A última vez que o Uruguai levou quatro jogadores oriundos do futebol brasileiro para uma Copa do Mundo foi em 1986 — ano em que Diego Maradona destruía rivais no México e Rubén Paz, então no Internacional, marcava sua presença na lista do técnico Omar Borrás ao lado de Rodolfo Rodríguez, do Santos, Darío Pereyra, do São Paulo, e Víctor Diogo, do Palmeiras. Quarenta anos depois, Marcelo Bielsa não apenas igualou essa marca: a pulverizou. A convocação uruguaia para a Copa do Mundo de 2026, divulgada neste domingo (31), traz sete jogadores que atuam em clubes do Brasil, um recorde absoluto na história da Celeste e, segundo levantamento publicado pelo SportNavo, uma marca que só o próprio Brasil havia atingido anteriormente entre todas as seleções participantes do torneio.

Flamengo lidera a delegação uruguaia que joga no Brasil

O Flamengo, isolado, é o maior fornecedor da convocação. De la Cruz, Arrascaeta e Varela — três pilares do meio e do ataque rubro-negro — estarão em campo com a camisa azul celeste. Arrascaeta é o mais experiente do grupo: 60 jogos pela seleção, 13 gols marcados, e esta será sua terceira Copa do Mundo, depois de 2018 e 2022. O Palmeiras aparece logo atrás, com dois nomes que viverão o Mundial pela primeira vez: Piquerez, lateral-esquerdo titular no Allianz Parque, e Emiliano Martínez, zagueiro que vem crescendo na equipe de Abel Ferreira. O Fluminense contribui com Canobbio, atacante que marcou um gol pela seleção, e o Rochet, goleiro do Internacional — um dos mais regulares do Brasileirão 2026 —, fecha o septeto.

O que esse recorde revela sobre o futebol brasileiro além das fronteiras

A fotografia estatística impressiona, mas a narrativa que ela carrega é mais densa. O futebol brasileiro — que por décadas foi exportador compulsório de talentos para a Europa — tornou-se, nos últimos anos, destino de uruguaios em fase de consolidação. Arrascaeta chegou ao Flamengo em 2019 por cerca de 16 milhões de euros. De la Cruz seguiu o mesmo caminho em 2023. Piquerez e Rochet já somam temporadas suficientes para serem considerados pilares nos respectivos clubes. O movimento não é casual — é estrutural. O Brasileirão oferece visibilidade continental, salários competitivos e, não menos importante, o ambiente tático que Bielsa precisa para moldar sua equipe ao longo do ano. Segundo a imprensa uruguaia, o técnico acompanha pessoalmente os jogadores nos estádios brasileiros com regularidade, algo que facilita a coesão do grupo mesmo sem janelas de convocação frequentes.

"O futebol brasileiro nos dá condições que poucos campeonatos oferecem: ritmo, intensidade e um nível técnico que prepara o jogador para qualquer desafio internacional", disse o lateral Piquerez em entrevista ao canal oficial do Palmeiras no início de 2026.

A Argélia no outro lado do mundo — e a Copa que reúne gerações

Enquanto o Uruguai anunciava seu recorde brasileiro, a Argélia também divulgou neste domingo (31) sua convocação para o Mundial — e a lista tem um nome que transcende o esporte: Luca Zidane, filho de Zinédine Zidane, goleiro de 27 anos que atua no Granada, na segunda divisão espanhola. Luca havia fraturado o queixo e a mandíbula no final de abril e corria risco de ficar fora da lista do técnico bósnio Vladimir Petkovic, mas foi confirmado entre os quatro goleiros — com o arqueiro Abdelatif Ramdane, do MC Alger, ficando como reserva em caso de corte por lesão. A convocação ainda conta com o veterano volante Nabil Bentaleb, do Lille, e com os retornos de Houssem Aouar, do Al-Ittihad, e Amine Gouiri, do Olympique de Marselha, além do lateral Ramy Bensebaini, do Borussia Dortmund. O multicampeão Riyad Mahrez, do Al-Ahli da Arábia Saudita — que conquistou o título da Premier League pelo Leicester em 2016 e pelo Manchester City em 2019, 2021, 2022 e 2023 — também está na lista. Esta será a quinta Copa da Argélia, que tem como melhor campanha as oitavas de final de 2014, no Brasil. No Mundial deste ano, os argelinos integram o Grupo J ao lado da atual campeã Argentina, da Áustria e da Jordânia, com estreia marcada para 16 de junho, às 22h (horário de Brasília), no Arrowhead Stadium, em Kansas City.

"Esta seleção tem qualidade para surpreender. A Copa do Mundo é o momento em que provamos ao mundo o que o futebol argelino construiu nos últimos anos", declarou Mahrez em entrevista coletiva após o anúncio da convocação.

O Uruguai no Grupo C e o peso de jogar com sete do Brasil

A Celeste — bicampeã mundial em 1930 e 1950, a seleção mais titulada da América do Sul ao lado da Argentina — chega à Copa de 2026 com um elenco que mistura experiência europeia e DNA brasileiro. Dos sete convocados que atuam no Brasil, ao menos cinco devem ser titulares ou opções diretas no esquema de Bielsa. Arrascaeta e De la Cruz formam a espinha dorsal criativa da equipe; Varela cobre o lado direito; Piquerez o esquerdo; e Rochet disputa a titularidade na meta. Emiliano Martínez e Canobbio entram como alternativas táticas de peso. A concentração de jogadores adaptados ao futebol sul-americano — ao contrário de atletas que passam o ano no ritmo da Premier League ou da Serie A — pode ser uma vantagem de coesão nos primeiros jogos do torneio, quando o tempo de adaptação ao calor e ao ritmo norte-americano tende a cobrar seu preço. O Uruguai estreia na fase de grupos no dia 14 de junho, e qualquer tropeço precoce colocará imediatamente em xeque o modelo de Bielsa. Sete jogadores do Brasil na lista. Zero margem para erro.