A IFAB aprovou por unanimidade, em reunião especial realizada em Vancouver, no Canadá, nesta terça-feira, duas alterações emergenciais no regulamento do futebol: cartão vermelho imediato para jogadores que cobrirem a boca em confrontos com adversários e expulsão para atletas que abandonarem o campo em protesto contra decisões arbitrais. As mudanças entram em vigor com comunicação oficial às 48 seleções participantes da Copa do Mundo de 2026.

O caso que mudou o regulamento

O gatilho foi o episódio protagonizado pelo argentino Nicolás Prestianni, do Benfica, na Champions League. O atacante tampou a boca com a mão ao dirigir palavras racistas a Vinícius Júnior, do Real Madrid — gesto calculado para escapar da leitura labial e da detecção pelas câmeras. A Uefa aplicou gancho de seis jogos a Prestianni, mas a ausência de uma norma específica deixou o árbitro sem poder de intervenção imediata durante a partida.

O caso escancarou uma lacuna tática no próprio regulamento: o infrator podia agir, receber punição administrativa semanas depois, e seguir em campo no momento do ato. A nova regra fecha esse intervalo.

Como a regra funciona tecnicamente

A Fifa formalizou a medida com linguagem objetiva:

"A critério da organização da competição, qualquer jogador que cobrir a boca em uma situação de confronto com um adversário poderá ser punido com cartão vermelho."

O termo "a critério da organização da competição" é relevante: a norma não é automática como um pênalti por mão na área. O árbitro precisa avaliar contexto — confronto com adversário, gesto deliberado de ocultação. Não se aplica a um jogador que tossiu ou sussurrou algo para o companheiro de equipe.

A análise do SportNavo aponta que a redação técnica da regra cria margem interpretativa intencional. Diferente de um cartão vermelho por falta violenta, que tem critérios físicos mensuráveis, aqui o árbitro lida com intenção declarada por um gesto. O desafio operacional será o treinamento dos árbitros para distinguir o gesto discriminatório do gesto casual.

O caso que mudou o regulamento Fifa aprova cartão vermelho para gestos
O caso que mudou o regulamento Fifa aprova cartão vermelho para gestos

A segunda medida e o precedente africano

A IFAB também aprovou punição para abandono de campo como forma de protesto. A regra se aplica tanto a jogadores quanto a membros da comissão técnica que incitem a saída coletiva do gramado.

"A critério da organização da competição, o árbitro poderá punir com cartão vermelho qualquer jogador que abandone o campo em protesto contra uma decisão do árbitro. Esta nova regra também se aplicará a qualquer membro da comissão técnica que incite os jogadores a abandonar o campo", informou a Fifa.

O precedente que motivou essa segunda medida foi a final da Copa Africana das Nações, quando o Senegal deixou o gramado após não aceitar uma penalidade marcada contra Marrocos. A seleção senegalesa retornou ao campo, venceu na prorrogação, mas o incidente evidenciou a ausência de protocolo punitivo claro. A Fifa estabeleceu que uma equipe que cause abandono definitivo da partida perderá o jogo por WO.

Impacto direto na Copa do Mundo

As novas diretrizes serão comunicadas formalmente às 48 seleções classificadas para a Copa do Mundo de 2026, no Canadá, Estados Unidos e México. O timing é relevante: a Fifa tem cerca de oito semanas antes do início da competição para treinar os árbitros designados e uniformizar a interpretação das novas normas entre as confederações.

Conforme levantamento do SportNavo, torneios com alto volume de jogadores de diferentes culturas e idiomas — exatamente o perfil de uma Copa do Mundo com 48 seleções — são os ambientes de maior risco para atos discriminatórios encobertos. A Copa de 2026 será a primeira da história no novo formato expandido, com 104 partidas no total, o que amplifica o campo de aplicação dessas regras.

A comunicação oficial da Fifa às seleções participantes está prevista para as próximas semanas, com a estreia do torneio agendada para junho de 2026 em território norte-americano.