Uma chaleira esquecida no fogo. Parece inofensiva até o momento em que ferve e explode. O entorno do Maracanã em dia de Fla-Vasco é exatamente isso — uma tensão acumulada que as autoridades insistem em ignorar até que alguém morra.

Fabiano Miranda Lopes, 42 anos, torcedor do Vasco da Gama, morreu na madrugada desta sexta-feira, 8 de maio de 2026. Ele havia sido agredido no domingo, 3 de maio, na saída do clássico contra o Flamengo, válido pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro. Cinco dias entre a vida e a morte, internado em estado grave, antes que o coração cedesse. A Polícia Civil do Rio de Janeiro confirmou o óbito e segue investigando os responsáveis pelas agressões.

O que as imagens mostram que os policiais não viram

Moradores da região registraram as cenas. Nos vídeos que circularam nas redes sociais, dois homens aparecem caídos no chão. Em um dos registros, Fabiano recebe chutes e pontapés repetidos, já sem condições de se defender. Em outro trecho, é possível ver o momento em que um objeto pessoal da vítima é levado pelos agressores — um detalhe que transforma o caso em latrocínio, aguardando confirmação formal da investigação.

A Rua São Francisco Xavier, próxima a uma das entradas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, foi um dos pontos de confronto entre torcedores das duas equipes naquele domingo. Testemunhos colhidos pela reportagem descrevem o cenário como uma "praça de guerra": correria na rampa de acesso à estação de metrô Maracanã, uso de gás de pimenta pela Polícia Militar para conter tumultos, famílias com crianças e idosos presas no meio do caos.

O gás de pimenta, registre-se, atingiu pessoas que não tinham qualquer envolvimento nas brigas. Uma senhora que simplesmente passava pela rua foi surpreendida no meio da confusão, como mostrou um vídeo obtido pela imprensa. Fabiano Miranda, contudo, não teve nem essa saída — foi ao chão e não conseguiu se levantar sozinho.

Um padrão que se repete há décadas nos clássicos cariocas

Quem acompanha o futebol carioca há mais de vinte anos sabe que esta não é uma história nova.

O histório de violência nos arredores do Maracanã em dias de clássico remonta ao menos aos anos 1990, quando as torcidas organizadas do Rio consolidaram disputas territoriais que extrapolavam os limites do estádio. Em 2013, o torcedor do Flamengo Douglas Henrique de Oliveira morreu após confrontos na saída de um jogo no mesmo Maracanã. Em 2014, o governo estadual prometeu um plano integrado de segurança para os clássicos. Em 2018, novas promessas. O ciclo é conhecido demais para ser coincidência — é estrutural.

A apuração do SportNavo mostra que, desde a reinauguração do Maracanã reformado, em 2013, ao menos quatro mortes foram registradas em contexto de violência associada a partidas de futebol no entorno do estádio ou nas vias de acesso. O número é conservador, pois considera apenas casos com nexo causal diretamente investigado pelas autoridades.

O Fla-Vasco de 3 de maio terminou empatado. O placar dentro de campo não importa para esta história. O que importa é que, enquanto o árbitro apitava o fim do jogo, Fabiano Miranda já estava sendo espancado a poucos metros do portão de saída.

O Maracanã tem câmeras — e o Estado precisa de respostas

O Estádio do Maracanã possui sistema de monitoramento por câmeras de segurança em seu interior e nas imediações, parte do aparato exigido pelas normas da CBF e da FIFA para estádios de grande capacidade. A questão que os investigadores precisam responder é direta: se as imagens registradas por moradores comuns mostram homens sendo espancados na calçada, o que mostram as câmeras oficiais?

A Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro não havia se pronunciado formalmente sobre o caso até o fechamento desta edição. A Polícia Civil, responsável pela investigação, informou apenas que trabalha para identificar os agressores com base nos vídeos disponíveis.

O modelo de policiamento em grandes eventos no Rio segue um protocolo que concentra efetivo dentro e imediatamente ao redor do estádio, mas que historicamente deixa lacunas nas vias adjacentes — exatamente onde ocorrem os confrontos mais graves. A Rua São Francisco Xavier e a rampa do metrô Maracanã são pontos de convergência previsíveis em qualquer clássico. Tratá-los como surpresa, a esta altura, é uma escolha, não um acidente.

Nos últimos três anos, ao menos dois projetos de lei tramitaram na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro propondo a criação de uma zona de exclusão para torcidas organizadas rivais no entorno do Maracanã em dias de clássico, com distância mínima de 500 metros entre as saídas designadas para cada torcida. Nenhum dos projetos foi votado.

Fabiano Miranda tinha 42 anos, foi a um jogo de futebol no domingo e não voltou para casa. A Polícia Civil do Rio de Janeiro tem até 30 dias para concluir o inquérito e indiciar os responsáveis — prazo que, dada a existência de imagens, pode ser cumprido muito antes.

Um torcedor morreu. O Maracanã tem as imagens. O Estado tem o dever de nomear os culpados.