Não foi a falta de qualidade que eliminou o Fluminense da Libertadores em 2011. Foi a falta de controle sobre o que estava fora de campo. O time de Enderson Moreira entrou na última rodada daquela edição dependendo de vitória por dois gols de diferença sobre o Argentinos Juniors, em Buenos Aires, e de um tropeço do Nacional do Uruguai — e não conseguiu nenhum dos dois. Quinze anos depois, o roteiro voltou a ser escrito com tinta muito parecida, e a diferença entre repetir o fracasso ou superá-lo pode estar em como o clube lida com aquilo que, desta vez, está ao seu alcance.
O vestiário tricolor e o peso de uma memória que não foi apagada
Nos treinos que antecederam a partida desta quarta-feira (27), a comissão técnica comandada por Luis Zubeldía trabalhou com foco específico na transição defensiva e na pressão alta sobre a saída de bola do Deportivo La Guaira. O clube venezuelano, lanterna do Grupo C com apenas dois pontos, chega ao Maracanã sem pressão classificatória — o que, paradoxalmente, torna o adversário imprevisível. Times sem nada a perder frequentemente jogam com liberdade que desequilibra favoritos.
O Fluminense acumula 5 pontos na chave e ocupa a terceira colocação. Para avançar às oitavas de final, a equipe precisa obrigatoriamente da vitória em casa. O cenário mais direto combina esse triunfo com uma derrota do Bolívar diante do Independiente Rivadavia, em Santa Cruz de la Sierra — e não em La Paz, detalhe que elimina a variável da altitude de 3.637 metros que tanto assombrou o clube nas rodadas anteriores. Há ainda uma segunda via: se os bolivianos empatarem com o Rivadavia, os três pontos do Flu também garantem a classificação. A terceira possibilidade, mais improvável, envolve um empate tricolor combinado com vitória do Rivadavia — desde que o La Guaira não vença na quinta-feira seguinte.
"A equipe está preparada para o que precisa fazer. Temos que focar no nosso jogo, não no que acontece em outro campo", afirmou Zubeldía em entrevista coletiva nos dias que antecederam a partida.
O que 2011 ensina sobre dependência de resultados externos
A campanha de 2011 é um estudo de caso sobre como times tecnicamente competentes podem ser destruídos pela aritmética de grupo. Naquele ano, o Fluminense dividiu a chave com América do México — que já havia garantido a liderança de forma antecipada —, Nacional do Uruguai e Argentinos Juniors. O segundo lugar ficou em aberto até os minutos finais, com três equipes separadas por detalhes de saldo de gols.
A missão tricolor naquela última rodada era matematicamente mais cruel do que a atual: vencer fora de casa, em Buenos Aires, por dois gols de diferença. O Fluminense não conseguiu. O Nacional avançou, e o clube carioca foi eliminado na fase de grupos — um resultado que marcou profundamente a relação da torcida com a competição continental naquele ciclo.

Há uma cena em Moneyball, o filme de 2011 sobre o Oakland Athletics, em que o personagem de Brad Pitt diz que o problema não é perder para times melhores, mas perder para situações que você mesmo criou. A analogia é precisa para o Fluminense de ambas as épocas: em 2011 e em 2026, o clube chegou à última rodada sem ter construído uma almofada de pontos que tornasse a classificação independente de terceiros.
"Em 2011 a gente sabia que dependia de outros resultados. Era uma situação desconfortável. Hoje o grupo tem que aprender com isso", disse um integrante da comissão técnica tricolor, segundo apuração do SportNavo.
A decisão tática que Zubeldía não pode errar no Maracanã
A análise dos dados desta campanha revela um Fluminense inconsistente na criação de chances. Nos cinco jogos do Grupo C, o time marcou apenas quatro gols — média de 0,8 por partida, número baixo para uma equipe que joga em casa na rodada decisiva. O aproveitamento ofensivo foi o principal gargalo identificado pela comissão técnica, e a pressão por uma vitória convincente exige que Zubeldía resolva essa equação na escalação.
A tendência, segundo informações que circulam no entorno do clube, é que o técnico opte por um meio-campo mais vertical, com pelo menos um dos meias com perfil de chegada à área. O La Guaira concedeu 11 gols em cinco partidas no grupo — a defesa mais vazada da chave —, o que representa uma oportunidade objetiva para o Fluminense resolver o confronto sem depender de um placar mínimo.
O histórico recente do Maracanã como palco de decisões continentais também pesa. Em 2023, o estádio foi o cenário da conquista da própria Libertadores pelo clube — uma referência que a torcida carrega como combustível emocional para esta quarta-feira. Mas emoção sem eficiência tática produz apenas ruído nas arquibancadas.
O jogo entre Fluminense e Deportivo La Guaira começa às 21h30 desta quarta-feira (27), com transmissão pelo Paramount+. Simultaneamente, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívar e Independiente Rivadavia entram em campo no mesmo horário — e o resultado desse confronto vai determinar se a vitória tricolor é suficiente ou se o Flu precisará aguardar o apito final na Bolívia para saber se está nas oitavas. Uma receita que já foi ao forno uma vez e saiu queimada: desta vez, o Fluminense precisa controlar a temperatura desde o primeiro minuto.









