Quantas gerações de torcedores gaúchos cresceram sem saber que o Brasil já disputou uma Copa do Mundo sem nenhum representante do Rio Grande do Sul? A pergunta parece improvável hoje, quando Alisson, goleiro do Liverpool natural de Novo Hamburgo, é presença confirmada na lista que Carlo Ancelotti divulga nesta segunda-feira (18), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Mas há 64 anos, em 1962, o Chile sediou uma Copa sem um único rio-grandense vestindo a Amarelinha.
A ausência de 1962 não gerou manchetes dramáticas na época — o Brasil, afinal, foi campeão sem precisar de gaúchos. Pelé se lesionou logo na segunda partida, Garrincha carregou o time nas costas, e o país voltou para casa com a taça. O que ninguém imaginava, naquele momento, era que aquela edição seria a última sem um representante gaúcho: desde a Copa de 1966, na Inglaterra, o Rio Grande do Sul jamais ficou de fora de um Mundial.
A pergunta que o torcedor faz hoje, às vésperas da convocação, é outra: quem serão os gaúchos de 2026? A resposta, segundo apuração do SportNavo, aponta para dois nomes certos e um terceiro em disputa.
A sequência que começou em 1966 e chegou a 16 Copas seguidas
A tradição gaúcha na Seleção não surgiu de um projeto coordenado — ela é resultado de décadas de formação consistente no futebol do estado. Em 1966, na Inglaterra, o primeiro representante pós-1962 abriu uma sequência que agora chega à 16ª Copa consecutiva. O levantamento histórico mostra que, em diferentes eras, o Rio Grande do Sul sempre entregou pelo menos um atleta à Amarelinha no Mundial.
No tricampeonato de 1970, no México, o porto-alegrense Everaldo foi o representante gaúcho. Em 1982, na Espanha, Batista, também de Porto Alegre, integrou aquela geração talentosa que parou nas quartas de final diante da Itália. Já em 1986, Mauro Galvão, de Porto Alegre, e Branco, de Bagé, estiveram no grupo do México — embora Renato Portaluppi, de Guaporé, tenha aparecido no álbum de figurinhas daquela edição sem ser convocado, cortado por Telê Santana por indisciplina.
O que para o argentino é a tradição de Buenos Aires como celeiro de campeões mundiais, para o gaúcho é essa sequência ininterrupta desde 1966: uma identidade construída jogo a jogo, Copa a Copa, que atravessa gerações de jogadores formados no estado mais ao sul do Brasil.
O tetracampeonato de 1994, nos Estados Unidos, reuniu quatro gaúchos: Taffarel, de Santa Rosa; Dunga, de Ijuí; Gilmar Rinaldi, de Erechim; e Branco, de Bagé. Em 2002, Ronaldinho Gaúcho, de Porto Alegre, e Anderson Polga, de Santiago, integraram o grupo do penta. A Copa de 2022, no Catar, teve Alisson, Alex Telles (Caxias do Sul) e Raphinha (Porto Alegre) como representantes rio-grandenses.
Alisson, Raphinha e a possível estreia de Ibañez em Copas
Para 2026, a lista de Ancelotti deve incluir entre dois e três gaúchos. Alisson, 33 anos, é o nome mais consolidado: está no Liverpool desde 2018, acumula mais de 200 partidas pelo clube inglês e é titular absoluto da Seleção há oito anos. Raphinha, 29 anos, nascido em Porto Alegre e atualmente no Barcelona, também tem presença confirmada — o atacante viveu sua melhor temporada europeia em 2025/2026, com números que o colocam entre os melhores do mundo na posição.
O terceiro nome é o zagueiro Ibañez, natural de Canela, na região das Hortênsias, na Serra Gaúcha. Caso seja convocado, se tornará o primeiro atleta da região das Hortênsias a defender o Brasil em uma Copa do Mundo — um marco geográfico dentro de uma tradição já consolidada. Sua presença na lista, porém, ainda não é certa.
"A lista do Mundial 2026 terá de dois a três nomes nascidos no Rio Grande do Sul", indicam fontes ligadas à preparação da convocação, segundo o GZH.
A história recente mostra que a quantidade de gaúchos por Copa varia. Em 2018, foram quatro: Alisson, Cássio (Veranópolis), Douglas Costa (Sapucaia do Sul) e Taison (Pelotas). Em 2014, apenas Maicon, de Novo Hamburgo. A média, portanto, oscila, mas a presença nunca zerou desde 1966.
O que os números revelam sobre seis décadas de representação gaúcha
Do ponto de vista histórico, a ruptura de 1962 é o dado mais revelador desta trajetória. Naquele ano, a Seleção foi ao Chile com um grupo construído em torno de Garrincha, Didi e Vavá — nenhum deles gaúcho. O título veio, mas a ausência rio-grandense ficou registrada como exceção única em toda a história do Brasil em Copas do Mundo.
A sequência iniciada em 1966 atravessou momentos contrastantes: Copas fracassadas, como 1966 (eliminação na fase de grupos) e 1982 (queda nas quartas), e conquistas históricas, como 1970 e 1994. Em todas elas, o Rio Grande do Sul teve representação. Isso significa que, em 15 das 16 Copas entre 1966 e 2022, ao menos um gaúcho esteve em campo defendendo o Brasil — e a 16ª edição dessa sequência começa em 11 de junho de 2026, quando o torneio abre nos Estados Unidos, Canadá e México.
"Na primeira conquista da Seleção, na Copa de 1958, na Suécia, o santamariense Oreco foi o representante gaúcho", registra o levantamento histórico publicado pelo GZH — o que mostra que a tradição começou antes mesmo do intervalo de 1962.
A convocação de Ancelotti será anunciada às 17h desta segunda-feira (18). Se Ibañez for incluído, o Brasil chegará a 2026 com três gaúchos — o maior contingente desde 2018. Se apenas Alisson e Raphinha forem chamados, a sequência de 16 Copas consecutivas com representantes rio-grandenses estará garantida da mesma forma: dois nomes são suficientes para manter viva uma tradição que começou com um vazio em Santiago, em 1962, e nunca mais se repetiu.









