— Cara, você lembra que o Cruzeiro já bateu o Flamengo na Libertadores?
— Lembro. Foi em 2018. Dois a zero no Maracanã.
— Pois é. Acho que o pessoal esqueceu isso.

Essa conversa acontece hoje em qualquer bar de Recife a Belém, entre torcedores que acompanham o sorteio realizado nesta sexta-feira (29) em Luque, no Paraguai. O resultado colocou Flamengo e Cruzeiro frente a frente nas oitavas de final da Libertadores de 2026 — oito anos depois do único confronto entre os dois clubes na competição. E o retrospecto, por si só, já merece um exame sem romantismo.

O que aconteceu em 2018 no único duelo da Libertadores

Em 8 de agosto de 2018, o Flamengo recebeu o Cruzeiro no Maracanã pelas quartas de final da Libertadores. Resultado: 2 a 0 para o time mineiro, com gols de Arrascaeta e Thiago Neves. No jogo de volta, em 29 de agosto, o Rubro-Negro venceu por 1 a 0 no Mineirão — gol de Léo Duarte — mas não reverteu a vantagem. O Cruzeiro avançou. Era um time que naquele momento tinha Arrascaeta, Thiago Neves e Dedé como pilares de um projeto continental consolidado. O Flamengo de 2018 ainda buscava identidade técnica e sequer tinha Filipe Luís ou Gabigol no plantel.

O detalhe que poucos colocam na mesa: o Flamengo de 2018 havia terminado a fase de grupos com desempenho irregular, enquanto o Cruzeiro chegava às quartas como um dos times mais organizados do Brasil no continente naquela temporada. A diferença entre os dois elencos, naquele momento, era objetiva — não havia debate tático que a apagasse.

Duas Libertadores e uma Série B — a distância que oito anos criaram

Entre 2018 e 2026, os dois clubes trilharam caminhos opostos com uma velocidade difícil de encontrar paralelo no futebol brasileiro recente. O Flamengo ganhou a Libertadores em 2019, depois em 2022, e construiu o maior orçamento do futebol nacional — ultrapassando a barreira de R$ 1 bilhão em receita anual. O Cruzeiro, por sua vez, foi rebaixado para a Série B em 2019, permaneceu na segunda divisão em 2020 e só retornou à elite em 2022. São dois anos inteiros de Série B contra dois títulos continentais do adversário: uma comparação intercategoria que, em termos de desenvolvimento de elenco, equivale a um time acumulando experiência em mata-matas de alto nível enquanto o outro disputava clássicos mineiros sem público na segunda divisão.

A reconstrução do Cruzeiro sob a gestão de Pedro Lourenço a partir de 2022 foi real e progressiva. O clube voltou à Libertadores, montou um elenco competitivo e chegou às oitavas de 2026. Mas competitividade continental é construída com repetição de grandes jogos — e o Flamengo tem esse acúmulo de forma que o Cruzeiro ainda não atingiu nesta nova fase.

O chaveamento favorece o Flamengo de formas que vão além do campo

Por ter a melhor campanha geral da fase de grupos, o Flamengo decide os confrontos em casa até a semifinal. Isso significa que o jogo de ida acontece no Mineirão e a decisão das oitavas será no Maracanã — exatamente o inverso de 2018, quando o Cruzeiro ganhou fora e segurou em casa. Os jogos estão previstos para o intervalo entre 11 e 20 de agosto, após a pausa para a Copa do Mundo.

Em caso de classificação, o Flamengo enfrenta nas quartas o vencedor de Tolima (COL) ou Independiente Del Valle (EQU) — adversários com menor histórico recente no mata-mata continental do que os times do lado oposto do chaveamento. Na semifinal, o Rubro-Negro pode encontrar Estudiantes (ARG), Universidad Católica (CHI), Rosario Central (ARG) ou Corinthians. Uma eventual final poderia opor o Flamengo a Mirassol, LDU, Palmeiras, Cerro Porteño, Platense, Coquimbo Unido, Fluminense ou Independiente Rivadavia.

Quem argumenta que o Cruzeiro tem condições reais de surpreender apoia-se na lógica do mata-mata: dois jogos, qualquer resultado é possível. O argumento tem base histórica — o próprio Flamengo foi eliminado em 2018 por um time que não era favorito absoluto. Mas esse raciocínio ignora a assimetria estrutural entre os dois projetos em 2026. O Flamengo que entrou em campo contra o Cruzeiro em 2018 não tinha dois títulos continentais acumulados, não tinha a profundidade de elenco atual e não jogava com a vantagem de decidir em casa.

O que os elencos de 2026 dizem sobre o confronto

O Flamengo chega às oitavas com dez convocados para a Copa do Mundo — o que representa desfalques temporários — mas com tempo de preparação garantido pelo calendário. O Cruzeiro, por sua vez, classificou-se às oitavas como time que superou a fase de grupos sem ser o líder do seu grupo, o que já indica o nível de dificuldade que terá pela frente.

Conforme registrado pelo SportNavo, o sorteio desta sexta-feira também definiu que o Palmeiras enfrentará o Cerro Porteño — líder do grupo paraguaio — nas oitavas, com a decisão fora de casa. Flaco López, artilheiro do Verdão na fase de grupos com duas assistências e dois bols na trave na goleada por 4 a 1 sobre o Junior Barranquilla, foi convocado pela Argentina para a Copa do Mundo horas antes da partida. Sobre seu futuro no clube, o atacante foi direto:

"Agora só consigo pensar na seleção. Depois da Copa, vamos ver o que será melhor para o meu futuro e para o Palmeiras também. Seja aqui ou em outro lugar, desfrutar ao máximo do futebol é o que eu quero."

A convocação de Flaco López ilustra o nível de disputa que permeia essa Libertadores: times brasileiros chegam às oitavas com jogadores em preparação para um Mundial, e o peso da competição continental coexiste com o calendário mais carregado da história recente do futebol sul-americano.

O Flamengo enfrenta o Coritiba neste sábado (30), às 16h, no Maracanã, pelo Brasileirão 2026 — antes de qualquer foco nas oitavas. O jogo de ida contra o Cruzeiro, no Mineirão, está programado para a janela de 11 a 20 de agosto. A decisão, em casa, fecha o ciclo que começou com uma derrota por 2 a 0 no mesmo estádio, oito anos atrás.