"A manipulação foi total e horrível, eu me sinto como uma idiota."A frase saiu da boca de Gianinna Maradona, 36 anos, na terça-feira, 21 de abril de 2026, dentro do tribunal de San Isidro, ao norte de Buenos Aires. Do lado de fora, faixas com o rosto de Diego cobriam as grades. Dentro, o ar pesava com o peso de cinco anos de silêncio finalmente rompido.
O que aconteceu, exatamente
O depoimento de Gianinna durou uma hora e meia antes do recesso do meio-dia — e cada minuto foi uma camada nova de acusações. Ela contou que a família foi convencida pelo neurocirurgião Leopoldo Luque a aceitar uma internação domiciliar intensiva, apresentada como a melhor alternativa após a neurocirurgia que Diego havia feito. A promessa era de estrutura séria, equipada, segura. A realidade, segundo ela, foi outra.
O que detonou a audiência foi a reprodução de áudios de WhatsApp trocados entre integrantes da equipe médica. Nas mensagens, os profissionais discutiam como se proteger legalmente caso o ex-jogador viesse a morrer. Gianinna ouviu tudo sentada no banco das testemunhas.
"Jamais imaginei que eles já estavam pensando que precisavam se proteger, jogar a culpa no paciente. Me gera bastante ira ao escutar isso", disse ela, visivelmente abalada.
Diego Maradona morreu em 25 de novembro de 2020, aos 60 anos, vítima de crise cardiorrespiratória e edema pulmonar. Estava sozinho em sua cama, numa casa alugada em Tigre, região metropolitana de Buenos Aires.
Quem está envolvido
Sete profissionais de saúde estão no banco dos réus neste segundo julgamento — o primeiro foi anulado após a descoberta de que uma das juízas participava de um documentário clandestino sobre o processo. Gianinna apontou diretamente para três deles: o neurocirurgião Leopoldo Luque, a psiquiatra Agustina Cosachov e o psicólogo Carlos Ángel Díaz.
"Confiei nessas três pessoas e tudo o que fizeram foi nos manipular e deixar meu filho sem avô", declarou.
Luque já prestou depoimento três vezes desde o início do julgamento, em 14 de abril. Seu advogado Julio Rivas afirmou que ele deporá "todas as vezes que for necessário". A defesa sustenta que Maradona faleceu por causas naturais e nega qualquer plano criminoso. Os quatro réus restantes também podem ser condenados a até 25 anos de prisão, pena prevista para homicídio com dolo eventual — modalidade que pressupõe consciência de que as ações poderiam ser fatais.

Segundo apuração do SportNavo, o caso também envolve o nome do representante Matías Morla, apontado por Gianinna como parte de um círculo que teria interesses econômicos por trás das decisões médicas tomadas nas últimas semanas de vida de Diego.
Quando isso muda o jogo
O que para o torcedor argentino é uma questão de honra nacional — proteger a memória do maior jogador de sua história —, para o observador europeu funciona como um espelho de debates que o futebol do Velho Continente ainda evita: a vulnerabilidade de ídolos em fim de carreira diante de entourages que acumulam poder médico, financeiro e afetivo ao mesmo tempo. O caso Maradona expõe uma ferida que vai muito além das fronteiras de San Isidro.
Gianinna revelou que a última vez que viu o pai foi nos dias 17 e 18 de novembro de 2020, uma semana antes da morte. O psicólogo Díaz, segundo ela, pediu que Diego não recebesse visitas para não ser "sobrecarregado". Depois do óbito, a filha disse que a equipe tentou transferir a culpa para a família. "Ouvi que estavam tentando me culpar por não ter encontrado um médico", afirmou. A análise do SportNavo sobre os áudios revelados no processo indica que a estratégia de proteção mútua entre os réus estava em curso semanas antes da morte.
Por que agora
Este é o segundo processo aberto para julgar a morte de Maradona. O primeiro foi anulado em 2025 por irregularidade grave: uma das juízas participava secretamente de um documentário sobre o caso enquanto julgava. O novo julgamento, retomado em 14 de abril de 2026, prevê a oitiva de cerca de 120 testemunhas — um volume que indica que a Justiça argentina não pretende deixar nenhuma dúvida sem resposta desta vez.
O depoimento de Gianinna na última terça-feira foi um dos mais aguardados do processo. Ela não é apenas filha — é uma das principais vozes da família que acompanhou de perto as decisões médicas tomadas em novembro de 2020. Sua fala sobre o plano que "saiu do controle" ecoa o que os áudios de WhatsApp já sugeriam: havia uma narrativa paralela sendo construída pela equipe médica, longe dos olhos da família. É o mesmo cenário que a família de Freddie Steinmark viveu nos bastidores do futebol americano nos anos 1970 — só que agora a aposta é a cadeia, e os réus têm nome, rosto e advogado sentado ao lado.








