história completa:

  • xG (Expected Goals): O Napoli acumula média de 1,61 de xG por jogo em casa nesta temporada — acima da média da liga. Contra o Pisa hoje, gerou 0,69 xG, mais que o dobro do adversário (0,38). xG mede a qualidade das chances criadas: um time que gera xG alto de forma consistente não está dependendo de sorte.
  • xG Against: A defesa napolitana concede apenas 1,12 de xG por jogo — o melhor da competição. Isso significa que Conte não só montou um ataque eficiente, mas blindou o time defensivamente. Buongiorno, Rrahmani e Beukema formam uma linha de três que raramente permite finalizações de qualidade.
  • Progressive Passes: Com 105 passes em direção ao campo adversário hoje (contra 63 do Pisa), o Napoli demonstra o padrão que mantém ao longo da temporada: progressão de bola organizada, não chutões. São passes que avançam o jogo pelo menos 10 metros em direção ao gol. Isso é construção de jogo intencional, não aleatória.

McTominay, que chegou do Manchester United na janela do ano passado, é o motor desse sistema. O escocês combina recuperação de bola com progressive passes no meio — uma raridade no futebol italiano, onde volantes costumam ser mais conservadores. Lobotka, ao lado dele, dita o ritmo com passes curtos e triangulações que criam superioridade numérica no terço médio.

O que Conte transformou neste elenco

A grande virada tática de Conte foi adotar o 3-4-3 (que às vezes funciona como 3-4-2-1 dependendo da fase ofensiva) e dar liberdade aos alas para subirem como laterais de fato. Di Lorenzo à direita e Spinazzola à esquerda criam largura, enquanto os três da frente — Elmas, Alisson Santos e Højlund hoje — pressionam a saída de bola adversária.

O conceito de PPDA (Passes Permitidos por Ação Defensiva) é útil aqui: quanto menor o PPDA de um time, mais intenso é seu pressing. O Napoli desta temporada tem um dos menores PPDAs da Serie A, o que explica por que adversários como o Pisa mal conseguiram criar jogadas — foram sufocados antes de chegar ao terço final.

Rasmus Højlund, emprestado pelo Manchester United, foi uma das apostas mais arriscadas de Conte. O dinamarquês não é o centroavante tradicional que o torcedor napolitano esperava depois de Osimhen, mas seu movimento sem bola e a capacidade de criar espaço para Elmas e Alisson Santos funcionaram melhor do que qualquer análise prévia sugeria — inclusive a minha.

Como o próprio Conte costuma dizer em entrevistas ao longo da temporada, a mentalidade coletiva foi o ponto de partida:

"Quando cheguei, precisava que cada jogador entendesse que o grupo vem antes do indivíduo. Não existe estrela aqui — existe sistema."

E o sistema funciona. 54 gols marcados, melhor ataque. Defesa mais sólida da liga. Dois números que raramente aparecem juntos no mesmo time.

O que precisa acontecer na última rodada

A matemática é direta: o Napoli tem 73 pontos e está a 2 pontos do líder. Na última rodada, precisa vencer e torcer para que o líder tropece. Não é uma missão impossível — a tabela mostra que o Napoli venceu 9 dos seus jogos fora de casa nesta temporada, com aproveitamento de 67% em casa.

O retrospecto recente tem altos e baixos: a derrota para o Bologna por 3 a 2 e o empate com o Como em 0 a 0 nas últimas semanas mostraram que o Napoli não é invulnerável. Mas a vitória por 4 a 0 sobre o Cremonese antes desses resultados demonstra que o time sabe ligar o modo decisivo quando precisa.

O que o Napoli precisa fazer para ser campeão está claro nos dados desta temporada toda: manter a posse acima de 60%, pressionar alto para forçar erros do adversário, e dar espaço para McTominay e Lobotka ditarem o ritmo. Quando isso acontece, o time não perde.

Na última rodada da Serie A 2025/26, marcada para o próximo domingo (24 de maio), saberemos se essa campanha histórica de Conte termina com o Scudetto ou com a dor de quase ter chegado lá. Em 24 de maio saberemos.