O fenômeno é inédito na história do futebol brasileiro: pela primeira vez em décadas de pesquisas, mais da metade dos brasileiros (54%) declara não ter interesse na próxima Copa do Mundo, segundo levantamento do Datafolha divulgado em abril. O índice supera o recorde anterior de 53% registrado antes da Copa da Rússia 2018, evidenciando uma ruptura geracional sem precedentes no país que se orgulha de ser o único pentacampeão mundial.
Jovens brasileiros rompem com tradição familiar
A Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) lidera esse movimento de afastamento da Seleção Brasileira. Entre os jovens de 16 a 24 anos, o desinteresse pela Copa 2026 atinge 62%, segundo análise detalhada dos dados demográficos da pesquisa. Para contextualizar historicamente, nas Copas de 1994 e 1998, quando o Brasil conquistou o tetra e disputou a final, o interesse juvenil ultrapassava 80% dessa faixa etária.
O contraste torna-se ainda mais evidente quando comparamos com o comportamento das gerações anteriores. Os brasileiros acima de 50 anos mantêm o interesse em 58% dos casos, demonstrando que a paixão pelo futebol permanece enraizada entre quem vivenciou as conquistas de 1970, 1994 e 2002. Já os nascidos após o pentacampeonato nunca presenciaram uma conquista mundial brasileira, crescendo em uma era de frustrações consecutivas: eliminações nas quartas em 2006 e 2010, o vexame do 7 a 1 em 2014, e as quedas precoces em 2018 e 2022.
Mulheres lideram o desengajamento esportivo
O fenômeno se intensifica entre o público feminino, onde 62% declaram desinteresse pela Copa 2026. Esse dado representa uma inversão histórica, considerando que pesquisas dos anos 1990 indicavam participação feminina crescente durante os Mundiais. Na Copa de 1994, por exemplo, 47% das mulheres acompanharam a campanha do tetra, percentual que chegou a 52% durante o pentacampeonato de 2002.
A explicação pode estar na concorrência de outras formas de entretenimento. Segundo apuração do SportNavo junto a especialistas em comportamento juvenil, a Geração Z dedica em média 4,2 horas diárias a plataformas digitais como TikTok, Instagram e YouTube, contra apenas 1,8 horas de televisão tradicional. O formato de 90 minutos de uma partida de futebol compete diretamente com conteúdos de 15 a 60 segundos que dominam o consumo dessa faixa etária.
Seleção perde credibilidade após duas décadas de fracassos
Os números refletem o desempenho decepcionante da Seleção Brasileira nas últimas duas décadas. Desde 2002, o Brasil acumula 22 anos sem conquistas mundiais, período no qual a Argentina conquistou a Copa América 2021 e a Copa do Mundo 2022. Nas Eliminatórias para 2026, a equipe de Dorival Júnior terminou apenas na quinta posição, com 45 pontos em 18 jogos - a pior colocação da história brasileira nesta fase.
O reflexo na confiança é devastador: apenas 29% dos brasileiros acreditam no hexacampeonato em 2026, o menor percentual desde que essa pergunta começou a ser feita pelo Datafolha em 1994. Na época do tetra, 67% da população confiava na conquista; antes do penta em 2002, eram 58%. A queda é sistemática: 51% em 2006, 45% em 2010, 42% em 2014, 35% em 2018 e 31% em 2022.
Competição com esportes emergentes
Paralelamente ao desinteresse pela Copa, cresce o engajamento juvenil com modalidades alternativas. O UFC registra audiência 34% maior entre brasileiros de 18 a 25 anos comparado a 2019, enquanto o Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLOL) atinge picos de 200 mil espectadores simultâneos - números que rivalizam com partidas da Seleção em amistosos.
A NBA também ganha espaço: 31% dos jovens brasileiros acompanham regularmente a liga americana, segundo pesquisa da consultoria Pluri. Esse fenômeno espelha tendências globais, onde o futebol perde hegemonia entre as novas gerações em mercados tradicionais como Inglaterra e Espanha.
A Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, México e Canadá entre junho e julho, representará o primeiro teste real dessa mudança geracional. Com início das eliminatórias em março de 2025, a Seleção de Dorival Júnior terá 18 meses para reconquistar uma geração que cresceu sem ver o Brasil campeão mundial.








