Diz-se que a França é a seleção mais bem estruturada desta Copa do Mundo — profunda, experiente, capaz de funcionar no piloto automático. Na sexta-feira (26), no Gillette Stadium em Foxborough, Boston, essa premissa vai ser testada da forma mais dura possível. Não por um adversário difícil. Mas porque o homem que construiu esse sistema nos últimos 14 anos não estará lá.

A mãe de Didier Deschamps morreu na manhã de terça-feira (23). Ele soube da notícia ainda no centro de treinamento da seleção francesa, comunicou imediatamente o presidente da Federação Francesa de Futebol (FFF), Philippe Diallo, e embarcou de volta à França. O funeral acontece nesta quinta-feira (25). O jogo é amanhã.

O minuto de silêncio e o peso que ficou no campo

Logo após a partida de Deschamps na terça, jogadores e comissão técnica se reuniram no campo de treinos. Pararam. Fizeram um minuto de silêncio. Nenhum microfone captou esse momento — mas ele diz tudo sobre o que o grupo sente por um treinador que está no cargo há 14 anos, que os levou ao título em 2018 e à final em 2022.

O auxiliar Guy Stéphan, parceiro de Deschamps há 17 anos, assumiu o comando. Em coletiva de imprensa, não disfarçou a gravidade do momento:

"Primeiro, penso no Didier e sua família, tudo que está acontecendo. Nossos sentimentos. Ele está sofrendo com o que aconteceu, eu falo com ele bastante. Conversamos há alguns minutos e vai ser assim até o jogo. Amanhã é um dia especial, porque será o funeral. Eu vou garantir que esta situação, estressante, seja o mais normal possível."

Stéphan revelou ainda que o contato com Deschamps não foi cortado — as trocas de mensagens seguem constantes. Mas admitiu que na sexta-feira o canal vai silenciar. "Será um dia muito particular para ele, não haverá muitas trocas de impressões, mas temos um plano. Vou esforçar-me para ser digno da sua confiança", completou o auxiliar, conforme registrado pelo SportNavo a partir das coletivas oficiais da FFF.

Tchouaméni carrega a mensagem do vestiário

Quem falou pelos jogadores foi o volante Aurélien Tchouaméni, do Real Madrid. Primeiro, as condolências formais. Depois, a missão:

"Quando nosso treinador saiu, ele deixou uma missão à comissão e aos jogadores. A gente sabe que Guy vai seguir a linha que nosso treinador pediu. Eles estão em contato sempre, e nós vamos tentar manter nossos princípios. O relacionamento com o Guy é ótimo. É um cara aberto, gosta de brincar, estamos felizes com ele e vamos fazer de tudo para vencer este jogo."

A frase mais carregada, porém, veio depois: "Sabemos que a situação não é normal. Ele deu-nos uma missão. O nosso objetivo é deixá-lo orgulhoso." Não é retórica de vestiário. É o único combustível que faz sentido neste contexto.

A Copa do Mundo 2026 será a última competição de Deschamps à frente dos Bleus. Após o torneio sediado no México, Canadá e Estados Unidos, ele deixa o comando — mas não se aposenta do futebol. O que torna este jogo ainda mais simbólico: é o último capítulo da fase de grupos da última Copa dele, e ele vai assistir de longe.

A liderança do Grupo I e as mudanças na escalação

A França chega ao confronto com seis pontos, mesma pontuação da Noruega, mas na frente pelo saldo de gols — 5 a 4. Um empate já garante a liderança do Grupo I. Stéphan foi claro: não há plano de poupar o time inteiro. A posição de primeiro lugar tem valor real no mata-mata.

O minuto de silêncio e o peso que ficou no campo França joga sem Deschamps e car
O minuto de silêncio e o peso que ficou no campo França joga sem Deschamps e car

A única mudança confirmada no time é a saída de William Saliba, que lida com um problema nas costas há meses. Seu substituto será Lacroix na defesa. Marcus Thuram, que sente um incômodo na panturrilha, é monitorado, mas não há confirmação de que será poupado.

A partida acontece no Gillette Stadium, em Foxborough, às 16h (horário de Brasília). A Noruega também já está classificada para as oitavas — o que torna o duelo uma decisão direta de liderança entre dois times sem nada a perder, exceto a posição no chaveamento.

Stéphan tem 17 anos de bastidores com Deschamps. Conhece cada detalhe do sistema, cada variação tática, cada conversa de vestiário que o treinador teria neste momento. A França não vai a campo sem preparação. Vai a campo sem o homem. E isso, no futebol de alto nível, pesa de formas que nenhuma estatística consegue medir — especialmente quando o luto é real, está no ar do hotel, e os jogadores sabem exatamente o que o técnico está vivendo a milhares de quilômetros dali.

Se a França vencer ou empatar nesta sexta, avança em primeiro e provavelmente enfrenta um adversário mais fraco nas oitavas. Se perder, cai para o segundo lugar e o caminho fica mais íngreme. O jogo começa às 16h de Brasília — e a pergunta que fica é: quando Deschamps voltar ao banco nas oitavas, essa seleção terá provado que funciona sem ele, ou terá mostrado que precisa dele mais do que imagina?