"Nós fomos talvez o time mais agredido da história da Copa do Mundo." A frase saiu da boca de Amir Ghalenoei no vestiário do SoFi Stadium, em Los Angeles, na noite de segunda-feira (15). Na frente dele, sentado entre jogadores ainda suados após o empate por 2 a 2 com a Nova Zelândia, estava Gianni Infantino. O presidente da Copa do Mundo 2026 ouviu tudo em silêncio.
O que o Irã enfrenta que nenhuma outra seleção enfrentou
Não existe paralelo recente para o que a delegação iraniana vive neste torneio. Para encontrar algo remotamente parecido — uma seleção impedida de se preparar no país-sede por razões geopolíticas — é preciso voltar a 1978, quando a Argentina sediou a Copa durante a ditadura militar e países como a Holanda chegaram a cogitar boicote por pressão de grupos de direitos humanos. Mesmo assim, nenhuma equipe foi proibida de entrar no território do país-sede com antecedência. O Irã de 2026 inaugurou essa categoria.
Por causa do conflito armado com os Estados Unidos, a seleção iraniana está concentrada em Tijuana, no México — a menos de 30 quilômetros da fronteira americana, mas do outro lado dela. A autorização para cruzar para território norte-americano existe apenas na véspera dos jogos. Depois do apito final, a delegação embarca de volta ao México. Não há margem para adaptação, para reconhecimento de campo, para aclimatação gradual.
Ghalenoei foi explícito sobre o custo disso. "Precisávamos ter vindo para cá com pelo menos duas semanas, dada a distância entre o Irã e aqui, que é de dez horas e meia. Mas eles tiraram isso de nós. Eles não queriam nem que nós viéssemos para cá dois dias antes", declarou o treinador, em vídeo divulgado pela agência iraniana Tasnim. A viagem de 10h30 entre Teerã e Los Angeles — sem escala direta, na prática ainda mais longa — coloca o fuso horário como adversário invisível dentro de campo.
A noite que terminou no aeroporto de Los Angeles
O empate com a Nova Zelândia foi dramático — o Irã foi para o intervalo perdendo por 1 a 0, empatou, levou o segundo gol e arrancou o 2 a 2 nos minutos finais. Ramin Rezaeian foi um dos destaques na reação iraniana. Ghalenoei elogiou o grupo: "Nossos jogadores precisam ser elogiados, eles jogaram com o coração hoje. Este jogo foi uma união entre todas as pessoas com atitudes diferentes em relação ao Irã."
Mas a partida — descrita por jornalistas presentes no SoFi como uma das mais movimentadas da primeira rodada — foi apenas o primeiro capítulo da noite. O segundo se passou no aeroporto. Segundo a agência estatal iraniana Irna, o capitão Mahdi Taremi e o auxiliar-técnico Saeed Al-Houi foram retidos durante os procedimentos de imigração no aeroporto de Los Angeles. O atraso empurrou a chegada de toda a delegação para a madrugada em Tijuana — comprometendo o planejamento de recuperação física para o próximo jogo.
"Essa é outra injustiça que fizeram conosco. Nós precisamos nos recuperar após o jogo, mas eles nos forçaram a entrar no avião e voltar, e isso atrapalhou a recuperação por alguns dias para o nosso próximo jogo", disse Ghalenoei.
As dificuldades, conforme registrado pelo SportNavo ao longo das semanas anteriores ao torneio, já tinham começado meses antes. Integrantes da delegação enfrentaram obstáculos para obter vistos americanos — alguns chegaram a ser impedidos de viajar. A seleção também foi proibida de usar o Arizona como base de treinamento, estado onde havia planejado se instalar. Torcedores iranianos relataram cancelamento de ingressos às vésperas do torneio.
Infantino no vestiário — e o que ainda falta à FIFA fazer
A presença de Infantino no vestiário iraniano — um gesto incomum para o presidente de uma federação mundial — foi lida pela delegação como sinal de reconhecimento. O dirigente reuniu jogadores e comissão técnica, fez um discurso de solidariedade e ouviu o desabafo do técnico sem interrompê-lo. Ghalenoei aproveitou o momento para pedir uma atuação mais firme da entidade na proteção da delegação para os próximos jogos.

A questão concreta que fica no ar é operacional. O Irã tem mais partidas pela frente no Grupo D da Copa do Mundo 2026 — e o modelo de entrar no país um dia antes e sair logo após o jogo se repete. Cada viagem é uma nova exposição ao risco de retenção no aeroporto, de atraso logístico, de recuperação física comprometida. O técnico foi direto: as condições afetam o desempenho esportivo de forma mensurável, não apenas simbólica.

O próximo compromisso do Irã na Copa será contra o Eslovênia, ainda na fase de grupos. Para chegar ao jogo — onde quer que ele seja disputado nos EUA — a delegação precisará cruzar a fronteira mais uma vez, passar pela imigração americana mais uma vez, e torcer para que nenhum membro do grupo seja retido no aeroporto mais uma vez.








