Se a Copa do Mundo começasse esta semana, Gana entraria em campo contra a Inglaterra sem dois de seus zagueiros mais experientes e com um histórico recente de cinco derrotas consecutivas em amistosos. O empate por 1 a 1 contra o País de Gales, nesta terça-feira (2) no Cardiff City Stadium, não resolveu essa equação — e, de certa forma, a tornou mais complexa.

O resultado em Cardiff, contudo, não é o pior indicador disponível. A forma como ele aconteceu é. Gana abriu o placar aos 20 minutos do segundo tempo, quando Yirenkyi aproveitou rebote de Darlow após jogada de Senaya pela direita, e controlou o jogo até os 48 minutos. Foi então que Neco Williams cruzou pela direita e Koumas, completamente livre na área, cabeceou no canto para igualar. Um gol de acréscimo que condensa, em um único lance, a vulnerabilidade que os Black Stars precisam corrigir antes de 17 de junho.

O eco de 2010 e a distância entre memória e realidade

A última vez que Gana chegou a uma Copa com tamanha pressão por desempenho defensivo, o desfecho foi histórico — mas por razões que ninguém celebra.

Em 2010, na África do Sul, os Black Stars alcançaram as quartas de final numa campanha que misturou brilho coletivo e drama: a eliminação veio nos pênaltis contra o Uruguai, após a polêmica defesa de mão de Suárez na linha. Aquela seleção, treinada por Milovan Rajevac, tinha uma espinha dorsal defensiva coesa — John Mensah, Jonathan Mensah e um meio-campo de proteção eficiente. Quase 16 anos depois, o cenário é estruturalmente diferente. O zagueiro Alexander Djiku, titular absoluto, se lesionou durante treino no fim de semana e foi cortado da lista definitiva, substituído pelo defensor nascido na Holanda Derrick Luckassen. Mohammed Salisu, do Monaco, rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho em janeiro, durante partida da Ligue 1. São dois pilares da defesa fora do torneio antes de ele começar.

O técnico Carlos Queiroz, português de vasta experiência em Copas — dirigiu Irã em 2014 e 2018, além de passagens pela seleção portuguesa —, confirmou a ausência de Djiku em coletiva antes do amistoso, mas preferiu não divulgar a lista dos 26 convocados naquele momento. A convocação foi adiada para esta terça-feira (2), tornando Gana uma das últimas seleções a formalizar o elenco antes do prazo da Fifa, encerrado ontem (1º). A gestão da comunicação, nesse contexto, reflete o nível de instabilidade que o staff técnico tenta administrar.

Djiku fora, Kudus fora — quanto custa perder lideranças simultâneas

Perder um titular defensivo é um revés gerenciável; perder o principal criador ofensivo ao mesmo tempo transforma o problema em crise sistêmica.

Mohammed Kudus, meia do Tottenham Hotspur, sofreu lesão no músculo quadríceps em janeiro e passou por cirurgia. Sua recuperação para o início do Mundial já era considerada improvável pelas próprias autoridades ganesas. Kudus era o jogador com maior capacidade de desequilíbrio individual no elenco — sua ausência redistribui responsabilidades criativas para Antoine Semenyo, Jordan Ayew e Ernest Nuamah, trio que até mostrou movimentação interessante contra os galeses, mas que não replica o mesmo volume de criação. A pergunta que qualquer analista de desempenho faria aqui é direta: como uma seleção que perdeu cinco amistosos consecutivos, incluindo derrota por 2 a 0 para o México em 22 de maio, responde a um Grupo L com Inglaterra e Croácia quando seus dois jogadores mais determinantes estão fora?

A resposta parcial que o amistoso ofereceu é que o coletivo funciona em blocos, mas não sustenta pressão prolongada. No primeiro tempo em Cardiff, o País de Gales — que nem sequer se classificou para a Copa, tendo sido eliminado nas eliminatórias europeias nos pênaltis para a Bósnia — dominou territorialmente e acertou a trave por duas vezes com Daniel James. Gana só cresceu após erro na saída do goleiro Darlow, quando Jordan Ayew finalizou em cima do arqueiro. A melhora no segundo tempo foi real, mas o gol sofrido aos 48 minutos revelou que a organização defensiva ainda tem brechas graves em situações de cruzamento.

Queiroz e o retorno de Baba Rahman como sinal de pragmatismo

Convocar um lateral que ficou três anos fora da seleção não é nostalgia — é uma declaração sobre o estado atual do plantel.

A convocação do lateral-esquerdo Baba Abdul Rahman, de 31 anos, após três anos afastado da seleção, é um dado revelador sobre as opções de Queiroz. Ex-Chelsea, Rahman esteve no elenco da Copa do Mundo de 2022 no Catar, mas disputou apenas mais uma partida internacional desde então. Sua volta indica que o treinador não encontrou alternativas mais competitivas na posição — ou que priorizou experiência em detrimento de juventude num momento em que o elenco já convive com muitas incógnitas. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, a convocação de Thomas Partey — cercado de polêmica extraesportiva — já havia sido apontada como elemento de tensão no grupo. A soma desses fatores compõe um ambiente de preparação que está longe do ideal.

Queiroz, ao confirmar o corte de Djiku sem revelar os 26 nomes, adotou uma postura de contenção informacional que pode ser lida como gestão estratégica — ou como tentativa de evitar que o volume de más notícias se acumulasse numa única coletiva. O técnico tem histórico de trabalho em ambientes de pressão, mas a janela de tempo para ajustes é mínima: Gana estreia contra o Panamá em 17 de junho, em Toronto, com apenas duas semanas para integrar substitutos e calibrar a linha defensiva.

O Grupo L e o custo real de chegar fragilizado

Panamá, Croácia e Inglaterra não são adversários que perdoam defesas mal posicionadas em acréscimos.

O Grupo L coloca Gana diante de três perfis distintos de adversário. O Panamá, na estreia, é fisicamente intenso e eficiente em bolas paradas — exatamente o tipo de situação que expôs os Black Stars contra Koumas em Cardiff. A Croácia de Modric e Gvardiol tem qualidade técnica para explorar espaços entre linhas. A Inglaterra, com profundidade de elenco e poder ofensivo consolidado, representa o maior teste. A sequência é dura, e os dados históricos não são animadores: nas quatro participações anteriores em Copas, Gana avançou da fase de grupos apenas em 2006 e 2010.

Para quem acompanha futebol africano com atenção analítica, o amistoso de Cardiff funcionou menos como preparação e mais como radiografia. Os Black Stars têm peças técnicas interessantes, uma liderança experiente em Queiroz e a motivação de uma quinta Copa do Mundo. Mas chegar ao torneio sem Djiku, Salisu e Kudus — três titulares em posições críticas — é um déficit que nenhum discurso pré-competição compensa. Vale acompanhar a lista definitiva dos 26 convocados, que deve ser publicada ainda nesta terça-feira (2), para avaliar se Queiroz encontrou soluções criativas ou simplesmente administrou a escassez disponível.