É um diamante com uma rachadura invisível a olho nu. Só percebem os que sabem exatamente onde olhar.

A imagem de Vinicius Júnior na temporada 2025/2026 é exatamente essa: um jogador capaz de marcar dois gols em uma única tarde no Stage Front Stadium — como fez contra o Espanyol em partida que impediu o título antecipado do Barcelona, mantendo o Real Madrid a 11 pontos dos catalães com 77 contra 88 — e ao mesmo tempo ter um gol legítimo apagado do placar por falta de Mbappé no início da jogada, numa derrota por 1 a 0 para o mesmo Espanyol em rodada anterior. Duas narrativas que coexistem sem se anular, e é exatamente essa coexistência que torna o caso tão difícil de interpretar.

O que dizem os envolvidos

O diário Marca publicou, na última terça-feira, uma reportagem assinada por Felipe Del Blanco que não deixa margem para interpretação suave:

O que dizem os envolvidos Gols anulados, Raphinha na sombra e uma
O que dizem os envolvidos Gols anulados, Raphinha na sombra e uma
"O club blanco está visivelmente chateado com o desempenho de Vinicius em 2025, ano que ficou muito aquém das expectativas. Depois de perder a Bola de Ouro, seu desempenho caiu significativamente, e sua contribuição no Clásico recente foi decepcionante. A diretoria e a comissão técnica esperam que Xabi Alonso possa recuperar sua melhor forma."

A menção a Xabi Alonso é o detalhe mais revelador da reportagem: o novo técnico merengue já é visto internamente como o responsável por reanimar um jogador que, segundo a própria diretoria, perdeu consistência após o episódio da Bola de Ouro. A ESPN Brasil descreveu o gol de Vini na Supercopa da Espanha, disputada em Jeddah, como "antológico" — ele deu uma caneta em Koundé antes de finalizar —, mas o próprio veículo resumiu o drama do brasileiro numa frase: o tento foi "anulado" pela atuação espetacular de Raphinha, que marcou um gol em cada tempo para comandar a vitória do Barcelona por 3 a 2 e dar ao clube catalão o bicampeonato da Supercopa.

O que dizem os números

A análise do SportNavo sobre o desempenho de Vini Jr. nos clássicos de 2025/2026 revela um padrão incômodo: nos confrontos diretos contra o Barcelona, o brasileiro oscila entre o sublime e o irrelevante dentro do mesmo jogo. No Clásico da 35ª rodada de La Liga, vencido pelo Barça por 4 a 3, a contribuição de Vini foi considerada abaixo do esperado pela própria imprensa madridista. Na Supercopa, marcou um gol de antologia e ainda assim saiu do campo como coadjuvante da narrativa — porque Raphinha, com dois gols, foi simplesmente avassalador.

  • Real Madrid: 77 pontos após 14ª rodada de La Liga 2025/2026
  • Barcelona: 88 pontos — 11 de vantagem antes do Clásico do Camp Nou em 10 de maio
  • Espanyol: 13º colocado com apenas 13 pontos, adversário nos dois episódios polêmicos envolvendo Vini
  • Supercopa da Espanha: Barcelona 3 x 2 Real Madrid — Raphinha (2) e Lewandowski marcaram pelos culés

Há um dado histórico que contextualiza a pressão sobre Vini: quando Ronaldo Nazário viveu sua primeira crise no Real Madrid, em 2002/2003, o clube terminou a La Liga com apenas 72 pontos — abaixo do ritmo que o atual elenco merengue mantém. A diferença é que Ronaldo tinha Zidane ao lado para absorver a pressão. Vini tem Mbappé — e o francês, em vez de aliviar, já foi o responsável direto pela anulação de um gol do brasileiro contra o próprio Espanyol, por falta cometida no início da jogada.

O peso do gol anulado

Tecnicamente, o lance segue o artigo 12 do regulamento da La Liga: falta cometida antes do início da jogada que resulta em gol invalida o tento, independentemente de quem finalize. O VAR confirmou a decisão do árbitro. O Real Madrid terminou aquela partida com 71,9% de posse de bola, 22 finalizações contra apenas 5 do Espanyol — e zero gols. O único gol da partida, de Carlos Romero aos 39 minutos do segundo tempo, veio de um contra-ataque.

O que digo eu sobre o quadro

Trabalhei em Barcelona entre 2001 e 2005, e me lembro bem do que aconteceu com Ronaldinho Gaúcho na sua segunda temporada no Camp Nou: o brasileiro chegou ao clube como promessa cara, teve um início tímido, foi alvo de cobranças internas e, na terceira temporada, explodiu para conquistar a Bola de Ouro de 2005. O ciclo de adaptação de um jogador criativo num clube de pressão máxima raramente é linear — e quem acompanhou La Liga nos anos 90 sabe que até Rivaldo, no seu melhor Barça, teve temporadas de alternância brutal entre o genial e o invisível.

O que me preocupa no caso de Vini Jr. não é a oscilação em si, que é normal para atacantes de alto risco técnico. O que me preocupa é a combinação de três fatores simultâneos: a pressão institucional documentada pelo Marca, a lesão no tornozelo esquerdo sofrida no Clásico recente — que pode tirá-lo dos três jogos restantes de La Liga — e a ascensão de Raphinha como o brasileiro de referência nos clássicos desta temporada europeia. Raphinha soma gols decisivos em ao menos dois confrontos de alta tensão em 2025/2026, e a comparação entre os dois é agora inevitável nas redações de Madri e Barcelona.

A pergunta que os torcedores merengues fazem — e que a diretoria parece estar fazendo nos bastidores — é se Xabi Alonso, ao assumir o comando técnico, conseguirá devolver a Vini o protagonismo que ele tinha quando acumulava 23 gols e 9 assistências em uma única temporada de La Liga. Por enquanto, o brasileiro que impediu o título antecipado do Barça com dois gols contra o Espanyol é o mesmo que pode estar fora do campo quando o Camp Nou receber o Clásico decisivo no dia 10 de maio — e isso, por si só, já diz muito sobre a ambiguidade deste momento.

É o mesmo cenário que Arjen Robben viveu no Real Madrid entre 2008 e 2009 — talentos inquestionáveis engolidos por uma temporada de lesões, gols anulados e a sombra de um rival mais regular — só que agora a aposta é diferente: o clube acredita que uma troca de comando técnico pode resolver o que a continuidade não conseguiu.