A última vez que o Cruzeiro chegou a uma fase decisiva da Libertadores com tantos jogadores pendurados simultaneamente foi na campanha de 2003, quando a Raposa conquistou o bicampeonato continental. Naquele grupo de Luxemburgo e Alex, as escolhas táticas com um olho no adversário seguinte viraram rotina — e o clube aprendeu, às custas de algumas eliminações posteriores, que esse cálculo nunca é simples. Em 2026, Artur Jorge revisita o mesmo dilema, só que com o mapa do grupo ainda mais apertado.

Três pendurados e uma liderança compartilhada com o Boca

Gerson, Matheus Pereira e Matheus Henrique carregam dois cartões amarelos cada um na Copa Libertadores desta temporada. Os dois primeiros são titulares absolutos no esquema de Artur Jorge; o terceiro costuma ser acionado no banco como opção de meio-campo. Os amarelos foram distribuídos nos jogos contra Universidad Católica e Boca Juniors, ambos disputados no Mineirão. Qualquer advertência nesta quarta-feira (6), às 23h (horário de Brasília), em Santiago, tira os três do confronto seguinte contra os argentinos — que dividem a liderança do grupo com o Cruzeiro, ambos com seis pontos.

Três pendurados e uma liderança compartilhada com o Boca Gerson, Matheus Pereira
Três pendurados e uma liderança compartilhada com o Boca Gerson, Matheus Pereira

Segundo apuração do SportNavo, o regulamento da Conmebol prevê multa de 400 dólares por cartão amarelo — cerca de R$ 2 mil na cotação atual. Nos três primeiros jogos da fase de grupos, a Raposa acumulou dez amarelos e desembolsou aproximadamente R$ 20 mil em punições, valor descontado diretamente das premiações pagas pela entidade sul-americana.

O precedente que Artur Jorge conhece bem

No futebol europeu, Artur Jorge viveu situações análogas no Braga e no PSG: poupar um jogador-chave em jogo de grupo para garantir sua presença em confronto direto pela liderança é uma decisão que pode tanto preservar um ativo como comunicar fraqueza ao adversário imediato. A Universidad Católica, que também soma seis pontos, não vai a Santiago para fazer turismo — e um tropeço do Cruzeiro reequilibra toda a chave de forma imprevisível.

O precedente que Artur Jorge conhece bem Gerson, Matheus Pereira e o peso de doi
O precedente que Artur Jorge conhece bem Gerson, Matheus Pereira e o peso de doi
"Cada jogo tem seu próprio peso. Não podemos entrar em campo pensando no seguinte", declarou Artur Jorge em entrevista coletiva antes do embarque para o Chile, sinalizando que a tendência é manter os pendurados em campo.

O que muda taticamente se os titulares ficarem fora contra o Boca

Gerson, contratado junto ao Flamengo no início de 2026 por cifras próximas a 8 milhões de euros, é o motor de construção do Cruzeiro no meio-campo. Matheus Pereira, artilheiro do clube na temporada com quatro gols em todas as competições, opera como o segundo homem mais influente na criação ofensiva. Perder os dois ao mesmo tempo contra o Boca Juniors — time que chega à rodada com o mesmo aproveitamento e maior saldo de gols — seria como tentar cruzar a Avenida Paulista no horário de pico sem enxergar o semáforo: possível, mas cheio de risco calculado.

"Temos qualidade para jogar de diferentes formas. Se precisar de alguém diferente, o grupo está preparado", afirmou Matheus Henrique, o terceiro pendurado, quando questionado sobre a possibilidade de ser poupado em Santiago.

Santiago decide mais do que parece

Se o Cruzeiro vencer a Universidad Católica e os pendurados saírem sem cartão, a Raposa pode selar a classificação às oitavas antes mesmo do confronto com o Boca Juniors, dependendo dos resultados paralelos. A última rodada da fase de grupos coloca o Cruzeiro diante do Barcelona de Guayaquil — e os amarelos só são zerados com o encerramento da etapa. O jogo desta quarta-feira, portanto, é tanto uma batalha por pontos quanto um teste de gestão de elenco que definirá com quais armas Artur Jorge chegará ao duelo que realmente assusta a torcida celeste.

O avião pousou em Santiago. Gerson e Matheus Pereira aqueceram no gramado do estádio San Carlos de Apoquindo sob um sol de outono andino. Os cartões amarelos, dobrados como bilhetes de loteria no bolso do casaco do técnico, esperavam para ser jogados fora — ou não.