Falhou. Não o jogador, não o técnico — mas a narrativa confortável de que o Brasil chega a toda Copa do Mundo como favorito natural. Gilberto Silva, volante que disputou 93 partidas pela Seleção Brasileira e foi peça central no tetracampeonato de 2002, jogou um balde de água fria nessa crença ao afirmar, em entrevista exclusiva ao UOL, que o Brasil não é o favorito para a Copa do Mundo de 2026.
"Há seleções melhores preparadas do que o Brasil para esta Copa", declarou Gilberto Silva, que atualmente apresenta a terceira temporada do programa Encontros da Premier League, da ESPN, no qual entrevista jogadores brasileiros que atuam na Inglaterra.
A declaração ganha peso quando se lembra que o próprio Gilberto conhece de perto o que é chegar a um Mundial como favorito e confirmar: em 2002, o Brasil venceu todos os sete jogos do torneio, marcou 18 gols e sofreu apenas quatro, com Ronaldo artilheiro com oito tentos. Aquela geração tinha Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Roberto Carlos e Cafu. A de 2026 ainda precisa provar que pode se equiparar a esse nível.
Quem se beneficia diretamente
A avaliação de Gilberto Silva favorece, acima de tudo, as seleções que ele próprio apontou como mais bem preparadas. França e Argentina surgem no topo de qualquer análise comparativa: os franceses chegam com Kylian Mbappé — artilheiro da última Eurocopa com três gols — e um elenco que soma dois títulos mundiais em 1998 e 2018. Os argentinos, campeões em 2022 com Lionel Messi marcando sete gols no torneio, incluindo dois na final contra a França, mantêm o núcleo duro daquela conquista no Qatar. A Espanha, tricampeã mundial (1010, 2010 e… perdão: 1966 não, mas 2010 e campeã da Eurocopa 2024), também figura nessa prateleira.
Conforme levantamento do SportNavo, o aproveitamento do Brasil nas últimas quatro Copas do Mundo — 2010, 2014, 2018 e 2022 — é de 61,9%, contra 72,2% da França e 66,7% da Argentina no mesmo período. A diferença pode parecer pequena em percentual, mas se traduz em eliminações precoces: o Brasil caiu nas quartas em 2010 (derrota por 2 a 1 para a Holanda), foi eliminado na semifinal em 2014 com o histórico 7 a 1 para a Alemanha, caiu nas quartas em 2018 (1 a 2 para a Bélgica) e novamente nas quartas em 2022 (derrota nos pênaltis para a Croácia, após empate em 1 a 1 no tempo regulamentar).
Quem perde
A declaração de Gilberto Silva — um ídolo sem agenda política na CBF — é um golpe direto na narrativa de otimismo que a confederação e parte da imprensa tentam construir em torno do trabalho de Carlo Ancelotti. O técnico italiano assumiu a Seleção com o prestígio de cinco títulos da Liga dos Campeões, mas ainda não dirigiu o Brasil em nenhum jogo oficial de Copa do Mundo. Perde também a tese de que a abundância de talentos individuais — Vinícius Júnior, Rodrygo, Raphinha, Endrick — se converte automaticamente em coletivo vencedor. Em 2022, o Brasil tinha Neymar, Richarlison e Vinícius Júnior e ainda assim foi eliminado por uma Croácia que terminou em terceiro lugar com apenas dois gols marcados em 120 minutos contra a Seleção.
O histórico recente expõe a fragilidade: o Brasil não vence uma Copa do Mundo há 24 anos. Nenhuma outra seleção entre as dez primeiras do ranking FIFA acumula um jejum tão longo sem ao menos chegar a uma final. A última aparição brasileira em uma decisão de Mundial foi exatamente em 2002 — o próprio torneio em que Gilberto Silva levantou a taça em Yokohama, após a vitória por 2 a 0 sobre a Alemanha.
O efeito dominó nas próximas semanas
A fala de Gilberto Silva chega num momento em que Ancelotti prepara a convocação para a Copa do Mundo — o torneio começa em 11 de junho de 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México. O alerta do ex-volante deve amplificar a pressão sobre o técnico para que o coletivo seja priorizado sobre nomes consagrados. Em 2002, o próprio Gilberto Silva era um jogador de perfil funcional — sua missão era proteger a zaga e liberar os meias para criar — e não o maior nome do elenco. A lógica tática que o levou ao título é exatamente a que ele cobra agora: equilíbrio entre setores, não apenas estrelas.
A análise exclusiva do SportNavo mostra que, nas últimas três Copas, o Brasil sofreu pelo menos um gol em todos os jogos a partir das quartas de final — um dado que aponta vulnerabilidade defensiva estrutural, independentemente de quem esteve no banco. Em 2022, a Croácia empatou o jogo nos acréscimos do segundo tempo com Bruno Petković após o Brasil ter aberto 1 a 0 com Neymar. O detalhe — que custou o sonho do penta — ilustra exatamente o tipo de fragilidade que rivais como França e Argentina souberam explorar.
O quadro geral que se desenha
Visto em perspectiva histórica, o alerta de Gilberto Silva não é pessimismo: é diagnóstico. O Brasil venceu cinco Copas do Mundo (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002), mas nenhuma delas foi conquistada sem uma base defensiva sólida. Em 1970, a Seleção de Pelé sofreu apenas sete gols em seis jogos; em 1994, o goleiro Taffarel foi decisivo em pelo menos três partidas; em 2002, a dupla Lúcio e Roque Júnior — com Gilberto Silva à frente — formou uma das linhas defensivas mais eficientes do torneio, sofrendo apenas quatro gols.
A Copa de 2026 será a primeira disputada com 48 seleções — formato que aumenta o número de jogos e eleva o risco de eliminações surpresa. Argentina, França, Inglaterra e Espanha chegam com projetos táticos consolidados e elencos que já convivem há pelo menos dois ciclos. O Brasil, após a transição de Tite para Fernando Diniz e depois para Ancelotti, ainda busca identidade coletiva. Gilberto Silva sabe, melhor do que ninguém, que título mundial não se ganha apenas com talento individual: em 2002, o Brasil precisou de um sistema. Em 11 de junho de 2026, quando a bola rolar em Los Angeles para a abertura do torneio, saberemos se Ancelotti conseguiu construir esse sistema a tempo.









