Se o Palmeiras tivesse encerrado a semana sem vencer o Sporting Cristal, o debate sobre o desempenho defensivo da equipe teria tomado uma proporção muito maior do que a atual. Dois empates consecutivos — contra Cerro Porteño e Santos — haviam acendido um sinal amarelo que nem a liderança do Brasileirão e do Grupo F da Libertadores conseguia apagar completamente.

A vitória sobre o Sporting Cristal, construída com 22 finalizações e placar que o clube não divulgou em detalhes imediatos, trouxe alívio — mas não silenciou as questões. O próprio Gustavo Gómez, capitão e referência da zaga alviverde, escolheu não desviar do assunto. Em entrevista ao Paramount+, o zagueiro paraguaio foi direto:

"Acho que internamente sabemos que temos que melhorar algumas coisas, manter outras também, por isso estamos líderes do Brasileirão, fomos campeões do Paulista, somos líderes do grupo na Libertadores. O sarrafo nos últimos anos foi muito alto, é o preço que tem que pagar."

A declaração de Gómez não é apenas uma fala de vestiário. Ela traduz uma tensão real que o Palmeiras carrega em 2026: o clube mantém resultados positivos nas tabelas, mas apresenta oscilações defensivas que contradizem a solidez histórica construída sob Abel Ferreira.

O que os empates contra Cerro e Santos revelam sobre a defesa palmeirense

Pontuar contra o Cerro Porteño, terceiro colocado do Grupo F com 4 pontos, e contra o Santos — adversário direto no Brasileirão — não é catástrofe. Mas o padrão de concessão de gols e a dificuldade de controlar partidas que o Palmeiras costumava fechar com autoridade chamam atenção de quem analisa o desempenho coletivo com critério.

O Palmeiras de Abel Ferreira nos ciclos de 2021 e 2022 era referência continental em organização defensiva: poucas transições concedidas, linha de quatro compacta e saída de bola limpa pelo sistema. Em 2026, a equipe segue líder do Brasileirão e do grupo da Libertadores, mas os empates consecutivos antes da vitória sobre o Sporting Cristal indicam que a equipe tem cedido espaços que antes não cedia — especialmente em transições defensivas nos momentos em que o time pressiona alto.

A análise do SportNavo aponta que o problema não é individual. Gómez e o setor defensivo seguem entre os mais experientes da competição, mas a cobertura entre linhas e o posicionamento no momento de perda de bola têm sido menos automáticos do que em temporadas anteriores, reflexo de um elenco em processo de reconfiguração.

Gómez reconhece a cobrança e defende a identidade do grupo

Mesmo reconhecendo as falhas, Gómez foi cuidadoso para não transformar a autocrítica em alarme. O capitão citou as conquistas recentes — título do Paulistão e liderança dupla — como evidência de que o trabalho tem consistência, mas reforçou que o nível de exigência dentro do clube é proporcional ao histórico construído nos últimos anos.

"Todo mundo quer melhorar, acho que nosso torcedor também sabe disso, nosso time tem uma identidade que é acreditar até o fim, fizemos um jogo muito bom contra o Cerro, contra o Santos também, hoje conseguimos uma vitória merecida e feliz por tudo isso", completou o zagueiro.

Essa identidade a que Gómez se refere — competitividade até o apito final — é, de fato, uma marca registrada do Palmeiras de Abel. Mas há uma diferença entre vencer sofrendo e vencer controlando. O torcedor palmeirense, acostumado com equipes que dominavam partidas por 70, 80 minutos seguidos, sente essa diferença com a mesma nitidez de quem atravessa o centro de Salvador num dia de jogo e percebe que o ritmo mudou sem que ninguém anunciasse.

No jogo contra o Sporting Cristal, o Palmeiras criou volume ofensivo considerável — 22 finalizações ao longo dos 90 minutos —, mas a equipe também mostrou dificuldade de aproveitar as chances criadas, o que significa que o problema não é exclusivamente defensivo. A falta de eficiência no ataque pressiona a defesa a trabalhar com margens menores de erro.

Os próximos compromissos e o ajuste que Abel Ferreira precisa fazer

Com 8 pontos no Grupo F, o Palmeiras reassumiu a liderança da chave após a vitória sobre o Sporting Cristal, que ficou em segundo com 6 pontos. Cerro Porteño soma 4 e o Junior é lanterna com 1 ponto — as duas equipes se enfrentam na quinta-feira e podem mexer na configuração do grupo dependendo do resultado.

O que os empates contra Cerro e Santos revelam sobre a defesa palmeirense Gómez
O que os empates contra Cerro e Santos revelam sobre a defesa palmeirense Gómez

Antes de pensar na Libertadores, o Palmeiras tem um compromisso urgente pelo Brasileirão: no próximo domingo, dia 10, a equipe enfrenta o Remo no Mangueirão, em Belém, às 16h (horário de Brasília). O duelo é uma oportunidade para Abel Ferreira testar ajustes defensivos contra um adversário tecnicamente inferior — o que pode revelar se as oscilações recentes são conjunturais ou sintomáticas de algo mais profundo no sistema.

O que Gómez deixou claro é que o Palmeiras não está em crise — está em processo de regulagem. A liderança simultânea no Brasileirão e na Libertadores sustenta essa leitura. Mas o próprio capitão admitiu que o padrão interno de exigência é alto demais para aceitar empates como resultado satisfatório. O jogo contra o Remo, no Mangueirão no domingo, será o primeiro termômetro concreto de que lado essa regulagem está pendendo.