Quando Gilbert Burns pisou no octógono pela primeira vez como desafiante ao título dos meio-médios em fevereiro de 2021, poucos imaginavam que três anos depois o brasileiro de 39 anos estaria lutando não por um cinturão, mas pela própria sobrevivência no UFC. A sequência de quatro derrotas consecutivas que Burns carrega para o UFC Winnipeg contra Mike Malott representa mais do que números - é o reflexo de um declínio físico que começou a se manifestar justamente quando sua experiência técnica atingiu o ápice.
O corpo que não acompanha mais a mente
A trajetória descendente de Burns no ranking dos meio-médios começou após a derrota para Kamaru Usman em março de 2021, quando ainda ocupava a terceira posição. Desde então, perdeu para Stephen Thompson, Khamzat Chimaev, Belal Muhammad e Jorge Masvidal, despencando da elite para a 11ª colocação. O padrão das derrotas revela um problema físico evidente: Burns tem perdido consistentemente os rounds finais, especialmente quando a luta se estende além dos 10 minutos iniciais.
Contra Chimaev, em abril de 2022, Burns dominou o primeiro round com sua explosão característica, mas foi dominado nos dois rounds seguintes. A mesma situação se repetiu contra Muhammad em maio de 2023, quando o brasileiro começou forte mas foi superado fisicamente nos momentos decisivos. Segundo apuração do SportNavo, Burns teve uma taxa de acerto de striking de apenas 31% nos terceiros rounds de suas últimas quatro lutas, comparado aos 47% que mantinha nos primeiros rounds.
Wrestling explosivo perde efetividade
O estilo de luta baseado em wrestling explosivo e trocação intensa que levou Burns ao topo da divisão se tornou seu maior inimigo aos 39 anos. Dr. Marcus Vinícius, especialista em medicina esportiva que trabalha com lutadores de MMA há 15 anos, explica que fighters que dependem de explosão muscular são os primeiros a sentir os efeitos do envelhecimento. A capacidade de recuperação entre rounds diminui significativamente após os 35 anos, especialmente em atletas que praticam esportes de contato há mais de duas décadas.
Os números de takedowns de Burns confirmam a teoria médica. Nas vitórias sobre Tyron Woodley e Demian Maia, entre 2020 e 2021, o brasileiro conseguiu 4.2 quedas por luta em média. Nas quatro derrotas subsequentes, essa média caiu para 1.8 tentativas por combate, com apenas 23% de efetividade. A explosão necessária para levar adversários ao chão simplesmente não existe mais com a mesma intensidade.
Comparação com veteranos que se reinventaram
A situação de Burns não é única no MMA. Glover Teixeira conquistou o título dos meio-pesados aos 42 anos após reinventar completamente seu estilo de luta, abandonando a dependência de explosão física em favor de um jogo mais cerebral e técnico. Anderson Silva, por sua vez, prolongou a carreira até os 46 anos adaptando-se a um ritmo mais controlado e aproveitando a experiência para antecipar movimentos dos adversários.
"O segredo não é lutar contra o tempo, mas trabalhar com ele. Burns precisa aceitar que não pode mais explodir por 15 minutos como fazia aos 30 anos"
O comentário do ex-campeão dos pesos-médios do UFC, Michael Bisping, durante transmissão da ESPN em março de 2024, resume o dilema que Burns enfrenta. A questão não é se o brasileiro ainda tem habilidade técnica - demonstrou isso em diversos momentos das lutas recentes - mas se consegue adaptar seu estilo para maximizar suas qualidades dentro das novas limitações físicas.
O teste definitivo em Winnipeg
Mike Malott chega ao confronto em Winnipeg com nove vitórias nos últimos dez combates, aproveitando o apoio da torcida canadense em casa. Para Burns, enfrentar um lutador em ascensão na casa dele representa o cenário perfeito para testar se ainda existe combustível no tanque. Conforme levantamento do SportNavo, lutadores com 39 anos ou mais têm apenas 31% de taxa de vitória quando enfrentam adversários com menos de 30 anos no UFC.
As casas de apostas refletem a desconfiança no momento de Burns, colocando Malott como ligeiro favorito com odds de -125 contra +105 do brasileiro. Números que pareciam impensáveis quando Burns ocupava o top 3 da divisão há apenas três anos. A diferença de idade de sete anos entre os lutadores pode ser determinante em uma luta que promete ser decidida nos detalhes.

Gilbert Burns volta ao octógono no sábado, 18 de dezembro, sabendo que uma quinta derrota consecutiva praticamente selaria sua saída do UFC. O card principal do UFC Winnipeg começa às 21h (horário de Brasília), com transmissão ao vivo pelo Paramount+.









