— Oito por cento, cara. O Goldman Sachs deu oito por cento pro Brasil.
— Que Goldman o quê. Esses caras erraram a crise de 2008 e agora querem me dizer que a Argentina elimina a Seleção?
— Pior: ainda colocam a Espanha com 26%.

Essa cena se repetiu em bares de Porto Alegre a Fortaleza nesta terça-feira (2), depois que o estudo dos economistas do Goldman Sachs, liderados por Jan Hatzius, viralizou com uma previsão que não agradou ninguém vestindo amarelo: o Brasil eliminado pela Argentina na semifinal, derrotado depois pela França na disputa de terceiro lugar, enquanto a Espanha levanta a taça com 26% de probabilidade. O relatório, divulgado a menos de dez dias do início da Copa do Mundo 2026, usa o ranking Elo — originalmente desenvolvido para classificar jogadores de xadrez — como principal variável para projetar quantos gols cada seleção faria contra outra.

O que o modelo Elo mede e o que ele deliberadamente ignora

O ranking Elo é um sistema robusto para medir desempenho acumulado: pondera resultados por importância da partida, força do adversário e local do jogo. O Goldman incorporou ainda dados históricos de Copas anteriores, indicadores recentes de desempenho e o chamado fator "mando de campo" — relevante porque a Copa 2026 acontece em solo norte-americano, o que tecnicamente beneficia seleções com maior base de torcedores nos Estados Unidos, Canadá e México. O problema é estrutural: o Elo é retrospectivo por natureza. Ele mede o que aconteceu, não o que está acontecendo.

O Brasil de Carlo Ancelotti que embarcou para Nova Jersey nesta terça-feira não é o mesmo que acumulou os pontos que alimentam o modelo. A Seleção passou por uma reconstrução tática relevante nos últimos 18 meses, e o Elo ainda carrega o peso estatístico de campanhas anteriores. Para efeito de comparação: em julho de 1994, modelos similares baseados em desempenho histórico não davam ao Brasil de Romário e Bebeto mais do que 12% de chances — o time vinha de uma eliminação nas quartas de final em 1990 e de uma Copa de 1986 que terminou em pênaltis contra a França. O resultado todos conhecem: tetracampeão em Pasadena, com apenas um gol sofrido em seis jogos.

"Nosso prognóstico está alinhado com o padrão histórico de que a Copa do Mundo quase sempre volta para a Europa depois de ser vencida por uma equipe sul-americana", afirmaram os economistas do Goldman Sachs liderados por Jan Hatzius.

A frase de Hatzius revela o viés mais problemático do estudo: ele usa padrão histórico como argumento preditivo em um torneio que, por definição, é uma amostra de 64 jogos com alta variância. A última Copa vencida pela Argentina, em 2022, quebrou exatamente esse padrão europeu que o Goldman cita como referência. O modelo previu a Espanha como favorita naquele torneio também — os espanhóis caíram nas oitavas para o Marrocos.

Os 8% brasileiros e o que acontece antes da estreia contra o Marrocos

A quarta colocação do Brasil no ranking de probabilidades — atrás de Espanha (26%), França (19%) e Argentina (14%) — não é absurda isoladamente. O problema é o cenário modal que o Goldman projeta: eliminação específica pela Argentina na semifinal. Isso pressupõe que as duas seleções chegam até lá sem tropeços, o que implica um caminho de cinco jogos perfeitos para ambas em um torneio com 48 seleções e nova fase de grupos expandida.

O Brasil estreia no dia 13 de junho contra o Marrocos, em Nova York. Antes disso, a Seleção enfrenta o Egito no sábado (6) em último amistoso preparatório, enquanto a programação desta terça incluiu a chegada ao Hotel The Ridge, em Basking Ridge, Nova Jersey, e treino no CT do Red Bull às 17h (horário de Brasília). Ancelotti sinalizou que usará o jogo contra o Egito para mais testes táticos — o que significa que o modelo do Goldman está tentando prever um time cujo esquema definitivo ainda não foi revelado publicamente.

A Argentina de Lionel Messi, por sua vez, entra no torneio como campeã mundial e com 14% de chances segundo o mesmo estudo. Se o Goldman acredita que os argentinos chegam à semifinal para eliminar o Brasil, está implicitamente concedendo ao atual campeão uma trajetória sem grandes obstáculos — o que também não tem respaldo no histórico recente de Copas, onde zebras são regra, não exceção.

Por que simulações financeiras e Copa do Mundo são uma combinação perigosa

Bancos de investimento produzem previsões de Copa há pelo menos três décadas. O Deutsche Bank errou o campeão em 2010 (previa Brasil, ganhou a Espanha). O UBS errou em 2014 (previa Argentina, ganhou a Alemanha). O próprio Goldman Sachs, em simulação de 2018, apontava o Brasil como favorito — a Seleção foi eliminada pela Bélgica nas quartas com um 2 a 1 que ainda dói. O padrão de acerto desses modelos em prever o campeão é, historicamente, inferior ao de especialistas em futebol que assistem aos jogos.

"O ranking Elo foi criado para medir desempenho em sistemas com informação completa e partidas simétricas", explicou o físico Arpad Elo ao desenvolver o método para o xadrez nos anos 1960. Aplicá-lo a futebol — onde um gol de falta no último minuto muda tudo — é uma extrapolação com limites claros.

A matéria analisada pelo SportNavo mostra que o documento do Goldman também não incorpora variáveis qualitativas: a coesão de grupo, o estado físico de jogadores-chave às vésperas do torneio, ou o impacto de lesões de última hora. O Brasil perdeu peças importantes no ciclo pré-Copa e as reposições táticas de Ancelotti são justamente o fator mais imprevisível — e mais relevante — para qualquer análise séria de desempenho.

O jogo do Brasil contra o Egito no sábado (6) vai entregar mais informação concreta sobre o esquema de Ancelotti do que qualquer simulação de banco de investimento. Quem quiser entender as reais chances da Seleção antes da estreia contra o Marrocos no dia 13 de junho, vale gravar esse amistoso e prestar atenção especialmente na linha de quatro e no posicionamento dos meias — é ali que o técnico italiano ainda tem perguntas em aberto.