Todo mundo sabe que Flávio Bolsonaro não quer Renan Santos no mesmo palco. O que pouca gente parou para calcular é o custo político dessa decisão — e o tamanho da munição que ela entregou, de bandeja, ao adversário que tentava evitar.
A narrativa que a campanha de Flávio vendeu — e o que ela esconde
A versão oficial circulou rápido: aliados do senador do PL afirmaram que a presença de Flávio nos debates televisivos dependeria do desempenho de Renan Santos nas pesquisas. "Quem não pontua, não vai", resumiu um integrante da campanha, em declaração confirmada por fontes ligadas ao senador. A lógica parecia fria e estratégica — um candidato consolidado que simplesmente ignora concorrentes menores.
Reparemos no detalhe: o primeiro debate presidencial está agendado para o início de agosto, na TV Bandeirantes, e as campanhas já negociam os critérios de participação. Vetar um adversário antes mesmo de o debate existir formalmente não é frieza estratégica — é o tipo de movimento que vira manchete e alimenta exatamente a narrativa que o vetado quer construir sobre si mesmo.
Renan Santos não esperava nada diferente — e deixou isso gravado
A reação do presidente do MBL não veio em nota de assessoria. Veio em vídeo, com nome e rosto.
"Flávio Bolsonaro vai fugir de mim nos debates. Eu recebo isso de maneira muito tranquila porque eu não esperava nada diferente dele", declarou Renan, em gravação enviada diretamente ao portal Bacci Notícias. Ele foi além: lembrou um episódio em que Flávio teria passado mal durante um debate no Rio de Janeiro e afirmou que o senador "teve diarreia" no confronto.
O ataque não parou aí. Em vídeo separado publicado nas redes sociais na quarta-feira (13), Renan foi ao escândalo do Banco Master — reportagem do The Intercept Brasil revelou conversas em que Flávio Bolsonaro cobra do ex-banqueiro Daniel Vorcaro parcelas atrasadas do patrocínio ao filme Dark Horse, produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. O contrato tinha valor total de R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões foram efetivamente pagos.
"Flávio Bolsonaro pediu para o maior bandido do Brasil R$ 134 milhões para fazer um filme. Essa é a versão dele. E tem gente na internet achando isso aceitável", disparou Renan.
A resposta do senador veio em nota: Flávio confirmou o pedido de patrocínio, mas ressaltou que não houve uso de dinheiro público e que conheceu Vorcaro apenas em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia encerrado.
O Missão vai ao Conselho de Ética e a corrida presidencial muda de ritmo
A escalada saiu do campo retórico. Segundo apuração do SportNavo, o partido Missão confirmou que entrará com pedido formal de cassação do mandato de Flávio Bolsonaro no Conselho de Ética do Senado. A legenda também anunciou representação no Ministério Público Eleitoral para investigar se Vorcaro financiou o filme com recursos desviados de fundos administrados pelo Banco Master — instituição no centro de um dos maiores escândalos financeiros do país nos últimos meses.

Renan listou ainda outras denúncias históricas contra o senador: investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro por suposto recebimento de dinheiro de funcionários do gabinete quando Flávio era deputado estadual — processo que não avançou por decisão do STF —, compra de mansão em Brasília por R$ 6 milhões e menção ao escândalo do INSS.
"Onde há escândalo de corrupção, há Flávio Bolsonaro", sintetizou o pré-candidato do Missão.
A leitura mais precisa desse embate não é a de um candidato menor tentando ganhar visibilidade às custas de um nome maior. Flávio Bolsonaro entrou em 2026 como o candidato natural da direita bolsonarista, com estrutura de partido, tempo de TV e sobrenome. Renan Santos entrou sem ficha corrida — ele próprio usou essa expressão — e sem o mesmo aparato. O veto nos debates, somado ao escândalo Vorcaro, comprimiu esse intervalo de forma acelerada. A campanha do senador tem até agosto para reverter a percepção de que fugiu do confronto. São 84 dias.









